Tudo começa na Dona Terezinha. Minha maior sorte foi ser criado pela Dona Terezinha. Desde o nascimento fui incentivado para as letras, direta ou indiretamente, lá estava ela dizendo que ler era bom para a saúde, ou mostrando com brilho nos olhos sua estante de enciclopédias na pequena sala que morávamos à época. Até hoje, em Viamão, naquela casinha de madeira que envelhece aos poucos, há alguns exemplares daquelas enciclopédias antigas, que ainda estão novas e brilhando na minha memória. Por conta do Alzheimer, a vó já esqueceu muita coisa, mas a importância dos livros ainda se faz presente. Sempre, em algum momento, surge uma memória alegre que a literatura/livro/escrita está envolvida, seja uma história de detetive da Agatha Christie; seja a imagem incrivelmente nítida da tia Vera queimando seu diário com poemas; seja a lembrança de quando, eu menino ainda, dizendo que gostava de ficar (esconder) na biblioteca da escola. Dona Terezinha estudou até a quarta série do primário, mesmo com todas as violências que uma criança negra recebia, na sala de aula, na década de 40 em Cachoeira do Sul (leia-se palmatória), lembra com alegria das cantigas e brincadeiras de roda, da professora Marta, e do seu jeito delicado e afetuoso de ensinar a ler. Meu maior privilégio de escritor hoje, é ter sido criado e educado por Dona Terezinha.
Desde que comecei essa ‘via-sacra’ de ser escritor (gosto dessa alegoria para pensar esse lugar do escritor, e defensor das letras/literatura; e essa cruz que carregamos: a literatura como movimento de emancipação; e ser um homem negro, intelectual da literatura), noto os lugares dessa literatura em Porto Alegre. Tanto os lugares físicos, como as livrarias, sebos, bibliotecas, feiras literárias; como os lugares imaginários, como morar em determinado bairro (Bonfim), frequentar determinados espaços (Café Cantante), ter sido aluno do escritor x (Assis Brasil), ou ser amigo do professor tal (L. A. Fischer). O sonho daquele menino negro foi perdendo o brilho, igual uma roupa nova que vai desbotando com o tempo. Vai se criando uma necessidade de estar nesses lugares, de estar com pessoas com pensamentos parecidos, leituras parecidas, escritos parecidos, entretanto, assim conforme o açúcar está para o diabético, ser figura constante nesses espaços, um sentir sutil vai tomando forma, lenta e dolorosamente, o racismo vai te deteriorando.
O negro único
Uma dualidade interna constante: O prazer de estar presente, ser o único negro no espaço; chegar cedo pelo horário do ônibus, sair cedo para não perder o ônibus; querer valorizar e comprar o livro do amigo, a vergonha de só ter o dinheiro da passagem; o desleixo das pessoas brancas que moram no centro, o meu demérito por morar numa casa de madeira, em outra cidade, numa rua sem asfalto. Não há saúde mental que aguente. Já perdi as contas das vezes que, no último banco, do último ônibus, no último horário, senti uma dor violentamente constante, uma angústia presa no peito de não saber se conseguiria voltar.

Já trabalhei em diversos lugares literários em Porto Alegre. Fosse eu um daqueles jovens brancos da Letras, que moram no Bonfim, frequentadores do Bloco da Laje, da já famosa ‘esqueda-festiva’, estaria lá até hoje com todas as benesses, sem preocupação alguma. Mas, sendo um homem negro, as relações são bem diferentes. Mesmo com um arcabouço de pesquisas e leituras, sempre a dúvida sobre meus estudos pairava sobre mim. Nas livrarias, entre livros e prateleiras, as violências mais sutis, desde os frequentadores aos donos, de piadas de cunho racista à demissão por defender um homem negro em situação de rua. Inclusive, nesta última, por maior ironia que pareça, o casal gay que comanda a livraria, que se diz progressista, cultivam uma prateleira Literatura Negra na mesma livraria. Como diria um amigo: homens brancos gays, continuam brancos.
Quando eu vi pela primeira vez, as páginas do que seria o Marlírico, desatei a chorar compulsivamente. Graças à escritora Eliane Marques, do poeta Ronald Augusto, meus primeiros escritos tinham valor, valiam leitura e debate. Pela primeira vez, as palavras escritor e poeta eram direcionadas a mim; nomes respeitados no meio literário, pessoas negras iguais a mim, me viam em igual posição de criação literária. Todavia, para além da alegria do lançamento do Marlírico, o que me causa enorme felicidade e lágrimas muitas, é lembrar minha mãe Maria ainda viva, Dona Terezinha ainda lúcida, uma ao lado da outra, festejando meus versos em formato de livro.
Escrevendo me entendo
Como escreveu Djaimilia Pereira de Almeida, “Foi escrevendo que me encontrei com a minha pele. Escrevendo, entendi-me negra.”, comigo não foi diferente. Só fazendo essa construção de entendimento do que é ser um homem negro, que eu consegui estruturar essa ideia de escritor/poeta. De tanto ler meus iguais, escritores negros, antigos e contemporâneos, clássicos e iniciantes, alcancei essa tranquilidade de escrever a partir da minha pele. De tanto pesquisar sobre, conquisto essa subjetividade negra, escrevo a partir disso, e ser negro é essencial para isso.

Estudar as escritas negras brasileiras, seus inícios e vertentes, possibilidades e tempos, fomentam em mim essa escrita com propriedade e segurança. Novamente Djaimilia, “Depois de começar a escrever, nunca mais vi o mundo do mesmo modo ou a mim mesma no mundo da mesma forma. Nunca mais me odiei. Nunca mais tive vergonha de ser quem sou.”, completa minhas palavras. Escrever deu a mim uma nova possibilidade de existir, se ser quem sou, e estar bem com isso. Contudo, lutar por esse lugar, e reconhecimento, ainda são batalhas ingratas no meio. Quantos escritores negros existem em Porto Alegre? Quantos espaços negros de literatura existem em Porto Alegre? Todos os negros e negras que escrevem pode ir nesses espaços? O sistema já tem seus negros escritores preferidos, posso eu entrar?
Um presente sem tamanho
Esse sistema é tão perverso que as vezes, ou melhor, muitas vezes, me parece mais fácil criar pontes, ligações, intercâmbios, com pessoas do eixo Rio-São Paulo, do que com pessoas daqui, vizinhas, de Porto Alegre. Isso, em todos os tipos de sistema, no literário, não é diferente. Não é à toa que, meu segundo livro foi publicado por uma editora do Rio de Janeiro. E, se eu fosse, partir do ponto racial, essa questão ficaria mais evidente. Mesmo, com todos os obstáculos, vejo escritores negros e escritoras negras, naturais aqui do Rio Grande do Sul, em editoras de renome nacional e finalistas de concursos literários pelo país.
Hoje, ser reconhecido como escritor, ter livros publicados, ter participado de eventos literários pelo país, receber vídeos de alunos lendo/falando sobre meus livros, ser lembrado em trabalhos de faculdade, é um presente sem tamanho. No entanto, vejo que ainda falta uma valorização desse corpo negro no lugar de escritor, quando falo valorização, é no sentido financeiro mesmo. Tirando algumas exceções, ainda vejo meus iguais batendo de porta em porta, oferecendo livro, uma palestra, uma fala, um curso. E, nisso, os mesmos (brancos), continuam falando as mesmas coisas, nas mesmas aulas, nos mesmos cursos.
Minha mãe Maria faleceu em 2020, minha avó Dona Terezinha avança no quadro de demência, meu pai voltou a ler por causa dos meus escritos e livros. Sou fruto dessas pessoas. Sou negro e escrevo o que sou. Escrever contempla e completa meu eu. Privilégio desse tempo é poder pensar sobre isso. O meu maior privilégio de ser escritor hoje, de acordo comigo, é ser neto da Dona Terezinha.
