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“Salve Geral-Irmandade” – sobrevivência e família nas mãos de Naruna Costa e Camilla Damião

“Salve Geral-Irmandade”: sobrevivência e família nas mãos de Naruna Costa e Camilla Damião

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“Salve Geral-Irmandade”, filme que é extensão da série de sucesso que ganhou duas temporadas na Netflix, estreou ontem (11) na Netflix, trazendo de volta a já esperada tensão em meio à narrativa do confronto entre o Estado e o poder paralelo, se é que há diferença atualmente.

Naruna Costa (Todas as Flores) e Camilla Damião (Marte Um) protagonizam a obra, e as duas atrizes fazem de sua química o ponto alto de uma trama que, embora tenha cenas de ação e violência, guarda na química entre as duas as passagens mais magnéticas da história.

Naruna Costa volta ao papel de Dra Cristina, advogada da Irmandade, grupo criminoso fundado para proteger os interesses dos presos nas penitenciárias paulistas. Elisa (Damião) é sua sobrinha, que embora uma mulher preta, com identificação com a cultura de rua, levou a boa vida que seu falecido pai, o antigo chefe da Irmandade (Seu Jorge), conseguiu dar. E esses vínculos familiares norteiam as ações das duas personagens enquanto a cidade entra em guerra e corpos cobrem o asfalto da maior cidade do país.

“A grande riqueza da série — e agora do filme — está na profundidade das relações, algo raro no audiovisual brasileiro, especialmente quando se trata de personagens femininas e negras. O longa funciona de forma autônoma em relação à série, mantendo, ainda assim, a delicadeza dos vínculos mesmo diante de uma linguagem mais intensa, com planos-sequência e cenas de ação robustas”, conta Naruna. Para ela, a relação entre Cristina e Elisa é feita de silêncios, olhares e afetos que só elas duas compartilham. “Eu tinha medo de que essa camada delicada se perdesse em meio ao thriller, mas fiquei feliz ao ver que ela se manteve”, reflete.

A jovem Camilla Damião não faz feio frente à experiência da parceira de cena. A atriz demonstrou satisfação em estar fazendo o papel de uma jovem preta que cresceu sem escassez e tem a tia e o pai, pessoas pretas fortes, como exemplo. “As pessoas buscam se ver nas telas, e a relação entre tia e sobrinha vivida por Elisa e Cristina é um retrato legítimo de tantos arranjos familiares no Brasil. Construir esse imaginário e mostrar afeto, conflito e complexidade fora dos estereótipos contribui para esse lugar possível do que pode ser uma relação”, afirma.

Acho que na série a situação da família Ferreira é uma situação que eles estão ali no lugar de liderança, mas tem esse perrengue também, é sobrevivência, . Eu acho que no filme é um outro momento. A Cristina está vivendo isso, ela tem poder aquisitivo, a família dela, por mais que tudo esteja acontecendo ali, ela está numa outra condição. Eu acho que para Elisa tem esse lugar assim: na série, quando ela aparece, ela está sempre ali naquele pingue-pongue. O pai tá preso, aí quem vai cuidar dessa menina, onde ela vai ficar. E aí no filme ela tem uma casa dela, ela estuda numa escola boa, ela tem moto. Acho que tem esse universo de conforto e esse universo também urbano, né? Que eu achei muito legal do Pedro ter apostado nisso também, de ela tá inserida na cultura hip hop, que é algo que não aparece na série, né? E de uma certa forma também familiariza mais o o público urbano, o público do hip hop. Eu acho que tem esse lugar muito interessante, porque tem tudo a ver, se você parar para pensar. O que é o movimento hip hop? Tem muito a ver também com a essência do que é a série. Que é essa luta por direito, é uma luta política. – Camilla Damião

“Salve Geral-Irmandade”: sobrevivência e família nas mãos de Naruna Costa e Camilla Damião
Camilla Damião é Elisa Crédito: Alexandre Schneider/Netflix 

Em produções internacionais, é comum ver mulheres pretas em posições de poder. Por aqui, ainda engatinhamos. Em “Irmandade”, Cristina não possui apenas dinheiro,mas influência e poder. Poder esse que sempre é desafiado pelos homens que , com menos intelecto, utilizam o subterfúgio da violência sem pensar duas vezes.

Partindo dessa missão de construir personagens tão complexas juntas, Naruna responde:

“Artistas negros carregam a busca incessante por identidade e profundidade em cada trabalho. Encontrei em Camilla uma parceira com a mesma sede de contar histórias para além do que costumam contar sobre pessoas negras. Nossa preparadora de elenco, Larissa Mauro, também mulher negra, criou um espaço de escuta e conexão entre nós. A gente fez um pacto de que o filme era sobre nós duas. Acreditamos nessas mulheres, nessa possibilidade humana”, disse.

“A gente não só acredita, como tem sede de que isso seja cada vez mais real, não só no audiovisual, mas na vida. Ter mulheres negras em lugares de poder, com poder aquisitivo, com afeto, com desentendimentos… Isso precisa ser normalizado. Faz parte da construção estética do cinema negro, da humanidade dos corpos negros”, reforça Camilla

 Naruna Costa é Cristina | Crédito: Alexandre Schneider/Netflix

Passaram-se dez anos (em realçao à série), e eu acho que a estrutura virou, né? Então a Cristina, além de estar — ela ter essa condição social já diferente do que ela vivia antes —, eu acho que agora ela consegue realmente colocar a mão no poder. Isso é uma parada que eu acho que foi massa do filme, porque o filme também trata sobre isso, né? Ela, de alguma maneira, perdendo o poder, porque eles dão golpe nela, né? Então ela estava estável, ela tava com a casona dela lá organizada, tipo dando conta de resolver e de ser a voz que resolvia as questões, né? Até o jogo virar, até ela sofrer esse golpe. Então acho que tem uma coisa ali que ela não tá mais — a Cristina evoluiu nesse lugar de ela ter fortalecido um posto. Tranquilamente. Eu acho que a primeira temporada, a segunda temporada especialmente, mostra que ela já tem um certo poder de escolha e decisão e transição, mas ela não consegue assumir. Ela sabe que pode, ela consegue jogar, mas sem estar com a cara no sol de frente para parada. E eu acho que no filme isso vai sendo escancarado. Ela é a dona da parada, ela é a voz de comando, só que ela sofre igual, né? E aí o jogo vira, e em meio a tudo isso ela tem a sobrinha para salvar, e aí ela vai sozinha, mais uma vez vivendo sozinha pra resolver. Eu não sei se isso é diferente, mas eu acho que isso converge na verdade com a série, mas tem lá as suas diferenças. – Naruna Costa

A autonomia do filme em relação à obra da qual foi derivada é um ponto forte. Há pequenas passagens de contextualização para quem nunca viu a série. Uma delas bem bonita, com participação de Seu Jorge, onde a saudade também é sentimento definidor para as duas protagonistas, além dos dilemas éticos trazidos a ambas. “A Cristina, que antes apenas orbitava o poder, agora o exerce de fato. Mas o filme também mostra como ela é golpeada justamente quando está mais estável. Ela é a dona da parada, a voz de comando, mas sofre igual. E ainda tem que salvar a sobrinha. Vai sozinha”, resumiu.

Camilla acrescentou que, enquanto na série Elisa vive num contexto de instabilidade, no filme ela tem casa, escola, moto — um universo de conforto urbano. E celebrou a aposta do diretor Pedro em inseri-la na cultura hip hop, algo inédito na série e que aproxima o público jovem e periférico. “Tem tudo a ver com a essência da série: a luta por direitos, a política, a rua”, concluiu.

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Última atualização em: 24 de março de 2026 às 18:09

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