Publicidade

“Rio de Sangue” é filme de ação brasileiro de qualidade que acerta no entretenimento, mas peca na reflexão

Um filme de ação brasileiro ambientado na Amazônia já seria uma premissa para chamar atenção. Junte a isso uma atriz renomada como Giovanna Antonelli como protagonista e em um país que não tem aversão ao cinema nacional, já seria motivo de lotar as salas de cinema.
"Rio de Sangue" é filme de ação brasileiro de qualidade que acerta no entretenimento, mas peca na reflexão

Publicidade

Em“Rio de Sangue”, Giovanna Antonelli interpreta Patrícia Trindade, uma policial linha-dura cuja trajetória de vida é definida por falhas e recomeços. Afastada após uma operação mal-sucedida, jurada de morte, ela foge de São Paulo para Santarém, onde tenta reconstruir a relação com a filha Luiza (Alice Wegmann). O conflito geracional está posto desde o início: a mãe policial, cética e endurecida, não compreende por que a filha, médica com diploma na mão, escolheu “esse fim de mundo” para cuidar “dessa gente” — as comunidades indígenas do Alto Tapajós.

O filme chega aos cinemas em 16 de abril com uma tarefa ambiciosa: entreter, sim, mas também trazer uma reflexão urgente sobre o garimpo ilegal na Amazônia, uma realidade que o centro-sul do país frequentemente trata como notícia distante, mas que para os estados do Norte é cotidiana e sangrenta. Mas somente uma ótima premissa não garante um filme bom. A tarefa do diretor Gustavo Bonafé era executar as boas ideias contidas no roteiro assinato por Lucas Vivo García Lagos, Dennison Ramalho, Felipe Berlinck, José Luiz Magalhães e Gustavo Rademacher

Quando entrevistei o diretor, ele contou sobre a animação em poder evocar suas influências de filmes brucutus dos anos 1980, como os da franquia Rambo, por exemplo. E de fato, há muitos e muitos ecos aqui do cinema de ação estadunidense clássico. Isso pode ser muito bom ou muito ruim, a depender de como se olhe para o filme.

"Rio de Sangue" é filme de ação brasileiro de qualidade que acerta no entretenimento, mas peca na reflexão

Diferentemente de John Rambo, Trindade não mata helicópteros com flechadas nem explode o garimpo em uma bola de fogo da qual escapa por um triz. O filme faz um esforço consciente para evitar o exagero hollywoodiano mais caricato, e isso é louvável. As cenas de ação são muito boas, sem o exagero de sessão da tarde, mas ainda assim divertido. O filme é crível em manter sua heroína feroz, mas vulnerável, aumentando a percepção de perigo para quem acompanha a jornada.

A Trindade de Antonelli mostra logo no início de “Rio de Sangue” possuir uma visão pragmática e potencialmente preconceituosa da vida. Esse contraste com o idealismo humanitário de Luiza poderia ser mais aprofundado, mas as pinceladas iniciais e as boas atuações convencem a acolher esse background da relação entre mãe e filha.

O caminho de Trindade atrás da filha, é uma boa justificativa para a fotografia do filme brilhar. A equipe não se fez de rogada para capturar a beleza natural da Amazônia. As locações são bem escolhidas, e a floresta deixa de ser mero pano de fundo para se tornar um personagem ativo: hostil, bela, indiferente ao drama humano que se desenrola em seu interior. Claro, para a trama funcionar, a floresta apresentada é um pouco menos arisca do que na vida real, mas ainda assim funciona. No cinema, os golpes precisam ser mostrados com clareza, a iluminação deve ser precisa e o realismo de uma mata fechada e escura pode ser descartado em nome do entretenimento.

Se Giovanna Antonelli está bem como sempre e mostra potencial para protagonista de ação, o outro personagem mais interessante da trama parece ficar no quase, quando havia possibilidade para mais exploração. Mario, interpretado por Fidelis Baniwa (um ator indígena, cujo sobrenome já indica sua origem étnica) atua como narrador e como personagem de suporte à trama, e os textos de apoio ao filme fazem questão de destacar que sua inclusão é “perfeitamente encaixada, sem ficar algo forçado apenas para ser inclusivo”.

Particularmente, eu não acho que nenhuma obra audiovisual deva ficar explicando porque há atores indígenas ou negros na trama. A própria história se passa em território indígena e isso nem precisa ser mastigado como justificativa.

Mario funciona bem, mas com ressalvas. Em mais de um momento, ele acaba sendo uma espécie de deus ex-machina, trabalhando como facilitador do roteiro, quando a parte mais bacana de sua presença é a dualidade entre ser um não aldeado que trabalha para garimpeiros e um apaixonado por seu povo que sabe que direta ou indiretamente acaba apoiando a morte de seus pares nas mãos do homem branco.

Oscilando entre dois mundos, sem pertencer a nenhum dos dois, é potencialmente o personagem mais rico do filme. Imagine um filme com um indígena vingador de seu povo? Mas isso fica para um sonho distante.

Rodrigo Simas e Ravel Andrade em cena

Antônio Calloni interpretando Polaco, o chefe dos garimpeiros ilegais tem ótima performance, como esperado do ator. Seu arquétipo de vilão não é novo, mas só um bom ator consegue evitar tom caricatural ao vestir a mesma descrição surrada de de filme de ação: cruel, poderoso, implacável.

Polaco, um pai preocupado com o filho, seu legado, e cristão temente a Deus, é o reflexo de pessoas que podemos ver constantemente nas páginas policiais ou nas redes sociais com discursos moralistas. Essa ambiguidade eleva a ameaça dele como vilão.

O filho de Polaco, interpretado por Ravel Andrade, sofre diante da cobrança do pai em querer uma cópia sua. O ator não sai por baixo diante da presença de Calloni, e embora cometa atrocidades, consegue até despertar simpatia com sua doçura distorcida e hesitação constante.

Mas entre os vilões que Trindade precisa enfrentar para salvar a filha, Rodrigo Simas, interpretando o sobrinho de Polaco, é a força mais imparável e ameaçadora. Simas atua como um cão leal e feroz, que apesar de brucutu, é inteligente e muito mais cruel que os parentes citados. Inclusive, seria bem interessante se o filme espelhasse essas relações parentais. O vilão deseja um herdeiro à sua altura e não o tem. Do outro lado, a relação entre Trindade e Luiza, enfrentando dificuldade para se compreenderem.

Há uma cena em que a protagonista do filme emerge do rio em que é impossível não lembrar de “Comando para Matar” ou “Rambo”. Alguns espectadores mais versados no cinema de ação vão simplesmente dizer que é uma imitação vazia, enquanto outros vão lembrar que foi em cima de referências e releituras que Tarantino fez sua carreira, e não estou comparando o iniciante Bonafé com o estadunidense, mas é preciso lembrar que apesar de anos em busca de seu tom, o cinema de gênero no Brasil ainda engatinha e emular referências não é por si só ruim. Na verdade, em “Rio de Sangue”, a ação é muito bem filmada, até mais que muito filme excessivamente picotado de Hollywood.

“Rio de Sangue” é sim um bom exemplo de filme de ação brasileiro, ainda que possa soar derivado em alguns momentos. As sequências de ação são bem resolvidas e tensas e a escalação de elenco é muito competente. Dos protagonistas aos coadjuvantes, todos têm presenças marcantes.

O que depõe contra o filme não é sua capacidade de entreter, mas de apontar menos o dedo do que deveria na cara dos financiadores dos garimpos e dos envenenadores da terra indígena por mercúrio. Claro, em tempos de ascensão da extrema-direita, não soar artificialmente panfletário é uma forma de chamar o público, mas acho que valia a tentativa. Ao reduzir o conflito a uma heroína que enfrenta um vilão local, “Rio de Sangue” faz uma escolha narrativa compreensível já que a ideia é um filme de ação com um antagonista concreto, não uma abstração sistêmica. Mas essa escolha também limita a reflexão urgente que poderia ser feita.

“Rio de Sangue” é um filme que merece ser visto. O elenco de peso e a direção trabalham com honestidade louvável. Ainda que as influências do cinema estadunidense não estejam bem resolvidas entre cópia e inspiração, no fim, o filme consegue ter uma assinatura bem brasileira com seus heróis e vilões, mostrando que o cinema de ação brasileiro tem muito potencial para encontrar seu próprio caminho.

Publicidade

Última atualização em: 27 de abril de 2026 às 15:35

Siga-nos no

Google News

Compartilhe :

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp

Deixe um comentário

Área para Anúncios

Seus anúncios aqui (área 365 x 300)

Publicidade

Matérias Relacionadas

Se inscreva na nossa Newsletter 🔥

Receba semanalmente no seu e-mail as notícias e destaques que estão em alta no nosso portal

Categorias

Publicidade

Links Patrocinados