O treinador do Flamengo, Filipe Luís, foi bem sucinto e covarde ao comentar, nesta quinta-feira (19) sobre a acusação de racismo sofrida por Vini Jr. na partida entre Real Madrid e Benfica, pela Liga dos Campeões, na última terça (17). As declarações foram dadas antes e depois da partida contra o Lanús, em Buenos Aires na Argentina, pela ida da Recopa Sul-Americana.
“É um tema muito mais delicado do que pensamos, um tema que envolve muitas coisas. Para mim é simples, ele (Prestianni) tapou a boca e não deveria ter tapado a boca para dizer o que deveria dizer, e isso gera toda essa revolta e agora é a palavra de um contra de outro. Isto é muito delicado e, se ele disse isso, tem de pagar. Mas repito, é a palavra de um contra de outro e não sou eu quem pode julgar”, comentou Filipe Luís à “ESPN”.
Colocar no mesmo patamar a palavra de um jogador negro que já sofreu dezenas de episódios de racismo ao longo da carreira e a de um agressor em potencial é, no mínimo, ingenuidade. No máximo, é conivência.
Filipe Luís diz que Prestianni “tapou a boca para dizer o que deveria dizer”. Mas o treinador ignora que, em casos de racismo, o agressor raramente admite o crime. A função do “tapou a boca” não é proteger a verdade, mas sim evitar a punição. Ao sugerir que não temos como saber o que foi dito, Filipe Luís desconsidera o relato da vítima e deslegitima a denúncia.
“Sempre fui muito bem tratado, a Argentina me encanta. Sou muito feliz aqui, muito bem recebido. Só tenho boas palavras para a Argentina. Um caso isolado como esse não influencia em nada do que penso sobre este país, que é tão lindo”, voltou ao tema ao ser questionado sobre a recepção na Argentina após a derrota.
Logo após a partida entre Real Madrid e Benfica, o Flamengo se posicionou nas redes sociais em solidariedade a Vini Jr, jogador formado nas divisões de base do clube carioca.
“O que o Vini Jr. vive não é só sobre futebol. Ali tem um garoto que sonhou, que lutou, que venceu muita coisa para estar onde está. E dói ver alguém ser atacado simplesmente por ser quem é. A dança dele é alegria de verdade. É espontânea. É dele. Racismo não é parte do jogo. Machuca. E não pode ser normalizado. Vini, você não está sozinho. A gente sente, a gente apoia, a gente está com você”, publicou o Flamengo.
Não é a primeira vez que Vini Jr. denuncia. Ele já passou por isso inúmeras vezes na Espanha e agora na Portugal. Em todas elas, seguiu-se o mesmo ritual: a vítima denuncia, o agressor nega, e uma parcela da opinião pública (incluindo, agora, um treinador brasileiro) pede “cautela” ou “provas”. Vini Jr. já deu provas mais do que suficientes de que não é um jogador que inventa episódios. Ele é, na verdade, um dos poucos que têm coragem de denunciar.
É compreensível que um treinador do Flamengo, em solo argentino, não queira criar um mal-estar diplomático. Mas há uma diferença entre não generalizar e fazer um elogio efusivo no mesmo momento em que comenta sobre o racismo sofrido por um colega. A impressão que fica é a de que ele está mais preocupado em não desagradar os anfitriões do que em expressar solidariedade genuína a Vini Jr.
Chamar de “caso isolado” um episódio de racismo contra Vini Jr. é ignorar que esse é o modus operandi do racismo. Ele se manifesta em atos isolados, mas é alimentado por uma estrutura que permite que esses atos se repitam. Na Espanha, os casos contra Vini Jr. não foram isolados; foram uma campanha com direito a boneco enforcado pendurado numa ponte.
Em nenhum momento da declaração, Filipe Luís diz algo como: “Estou com Vini Jr., acredito nele, e espero que o agressor seja punido”. Ele se refugia atrás de um “se ele disse, tem de pagar”, mas imediatamente mina a própria afirmação ao dizer que não há como saber. Para Vini Jr., que já carrega o peso de ser a voz solitária contra o racismo no futebol, ouvir isso de um compatriota, ídolo e treinador de um clube que o revelou deve ser uma grande merda.
A fala de Filipe Luís é um reflexo de como o racismo é tratado no meio do futebol e na sociedade: com cautela, com medo de ofender os agressores, e com uma falsa busca por “imparcialidade”.
