Em tarde caseira na Grande São Paulo, o cantor Seu Jorge abriu sua casa, em um condomínio fechado em Barueri -SP, para alguns poucos jornalistas e amigos para falar de “The Other Side”, seu mais novo álbum, desenvolvido ao longo de 16 anos com Mario Caldato Jr. Na sala de espera, um retrato gigante, cercado por um mosaico de cores e, ao lado, muitos prêmios recebidos durante a carreira.
Enquanto os jornalistas esperam, amigos cantarolam pagodes antigos, a churrasqueira aquece para um belo churrasco que tive a sorte de apreciar ao fim da conversa enquanto o cantor contava piadas e falava de planos para o futuro.
Foi num grande cômodo adaptado como um pequeno cinema que iniciou nosso papo. Mesmo depois de um dia inteiro conversando sobre o disco e eu sendo o último a ser recebido, Seu Jorge estava disposto, visivelmente animado com o novo projeto. Seu olhar meio caído, daquele jeito preguiçoso e intenso de quem acabou de achar um tesouro e não vê a hora de mostrar, lacrimejaram em vários dos momentos da entrevista.
O artista de 54 anos falou, cantou, gesticulou, se emocionou duas vezes, recitou letras inteiras de cor e ainda deu uma prévia de um clipe inédito, pedindo “desliga a luz aí” antes de apertar o play.
A gênese de “The Other Side”, ele conta, não veio de uma gravadora nem de uma demanda de mercado. Veio de uma amiga.
“A Samantha Caldato que me aconselhou a lançar logo esse projeto. Ela me perguntou: ‘Por que você até agora não pensou? Veja, você fala de tantas coisas, projetos, mas até agora não pensou num álbum? Não tem nada a ver com indústria, mercado. Isso é só pra música mesmo’”, revela.
E de fato, “The Other Side” definitivamente não é um álbum pensando em ser recepcionado calorosamente pelo grande público logo de primeira. Não que as pessoas não possam gostar das letras emocionais e das orquestras grandiosas assinadas por Miguel Atwood-Ferguson, mas o pop chiclete e certeiro presente em álbuns anteriores do cantor não está aqui.

O plano era não ter plano. Sem prazo, sem orçamento engessado, sem a obrigação de escrever. E Seu Jorge seguiu a dica da amiga, inclusive sem a obrigação de participar da maioria das composições: “É um disco intérprete mesmo. A Samantha lembrou que eu ouço tanta coisa, tanto jazz, tantas coisas diferentes que a maioria das pessoas nem conhecem direito. Então resolvi pegar um pouco disso e fazer um álbum que eu não ficasse pressionado nem por prazo nem por orçamento. Apenas eu cantando o que gosto e quero.”
O resultado, segundo Seu Jorge, é um disco que revela um “outro lado” — daí o nome.
Chegar nesse lugar íntimo foi realmente poder revelar um outro lado de interesse através da música, que não é o que foi publicado ao longo desses anos, que é essa música negra, própria minha, do suburbano do Rio de Janeiro, com as influências de lá e de tantas outras coisas.
A banda que acompanhou o intérprete nas gravações do novo trabalho é a mesma que o acompanhou a vida inteira em sucessos como “Burguesinha”, “Carolina”, “Amiga da Minha Mulher”. “Os mesmos baterista, baixista, tecladista — prova viva de que esses caras têm talento pra ser mundial, plural. A música brasileira é uma língua universal. A gente fala e o povo entende. Sei que é forte essa frase. É isso que eu acredito”, crava.
Um disco cinematográfico
Diferente da lógica atual de hits de dois minutos e meio para TikTok, “The Other Side” foi pensado como álbum clássico: começo, meio e fim. O álbum reúne 11 faixas de tom mais contemplativo. O primeiro single de trabalho é “Quando Chego”, faixa inédita em parceria com Marisa Monte, enquanto nos Estados Unidos e Europa o lançamento é impulsionado por “Girl You Move Me”, originalmente gravada pela banda canadense Cane And Able.
“Eu só tinha a primeira e a última faixa — revela. — Sabia que “Beleza Bárbara” era a última. Por quê? Porque era um bolero. Ninguém ligava pra bolero. Eu ia jogar toda a minha cafonice nesse bolero.
E aí ele descreve a cena, rindo, ele explica:
“A mulher é selvagem, não domina o idioma, mas domina o império. “Beleza, Bárbara, ela não tem armas, nem projetos de poder, mas tudo no seu caminho se entrega e desarma.” O cara pensou que seria dominado, mas aquilo foi libertação. A mulher já tava pensando na algema, no chicotinho na bunda. E ele com aquela roupa de látex. Não dorme longe, não. Já vi uma alemã enorme batendo num cara. É foda”

Aos poucos, o disco ganhou corpo. As outras músicas vieram de discussões entre ele e o produtor Mário Caldato. Seu Jorge explica que ter tido tempo de fazer com calma foi muito bom. É um álbum sem fade out. Todas as músicas têm começo, meio e fim.
Questiono a característica cinematográfica das canções e ele me revela que foi proposital (óbvio). E revela que há um projeto de filme baseado no disco.
“ Verdade — conta, baixando a voz como quem divide um segredo. — Tem um projeto escrito pela minha filha, a Flor. Ela tinha 15 anos e escreveu um filme inteiro. A gente recuperou isso recentemente. Estamos estudando”.
Beck, Nick Cave e o acaso que virou parceria
Uma das faixas centrais do álbum é uma releitura de Nick Cave em parceria com o multipremiado cantor Beck, dois nomes que Seu Jorge considera “de nicho, mas de um nicho lindo”.
“Quem me apresentou Nick Cave foi o Mário. Eu curti a música, o arranjo. Naquele momento, com as coisas que a gente já tinha feito, se assemelhava à sonoridade sinfônica do original. E tinha um componente interessante: no disco tem uma valsa em 3×4, que é “Vento Demais”, tem música em 2×4, que é o sambinha, e aí uma música em 5×4. Pô, que legal, né? Aquilo quebra a dança.”
Ele conta que gravou a própria voz num lugar inédito.
“Eu consegui chegar numa região da minha voz que nunca havia visto. Também combinava com a proposta inicial: encontrar um Jorge que eu não conhecia. E Nick Cave deu essa boa chancelada. Queria expressar essa música sem desoriginalizar ela e sem me desoriginalizar — e consegui.”
A parceria com Beck veio por acaso dos bons. Coincidências da vida, Beck é filho do Robert Campbell, que foi o produtor que fez os arranjos para orquestra do show que eu Seu Jorge fez cantando músicas do David Bowie, no Royal Ball, com 80 peças.Até àquela altura, ele não imaginava que Beck um dia cantaria no seu disco.
“O encontro aconteceu numa festa do Oscar, em Beverly Hills, na casa de um produtor. A gente se viu, demos um grande abraço. Eu disse que não via a hora de recebê-lo em solo brasileiro. Ele é amante da nossa música. Já cantou música do Caetano. É um cara querido, culto demais”, diz.

“Minhas crenças morrendo, minha vida nascendo”
No meio da conversa, ao falar da faixa de abertura “Crença”, Seu Jorge mudou o tom. A voz ficou mais baixa, os olhos brilharam. A canção de Milton Nascimento e Marcio Borges abre o disco de forma magistral e visceral e o cantor mostrou que não foi apenas impressão do jornalista.
“Eu sei que venho lutar com essa vida de desvalença. Sei que luto sozinho, pois ninguém nunca me atenta.” — recitou, pausadamente. — “Um dia eu largo de tudo
Já não me importa nenhuma crença/ Se eu morro, eu morro lutando/ Sozinho eu vou, sei pra onde vou/ Vou mas quero ir sabendo/ Senão vou ter outro amor/ E pelas tardes mais frias/ Eu vou deixar minha dor”, e daí ele canta o refrão forte: “Minha crença morrendo/ Minha vida nascendo “
Ele para, respirou fundo: “Quando eu li essa letra, o olho foi enchendo d’água. Eu falei: não, eu preciso cantar isso.”
“Não é um disco de performance, é um canto”
Perguntei sobre a logística do show. Como levar tanta orquestração e intimidade ao palco? Ele explica que a principal preocupação nomomento é cantar bem porque esse álbum exigiu muito dele. “Não é um disco de performance, é um canto. É um compromisso de fidelidade todos os dias. Uma fidelidade musical necessária”, frisa.
Ele comparou a um trapézio sem rede.
“É a corda-bamba sem rede embaixo. É o que todo mundo quer ver. Vai pro circo, pô: você vê o trapezista passar, mas a rede tá embaixo, se ele cair, tá salvo. Quando não tem rede, o ferro na barriga é quente mesmo”. E riu, aliviando a tensão que ele mesmo criou.
O álbum, gravado em sua totalidade no estúdio MCJ, do produtor Mario Caldato Jr., nos Estados Unidos, é visto pelo cantor como um álbum brasileiro com potencial para mostrar a mais pessoas fora do país o poder da música feita no Brasil.
Mais uma vez, ele recorreu à comparações interessantes e curiosas.
“ Se o Drake tá no banheiro fazendo as necessidades dele, pega o celular, entra no Instagram e faz um comentário polêmico, chega aqui. Se eu ou o Caetano faz um comentário, não chega lá”, elucubra sobre a dificuldade de entrada da música nacional em solo estadunidense.
Ainda assim, ele mantém esperança no disco.
“Se ganhar um Grammy americano, vai ser um marco. Mas não é pra distanciar. É muito pelo contrário, para aproximar. Não é pra descolar, é pra dizer que a base é chique. Para agregar com a base. Eu não estou fazendo isso pra descolar da minha linha. É muito ao contrário: é pra mostrar que no lixão nasce tudo.
Antes de eu ir embora, ele ainda passou o clipe de “Move Me”, pediu para apagar a luz e sorriu ao ver as próprias imagens.
“Foi lindo. É um roteiro — disse, sobre o álbum. — Ainda estou descobrindo efeitos, sensações. Foi uma experiência maravilhosa.
Nos despedimos e fomos comer churrasco enquanto ele ainda cantarolava baixo uma das faixas.
— Falar de música é sempre bom — eu disse.
— Bom demais, cara. Demais!
