Quando vi as primeiras imagens e teaser de “A Morte de Robin Hood”, imaginei que viesse algo parecido com “Logan”, filme que marcou a, até então”, despedida de Hugh Jackman do personagem. Algo de desesperança com pitadas de aventura e ação. Mas o resultado do novo filme de Michael Sarnoski (“Pig”) e “Um Lugar Silencioso: Dia Um”), produzido pela A24 , tem muito mais doses cavalares do primeiro item do que dos outros. É quase uma ode ao cinismo.
Atormentado pelas cicatrizes de uma vida marcada pelo crime, Robin Hood (Hugh Jackman) sobrevive por pouco àquela que acreditava ser sua batalha final. Gravemente ferido, ele é encontrado por uma mulher misteriosa que o recolhe das sombras e passa a cuidar de seus ferimentos. Com o corpo fora de combate, cada erro cometido no passado volta para assombrá-lo.
Há uma cena, já na metade de “A Morte de Robin Hood”, em que o protagonista ensina uma menina a armar um arco. É um respiro de gentileza numa jornada ausente de solidariedade, piedade e humanidade É quase como um trecho deslocado dentro de um longa onde mulheres são esfaqueadas no pescoço, crianças com flechas cravadas no crânio e uma gestante apunhalada na barriga. Pela lógica interna da obra, esse momento deveria sinalizar alguma centelha de humanidade. Mas Sarnoski não está interessado em redenções
Hugh Jackman encarna um Robin Hood que mais que desconstrói o mito. É um personagem que contraria tudo que foi construído sobre herói na cultura pop.Ele é um criminoso violento, assassino de inocentes, egoísta e impenitente. A primeira sequência dá o tom do que vem a seguir. Quando uma jovem ferida cruza seu caminho na abertura do filme, ele a recebe com desdém. Quando ela tenta matá-lo enquanto dorme, ele a apunhala no pescoço sem hesitar. “Deveria ter sido mais cuidadosa”, com um tom casual como se matar fosse um passeio pelo bosque.

A crueldade banalizada não acompanha nenhuma motivação altruísta, nem mesmo há busca por riqueza indiscriminada. É como se a matança fosse a única coisa viável num mundo completamente cinza. Não há roubo dos ricos para dar aos pobres. Não há bravura, há apenas um velho detestável cujo único interesse é a própria sobrevivência.
Alguns críticos internacionais se questionaram se “vale a pena recontar um mito desprovido de tudo que o tornava inspirador?”. Talvez a resposta seja um grande não. E veja, “A Morte de Robin Hood” não é um filme necessariamente ruim, mas soa um tanto injustificado.
Filmado em scope na primeira parte e depois migrando para o formato 1,66:1 quando Robin Hood é acolhido em um priorado, o longa aposta em uma estética da sordidez. Rostos perpetuamente cobertos de lama, litros de sangue, closes de crianças assassinadas. A fotografia cinzenta transforma a Inglaterra do século XIII em um purgatório onde ninguém sorri, ninguém ama, ninguém deseja nada além de matar ou morrer, à exceção das poucas crianças que correm contra o vento frio.
Particularmente, gosto da violência visceral desse tipo de filme. Ser violento não costuma ser um problema. Mas a violência aqui é de um niilismo sem significado. Ou seria seu significado? Sarnoski filma chacinas medievais como quem aponta uma verdade que não dá para ser contestada. Ele simplifica a natureza humana como inerentemente animalesca, ainda que haja algum ponto de escape quando entra em cena a figura doce da Irmã Brigid , vivida pela ótima Jodie Comer. A personagem, ainda que não consiga de todo, alivia a impressão que o filme prega de que não há por que se importar com quem vive ou morre.
Jackman, que já provou ser capaz de transitar entre o heroico e o brutal (basta lembrar do já citado “Logan”), entrega uma atuação que emula o que ele já fez antes. Carrancudo, cansado, fisicamente imponente. É uma boa atuação, mas com poucas osiclações, o que talvez combine com o filme, sempre na mesma nota opaca. Seu Robin Hood nunca revela o que sente — se é que sente algo.
Demorei alguns minutos para reconhecer Bill Skarsgård como Little John “Edward”, o parceiro sanguinário de Robin Hood. Seu personagem quase some em meio à paisagem lamacenta. Murray Bartlett, como um leproso local, ensaia alguma humanidade, mas o roteiro não lhe concede tempo suficiente.
Quando Edward aparece e propõe uma missão de assassinato para Robin Hood e ele aceita para poder finalmente encontrar uma “boa morte”, até surge uma esperança de que essa vontade de morrer venha por arrependimento, remorso, mas não. Durante a incursão, as brutalidades se somam ao que já foi cometido no passado do protagonista.

“A Morte de Robin Hood” apresenta uma opção de desconstrução de uma lenda enquanto retrata uma implacável violência medieval e tenta realizar um estudo de personagem sobre um homem mau. Talvez acerte somente na exposição da violência.
Brutalidade sem complexidade não é difícil encontrar em filmes trash de segunda categoria. Há um desperdício em usar o talento de Hugh Jackman para aprofundar a psique de um personagem caído. Quando os vínculos afetivos que trariam mais cor à jornada começam a nascer, o filme acaba.
O niilismo que Sarnoski persegue não é reparador, nem provocativo. É apenas… niilismo. “Viver ou morrer, tanto faz; seguir matando ou se entregar ao final seriam gestos equivalentes” — esta poderia ser a tese do filme, mas é também sua rendição. Quando tudo é equivalente, nada importa. Inclusive o próprio filme.
A sessão termina e o espectador fica com uma sensação de vazio não o vazio existencial que grandes obras trágicas podem provocar, mas o vazio de quem investiu duas horas em uma jornada que se recusa a oferecer qualquer coisa, nem mesmo catarse, nem reflexão, nem beleza.
E mais uma vez, insisto: o filme não é uma catástrofe e diria que nem mesmo ruim. A deslumbrante fotografia dirigida por Pat Scola, que trabalhou em obras como Sing Sing (2023) e Amor e Obsessão (2025) para apresentar o conto em um realismo sombrio único é um ponto alto. Para garantir que a história parecesse o mais real possível, Pat Scola tomou a decisã ode gravar tudo em filme tradicional (película de celulóide), fugindo do visual “limpo” do cinema digital. As cores do filme também contam uma história própria. No começo, o mundo violento de Robin é pintado em tons frios e cinzentos. Assim que chegamos ao Priorado (onde ele é acolhido), a cor volta a brilhar na tela enquanto a vida de Robin muda e ele começa a se curar fisicamente,explica Scola.
A sensação é que é uma história que se podia dizer mais. O filme se esforça em não ser apreciado. Nem todo vazio existencial precisa ser….vazio.
O filme chega ao cinema no dia 13 de agosto.
