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Não devemos esquecer e nem perdoar: Entrevistamos Dandara Ferreira, diretora do documentário “Anatomia do Caos”

Entrevistamos Dandara Ferreira, diretora do documentário "Anatomia do Caos"

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Quando a pandemia foi oficialmente anunciada, qualquer pessoa com mínimo de senso de cidadania sabia que estaríamos à mercê das decisões de um presidente que tinha profundo desprezo por ciência e educação. Não só isso, mas tinha eleito uma vasta bancada para lhe dar guarida nas decisões mais estapafúrdias dentro de uma crise sanitária gravíssima que viria a vitimar mais de 700 mil vidas brasileiras, sem contar as subnotificações.

É sobre a CPI que visava responsabilizar os agentes desse genocídio orquestrado que foca o  documentário “Anatomia do Caos”, dirigido por Dandara Ferreira (“Meu Nome é Gal”). A cineasta revisita a negligência do governo de Jair Bolsonaro na pandemia de coronavírus a partir dos trabalhos da CPI da Covid. Com distribuição da Descoloniza Filmes e classificação indicativa de 12 anos, o filme reconstrói os bastidores da comissão no Senado, entrevista parlamentares e promove uma reflexão incisiva sobre memória, impunidade e justiça no Brasil. O circuito comercial de estreias abrangerá salas em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife, Curitiba, Salvador, Brasília e Fortaleza.

Em abril de 2021, Dandara decidiu ir a Brasília para registrar os trabalhos da comissão em meio a um ambiente de incerteza e medo. “O que me movia naquele momento era a percepção de que o país atravessava algo maior do que uma crise sanitária. Havia uma disputa brutal em torno da própria realidade”, afirma ela. Para a realizadora, a CPI surge no filme como o palco de uma tragédia nacional, um verdadeiro teatro político. O longa explora como o discurso oficial produziu uma confusão deliberada e colocou a ciência em xeque. “Não se tratava apenas de negligência. Havia uma construção de uma narrativa em curso, uma política da desinformação que transformava a morte em estatística e a dor coletiva em deboche”, pontua a cineasta.

 Entrevistamos Dandara Ferreira, diretora do documentário "Anatomia do Caos"

A potência do filme, no entanto, não se restringe ao registro factual. Em entrevista ao Pretessências, Dandara conversou sobre o impacto da obra, a recepção do público e o papel da memória na construção da justiça. Durante o bate-papo, ela lembrou que o filme já era para ter ficado pronto há muito tempo, mas que documentário dá trabalho, exige tempo e, principalmente, responsabilidade. “Eu tive a preocupação de ser muito honesta e muito coerente com a história”, explicou. A recepção nas redes sociais, segundo ela, foi surpreendente: um primeiro post sobre o filme, feito em colaboração com um amigo, alcançou 5 milhões de visualizações – número espontâneo, sem qualquer impulsionamento. “Isso mostrou que o assunto não foi esquecido, que as pessoas ainda estão muito ligadas”, disse.

Na minha memória, a pandemia nunca acabou e nunca acabará enquanto os assassinos permanecerem livres. Em textos de divulgação recente sobre o filme, muitas pessoas mostraram dividir a mesma impressão. “A pandemia passou, mas esse assunto ainda está presente nas nossas vidas. A gente ainda não resolveu totalmente o que aconteceu”. Ela destacou, ainda, um sentimento que tem recebido de muitas pessoas que perderam parentes: o desejo de justiça. “A gente viveu num governo negacionista, com deboche, com falta de empatia, falta de respeito e de solidariedade com as pessoas que estavam com falta de ar. Então, eu acho que tudo isso causa revolta”, afirmou. Segundo ela, “Anatomia do Caos” não é apenas um filme sobre pandemia – é um filme sobre memória e sobre justiça, sobre um país que transformou uma crise sanitária em tragédia política. “Eu espero que a gente dialogue sobre o que aconteceu, que a gente exija justiça e que as pessoas responsáveis sejam punidas, porque nunca houve nenhum pedido de desculpas da maior autoridade do país.”

O Brasil convive com uma cultura de impunidade que parece atravessar governos e épocas , como no caso da ditadura militar, em que ninguém foi responsabilizado. Pergunto se a cineasta acreditava que o descaso pela ciência e pelas vidas é algo endêmico no país. Ela é direta: “A gente muitas vezes produz provas, produz memórias, produz indignação, mas nem sempre consegue produzir justiça”, refletiu. Ela fez questão de ressaltar, porém, que a CPI da Covid não foi inútil: construiu um registro histórico sólido e indiciou muitas pessoas. O problema, segundo ela, é que a responsabilização não veio. “O fato de tantas pessoas apontadas pela CPI não terem sido responsabilizadas nos obriga a fazer uma pergunta incômoda: que país é esse? Como uma tragédia desta dimensão pode não produzir consequências proporcionais?” Para Dandara, o cinema tem um papel fundamental nesse processo: “A justiça trabalha com processos e prazos, mas o cinema trabalha com a memória. Uma democracia que perde a memória também enfraquece a sua capacidade de exigir responsabilidade.”

 Entrevistamos Dandara Ferreira, diretora do documentário "Anatomia do Caos"
Dandara Ferreira (Foto de Roberto Stuckert)

Ao decidir participar de perto do processo da CPI, a diretora ainda não tinha noção do marco histórico que registraria. Ela revelou que sua intuição dizia que ali havia algo importante, mas que só foi entender a dimensão do que filmava durante o processo de montagem. “Eu esperava que o Bolsonaro estivesse preso por causa da pandemia, então achei que meu filme terminaria aí. Mas vi que isso não ia acontecer tão cedo – ele foi preso agora, mas não por causa da pandemia”, disse. Foi na edição, segundo ela, que a história verdadeiramente se revelou.

Um registro como “Anatomia do Caos” poderia ter o poder de convencer pessoas que estão perdidas e comportamento de seita e não enxergam nada errado numa ideologia que destruiu a reputação do Brasil como exemplo de cobertura vacinal no mundo? Dandara respondeu com maturidade: “O filme não pede que o espectador concorde comigo – nem quero isso. Busco muito mais uma reflexão”. Ela defendeu que a democracia se faz no debate e nas divergências, e que o filme convida o espectador a olhar para os fatos, para as imagens e para a memória – e, a partir disso, fazer seu próprio percurso. “A maior contribuição do filme é para que a pandemia seja lembrada não apenas como uma crise sanitária, mas como um acontecimento político, social e humano que transformou o país”, afirmou. E destacou o timing da estreia: mesmo não tendo sido planejado para o ano eleitoral, o lançamento chega em um momento propício para reacender o debate sobre desinformação, responsabilidade pública, ataque à ciência e fragilidade democrática. “A pandemia não acabou simbolicamente no Brasil. A gente saiu da emergência sanitária, mas não elaborou coletivamente esse trauma. O filme pode trazer de volta o debate público para que a gente repense esse momento e para que isso não volte – não estou falando da pandemia em si, mas daquele projeto político que liderava o país naquele momento.”

Ao final da conversa, Aquiles agradeceu e destacou a importância de iniciativas como essa: “As pessoas que ainda se preocupam não estão sozinhas – tem muito mais gente pensando nisso”. Dandara retribuiu o agradecimento e reafirmou seu compromisso com a memória.

Para marcar o lançamento, “Anatomia do Caos” promoverá um amplo circuito de exibições especiais seguidas de debate com a presença da diretora, transformando as salas de cinema em espaços de diálogo e reflexão coletiva sobre a história recente do país. Como ela mesma conclui: “Esse filme nasce da necessidade pessoal de registrar esse período e da certeza de que algumas imagens precisam continuar abertas, porque elas ainda nos olham de volta”.

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Última atualização em: 13 de julho de 2026 às 17:37

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