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“A Morte do Demônio – Em Chamas” é brutal e visceral, mantendo a franquia em ponto alto

“A Morte do Demônio - Em Chamas” é brutal e visceral, mantendo a franquia em ponto alto

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Há algo de extraordinário em uma franquia de terror que, depois de quatro décadas, continua não apenas viva, mas genuinamente relevante. “A Morte do Demônio – Em Chamas”, o sexto capítulo da saga iniciada por Sam Raimi em 1981, prova que o universo dos Deadites ainda tem muito a dizer  e, mais importante, que pode dizê-lo sem depender da caricatura musculosa de Bruce Campbell ou dos travessões câmera na mão que definiram os primeiros filmes. Sob o comando do francês Sébastien Vaniček, a franquia encontra um caminho narrativo viável para o presente, estabelecendo pontes tênues, porém precisas, com sua mitologia original, ao mesmo tempo em que injeta um fôlego inédito em sua propriedade intelectual.

O núcleo dramático gira em torno de Alice (Souheila Yacoub), uma mulher que enterra o marido William (George Pullar) após um acidente de carro. Alice não está tão arrasada quanto a família do falecido esperaria, e o filme não faz questão de esconder as razões. Há tensões não resolvidas no relacionamento, e a tragédia automobilística é apenas a casca de um horror maior. William foi, na verdade, assassinado por um Deadite.

Yacoub entrega uma atuação sólida e melancólica, ancorando o caos sobrenatural em uma dor humana palpável. Diferente dos heróis estoicos ou dos palhaços trágicos que povoaram a franquia, Alice é uma protagonista frágil, mas não passiva. Sua jornada é menos sobre sobreviver a demônios e mais sobre confrontar os fantasmas que já habitavam sua vida antes mesmo do Livro dos Mortos ser aberto.

Vaniček, que já havia chamado a atenção de Raimi com seu eficaz “Infestação” (2023), assume aqui um desafio de proporções maiores, e sai vitorioso. O diretor, que também assina o roteiro com Florent Bernard, demonstra ambição ao equilibrar três ou quatro relacionamentos em frangalhos, mesmo quando alguns dos envolvidos já estão tecnicamente mortos. A produção conta com o suporte de Rob Tapert e do próprio Raimi.

Visualmente, Vaniček e o diretor de fotografia Philip Lozano realizam manobras técnicas inteligentes. Há planos-sequência que acompanham personagens até o teto, e contraplanos que invertem a câmera dinâmica de Raimi para observar a brutalidade de um ponto de vista mais estático e sufocante. A paleta é propositalmente cinzenta e lamacenta durante grande parte do filme, reservando cores mais vibrantes apenas para o clímax, uma escolha que reforça o isolamento e o desespero dos personagens.

Se há uma marca registrada na franquia Evil Dead é a maneira como lida com a violência. Enquanto os filmes de Raimi recorriam a um exagero quase cartunesco, corpos possuídos que serviam como marionetes de borracha , Vaniček opta por um impacto mais visceral, seguindo o que seus antecessores de 2023 e 2013 propuseram. As punições corporais são desconfortáveis e inventivas. Um encosto de cabeça de banco de carro, um saca-rolhas, um caco de vidro, um cão possuído. O sangue, como de costume na história recente franquia escorre em fluxos espessos, e o gore remete ao cinema de terror extremo francês do início dos anos 2000, mas sem perder de vista a narrativa.

Surpreendentemente, o filme encontra espaço para o humor, algo que faltou no antecessor (A Ascensão), cujas tentativas de alívio cômico soavam como concessões forçadas ao fã. Aqui, o riso nasce do desconforto. Ruídos de construção durante o velório, a expectativa quase sádica do público por uma roçadeira que, como o fuzil de Tchekhov, inevitavelmente será ligada. É um humor que flerta com o macabro sem jamais trair o tom sombrio.

Outra inovação bem-vinda é a personalidade distinta dos Deadites. Ao contrário das encarnações anteriores, que eram forças caóticas e indistintas, as versões mortas-vivas dos personagens em “Em Chamas” agem com estratégia e malevolência calculada. Isso permite que o filme explore a psicologia de relacionamentos abusivos e feridas familiares antigas, um tema que ganha densidade à medida que o terror avança (há uma cena de beijo entre esposa e marido que simboliza esse aspecto)

Leia a crítica de ” A Morte do Demônio- A Ascensão”

É inevitável que qualquer filme da franquia deixe de ser comparado ao clássico de 1983. Ainda mais quando a franquia, em sua fase pós-Raimi, parece orbitar em torno daquele cabana na floresta e do Livro dos Mortos. No entanto, Vaniček consegue prestar homenagem sem se render à nostalgia. O filme não tenta imitar a comédia pastelão de “Evil Dead 2” ou a fantasia medieval de “Army of Darkness”; em vez disso, resgata o tom transgressor e desagradável do primeiro longa, atualizando-o para um público que já viu de tudo.

O ritmo é mais cadenciado que a corrida frenética de Raimi, e isso pode frustrar quem espera a montanha-russa de sustos típica da série. Mas é justamente ao respirar, que o longa constrói personagens, aprofunda conflitos e transforma o horror sobrenatural em espelho de dores reais.

“A Morte do Demônio- Em Chamas” é um capítulo maduro e ambicioso para quem busca mais que apenas entretenimento sanguinolento. É um terror visceral e brutal que consegue chocar ser inventivo mesmo numa franquia que já conta com seis filmes.

E, para uma franquia que já viu de tudo, isso é um feito e tanto.

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Última atualização em: 28 de julho de 2026 às 21:32

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