Quinze. Esse é o número de estupros coletivos registrados por dia no Brasil entre 2022 e 2025. Mais do que uma estatística alarmante, esse dado revela um problema estrutural que atravessa a sociedade brasileira e escancara o fracasso coletivo na proteção das mulheres, especialmente das mais vulneráveis.
Os números são provenientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), base oficial do Ministério da Saúde utilizada para registrar casos de violência atendidos pela rede de saúde. Quando um dado dessa magnitude aparece em um sistema institucional, não estamos falando apenas de ocorrências policiais, mas de uma realidade que chega aos hospitais, postos de saúde e serviços de assistência. Ou seja, estamos diante de uma violência que deixa marcas físicas, psicológicas e sociais profundas.
É importante lembrar que as estatísticas provavelmente representam apenas uma parte do problema. Crimes sexuais, especialmente os coletivos, carregam um peso enorme de vergonha, medo e silêncio. Muitas vítimas não denunciam por receio de represálias, descrédito ou revitimização. Portanto, os 15 casos diários registrados podem ser apenas a ponta de um iceberg muito maior.
O estupro coletivo revela também um aspecto perverso da cultura da violência: ele raramente é apenas um crime individual. Trata-se de uma agressão que envolve cumplicidade, banalização da violência sexual e, muitas vezes, uma visão distorcida de poder e masculinidade. Quando um grupo participa ou se omite diante desse tipo de crime, estamos diante de um fenômeno social, não apenas criminal.
Combater esse cenário exige muito mais do que repressão policial. É necessário fortalecer políticas públicas de proteção às vítimas, ampliar campanhas educativas sobre consentimento e igualdade de gênero, além de investir em educação que enfrente o machismo estrutural desde cedo. Também é fundamental garantir que a rede de saúde, assistência social e segurança pública esteja preparada para acolher e proteger quem denuncia.
Os números divulgados nesta semana não podem ser apenas mais uma estatística a circular nas redes sociais por alguns dias. Eles precisam provocar incômodo, debate e ação. Porque quando um país se acostuma a contar estupros coletivos em médias diárias, algo muito profundo está errado na forma como a sociedade enxerga a violência contra as mulheres.
