Publicidade

“Insaciável” é um terror desconfortavelmente interessante sobre a violência das pressões estéticas

Midori Francis interpreta Hana, uma jovem que decide começar um programa extremo de emagrecimento à base de pílulas
“Insaciável” é um terror desconfortavelmente interessante sobre a violência das pressões estéticas

Publicidade

“Insaciável” nasceu de uma ideia original da cineasta australiana Natalie Erika James (“Relíquia Macabra”), que se destacou no Festival de Sundance deste ano. Com distribuição da Diamond Films, o longa conduz o espectador a uma nova experiência nas telonas de beauty horror, isto é, o body horror como metáfora para ilustrar como as pressões estéticas podem ser violentas e aterrorizantes.

Rosto conhecido dos fãs de “Grey’s Anatomy” e “A Vida Sexual das Universitárias”, a atriz Midori Francis interpreta Hana, uma jovem que decide começar um programa extremo de emagrecimento à base de pílulas. Só há um porém: esses remédios são produzidos a partir de cinzas humanas. Disposta a relevar este fato para alcançar o corpo que julga ideal, Hana vê sua obsessão por emagrecer se transformar em um pesadelo macabro, com consequências irreversíveis.

Em determinado momento de “Insaciável”, a protagonista Hana é confrontada por uma geladeira que se abre sozinha. De dentro, barras de chocolate são lançadas em sua direção não como oferendas, mas como armas. A criatura que a persegue não quer matá-la, quer vê-la comer de forma completamente descontrolada. Este é o cerne do longa dirigido por Natalie Erika James. a compulsão alimentar como monstruosidade, o ato de devorar como autoflagelo, a comida como algo que nunca está associado a prazer ou carinho.

O body horror, gênero que encontrou em “A Substância” (2024) sua expressão mais comentada recentemente, ganha aqui uma nova chave. Se Coralie Fargeat construía a monstruosidade a partir do próprio corpo da heroína em transformação, James prefere externalizá-la: o mal se associa a Hana por meio de uma figura externa, o cadáver de Bertha, a mulher obesa cujo corpo é dissecado nas aulas de anatomia. O que começa como profanação (Hana ingere cinzas humanas em busca do emagrecimento milagroso) torna-se perseguição sobrenatural, e depois uma exigência de sacrifício simbólico.

“Insaciável” é um terror desconfortavelmente interessante sobre a violência das pressões estéticas

Desde o início, neste universo, as monstruosidades que assombram a protagonista são obesas. O pai de Hana, mantido fora de quadro na maior parte do tempo, representa a obesidade mórbida que aprisiona, sempre confinado a um cômodo escuro, cuja aparência não pode ser exposta sem julgamento. A criatura que persegue a protagonista é a mulher gorda ridicularizada pelos estudantes de medicina, desumanizada em vida e violada na morte. Até a melhor amiga de Hana, interpretada por Danielle MacDonald, aparece como contraponto, mais gorda e, desconcertantemente, muito mais feliz consigo mesma.

Já a sedução, em chave oposta, vem da magreza. Alanya (Madeleine Madden), psicóloga e treinadora física por quem Hana se apaixona, desperta um misto de desejo e inveja. É querer estar e também ser aquele corpo. Melissa (Annie Shapero), amiga que ressurge radiante após uma perda de peso drástica, personifica a fantasia da felicidade instantânea via emagrecimento rápido. Para uma jovem de baixa autoestima, cercada por esses estímulos contraditórios, a pílula milagrosa feita de restos humanos soa irresistível.

A crítica social é simples, mas eficaz e vem justamente quando dezenas de influenciadoras do movimento body positive decidiram emagrecer usando as “milagrosas” canetas emagrecedoras. O filme conversa de forma irônica com a sociedade disposta a injetar qualquer substância que prometesse adequação aos padrões estéticos vigentes.

O filme aponta para os limites do absurdo para revelar o absurdo real sobre magreza excessiva, distorção de imagem, desafios extremos e falta de autoestima.

Apesar do tema interessante, o roteiro pouco apresenta inventividade. Há algumas facilitações narrativas, mas isso falamos mais para frente.É na construção visual que “Insaciável” encontra sua maior força. James filma a ingestão de doces, massas e chocolates como um espetáculo brutal grotesco. Há planos próximos, câmera lenta, líquidos e restos escorrendo pela boca, com a comida passando longe de parecer apetitosa mesmo com a voracidade com que Hana devora. Alimentos que seriam plasticamente atraentes transformam-se em maçarocas de produtos processados, o que aplaca temporariamente a ansiedade da protagonista (e talvez do espectador), sem jamais resolver o problema que despertou tal sentimento.

Um plano aéreo no último quarto do filme, com Hana cercada por uma pilha enorme de lixo, serve de metáfora visual sobre como ela se sentia ou tratava o próprio corpo.

Se a execução visual impressiona, o mesmo não se pode dizer integralmente da estrutura narrativa. James recorre a um diário onde Hana registra cada pensamento, cada suspeita, cada alucinação. O recurso é conveniente demais e tira bastante do peso da interpretação de Midori. Se a atriz se esforça para engajar na agonia de sua personagem, o filme parece não estar convencido disso e não permite que o espectador deduza as associações entre o tumor benigno, a ingestão de cinzas e o sonambulismo. No fim, o diário não é usado para alguma solução para a situação, reforçando a falta de confiança da diretora no próprio roteiro.

A chegada de Melissa também soa artificial. Após poucos minutos de conversa, ela oferece a pílula milagrosa, ignorando completamente as complexidades emocionais de Hana. O gesto funciona como engrenagem narrativa, mas não como comportamento humano verossímil. Não é um desastre, mas desenvolvido com preguiça.

São tropeços que enfraquecem o conjunto, ainda que não cheguem a comprometer a força temática da obra.

Ao menos, James evita a conclusão otimista que rondava o horizonte. Algumas maldições podem ser quebradas, mas os resquícios do trauma permanecerão. O desfecho é amargo, e é também o momento de maior esmero estético do filme: fotografado em luz publicitária, com poses sedutoras e múltiplos ângulos, como um ensaio de marca de luxo. O acontecimento mais brutal torna-se a imagem mais plasticamente atraente, uma síntese perfeita da tese que o filme sustenta.

Nas vindouras e inevitáveis comparações com “A Substância”, haverá debate sobre onde um e outro acertam, mas dificilmente “Insaciável” alcançará o sucesso comercial do primeiro. Onde o filme de Fargeat explorava o pânico do envelhecimento, James investiga a tirania do peso e a compulsão como autoaniquilação. São chaves diferentes para um mesmo corpo o feminino, permanentemente submetido ao escrutínio alheio e próprio.

Com atuações sólidas, uma trilha sonora que amplifica o desconforto e uma cinematografia que encontra beleza no repulsivo, o longa australiano se firma como contribuição digna ao body horror contemporâneo. Não é um filme fácil que terá grande aderência do público, afinal, nem todo mundo quer encarar o desconforto de uma história sobre o que significa ser devorada por dentro?

Publicidade

Última atualização em: 6 de agosto de 2026 às 16:11

Siga-nos no

Google News

Compartilhe :

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp

Deixe um comentário

Área para Anúncios

Seus anúncios aqui (área 365 x 300)

Publicidade

Matérias Relacionadas

Se inscreva na nossa Newsletter 🔥

Receba semanalmente no seu e-mail as notícias e destaques que estão em alta no nosso portal

Categorias

Publicidade

Links Patrocinados