Frantz Fanon (1925–1961) foi um intelectual, psiquiatra e revolucionário nascido na Martinica, cuja obra exerceu um impacto profundo sobre os movimentos de libertação nacional e as teorias críticas do século XX. Atuando como médico psiquiatra na Argélia durante o período colonial francês, Fanon vivenciou de perto os efeitos devastadores do colonialismo sobre a subjetividade dos povos colonizados. Autor de livros fundamentais como Pele Negra, Máscaras Brancas e Os Condenados da Terra, ele articulou pensamento crítico e ação política ao denunciar as violências simbólicas e estruturais do poder colonial.
Essa importância ganha um retrato em “Fanon”, o novo filme de Jean-Claude Barny. O longa se passa entre 1953 e 1957, período em que Fanon o psiquiatra martinicano de 28 anos, descendente de escravos, formado na França chega à Argélia para dirigir o serviço de psiquiatria do hospital de Blida. A França ocupava o país desde 1830, numa das colonizações mais longas e violentas da história moderna. O que Barny filma é a contradição em pessoa: um médico negro recém-chegado que escolhe tratar seus pacientes como seres humanos num sistema construído exatamente para lhes negar a humanidade. Fanon atende nos mesmos corredores os torturadores franceses e os torturados argelinos. Um ano depois de sua chegada, a Frente de Libertação Nacional iniciaria a guerra de independência. Ele não sabia, mas estava no centro de tudo.
Em determinada cena, soldados coloniais chegam a um vilarejo argelino procurando um líder insurgente. Não o encontram. Então escolhem alguém da multidão, aleatoriamente, e atiram na cabeça dessa pessoa na frente de todos. Sem julgamento, sem justificativa, sem hesitação. A cena é curta e brutal, e é exatamente por isso que funciona. Não há trilha sonora dramática, não há câmera lenta. O filme não dá tempo de se preparar porque a violência colonial também não avisa. Ela é assim: administrativa, rotineira, indiferente. Frantz Fanon passou anos tentando traduzir isso em teoria.

O diretor Jean-Claude Barny, nascido em Guadalupe, outro território ultramarino francês, como a Martinica de Fanon , conhece essa geografia de perto. Seu filme não estetiza a violência, não transforma o sofrimento em objeto de contemplação, pecado frequente do cinema que tematiza o colonialismo para as audiências ocidentais. Há uma contenção deliberada nas cenas mais pesadas, um cuidado em mostrar o peso do medo sem fazer do medo um espetáculo. A fotografia não trai essa aposta: a Argélia do filme é bela e sufocante ao mesmo tempo. A trilha sonora sustenta o mesmo equilíbrio e não conduz o espectador como se ele precisasse de instruções para sentir.
E, no entanto, “Fanon” é um filme difícil de abraçar por inteiro. Barny parece consciente demais da importância de seu protagonista e, em muitos momentos, filma a grandeza antes de alcançar o homem. O longa quer dar conta do hospital, da militância, do casamento, do racismo cotidiano, das disputas políticas e das tensões dentro da própria Argélia colonial. Tudo importa, mas nem tudo encontra lugar. O resultado é uma estrutura de mosaico, feita de blocos que se acumulam sem o equilíbrio narrativo necessário para que uma parte respire dentro da outra.
Os acertos vêm quando o filme se atém aos momentos no hospital. Ali, a política se concretiza para além das palavras. Fanon observa pacientes tratados como corpos administráveis, tenta alterar a lógica da instituição, acreditava que os doentes melhoravam se integrados à família e à comunidade, não encerrados em cubículos ou entupidos de remédios , desloca a clínica para uma ideia de humanidade que o colonialismo recusava desde a origem. São os momentos em que o filme encontra sua matéria mais viva, porque o pensamento aparece encarnado em práticas, em olhares, em pequenas mudanças de circulação e escuta. Fanon não é retratado como herói. Era um ser humano que acordava cedo, atendia pacientes, discutia com colegas, amava a esposa (apesar dessa relação não ser retratada com a devida profundidade), escolhia em tempo real como se posicionar diante do horror. Não havia manual.
Essa força, porém, se perde quando Barny volta a buscar Fanon como figura exemplar. A descontinuidade pesa porque o diretor toca em muitas frentes sem permanecer tempo suficiente em nenhuma delas. O filme parece avançar por obrigação histórica, como se precisasse garantir a presença de cada capítulo relevante, o racismo francês, a guerra, o casamento, a escrita de “Pele negra, máscaras brancas” (1952) e “Os condenados da Terra” (1961) , e esse cuidado rouba parte da fluidez do longa. A vida de Fanon, que foi feita de choque, deslocamento e pensamento em combustão, aparece organizada por passagens funcionais demais e insuficientes. Falta algum clímax, alguma passagem que ofereça brio ao biografado além do que já sabemos por suas obras.
O ator Alexandre Bouyer constrói um Fanon contido, concentrado, quase sempre atravessado pelo peso da lucidez, mas essa contenção às vezes aproxima o personagem de uma figura didática. Ao redor dele, outros registros oscilam. Personagens como o sargento Rolland (Stanislas Merhar), que se recusa a ser tratado por um “médico normal” (leia-se: negro), ou a jovem Farida (Sfaya Mbarki), que odeia os franceses depois de testemunhar brutais atos de violência, reação que Fanon considera normal, habitam intensidades diferentes, e esse desencontro de tons deixa o filme instável.
Ainda assim, “Fanon” é um filme que merece muito ser visto. Para quem conhece pouco da trajetória do psiquiatra e intelectual, há ali um contato importante com sua história, com a Argélia colonial, com a violência francesa e com uma concepção de cuidado que nasce da recusa em separar saúde mental, política e desumanização. Fanon nos ensina que o colonialismo não é apenas ocupação de terra e extração de recursos: é uma estrutura psíquica, um projeto de negação da humanidade do colonizado. E um psiquiatra que recusa essa negação, no interior de um hospital colonial, é um revolucionário. Cada gesto de reconhecimento da humanidade do outro é uma rachadura na estrutura.
A Argélia conquistou sua independência em 1962. Fanon não chegou a ver: morreu de leucemia em 1961, num hospital militar nos Estados Unidos, aos 36 anos. O que fazemos com essa herança é uma pergunta que o filme não responde porque não é o filme que precisa responder. Fora da tela, o pensamento de Fanon ecoa nos debates sobre raça, cultura e emancipação no Brasil, na obra de pesquisadores como Walter Lippold e Deivison Faustino (Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana), que mostram como a arquitetura do que Fanon descreveu migrou para os monopólios digitais.
“Fanon” não tem o equilíbrio que a história exigia, mas existe em um lugar de onde muitos filmes ainda desviam o olhar. E há algo profundamente necessário em obras que se voltam para a própria culpa na história, mesmo quando elas não conseguem abraçá-la por completo. Este é um filme que merece ser visto e, mais importante, discutido.
