Em um discurso de 2009, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie alertou para o perigo de uma história única. Trata-se da adoção acrítica de uma perspectiva dominante, moldada pelo senso comum, cuja imposição jamais é inocente, mas parte de um projeto de poder.
É a partir desse aviso que Sidnei Nogueira, Babalorixá do Candomblé e linguista, e Hédio Silva Júnior, Ogã e advogado, analisam o risco de uma religião única fundada na supremacia de uma teologia e de práticas particulares que se apresentam como universais em “O perigo de uma religião única”, livro lançado em junho pela editora Planeta.
Com base em epistemologias do Candomblé, no conhecimento da legislação brasileira e em análises que articulam geopolítica e discurso público, os autores demonstram como o mundo e, em especial, o Brasil vêm sendo atravessado por forças autoritárias. A fé passa a ser instrumentalizada para sustentar políticas racistas, misóginas e LGBTfóbicas.
Sem condenar experiências religiosas, ainda que reconheça o papel central de setores do Cristianismo contemporâneo nesse projeto, a obra analisa a importância da tolerância religiosa, defende a pluralidade de crenças e da não crença, reafirma a laicidade do Estado e convida o leitor a reconhecer que a disputa religiosa é um dos campos decisivos da luta pela democracia.

Intolerância religiosa no Brasil
O Brasil é um país que impõe socialmente a moralidade cristã desde as bases. É histórica a presença e influência da Igreja Católica na construção do país. Durante o período colonial, o Catolicismo foi a religião oficial e ferramenta de controle e submissão ideológicos em nome da Coroa Portuguesa.
Mesmo com a independência do país, a proclamação da República e a laicidade do Estado institucionalizada pela Constituição Federal, símbolos católicos como crucifixos e bíblias sagradas ainda são expostos em órgãos e instituições públicos. Nosso Estado é forjado e “se fundamenta na moralidade cristã como instrumento de legitimação universal”, apontam Nogueira e Silva Júnior na obra citada.
Na atualidade, apesar da alteração proporcional da quantidade de Católicos e Evangélicos, com o crescimento do Protestantismo e consequente diminuição da população autodeclarada Católica – católicos caíram de 65% em 2010 para 56% em 2022, e evangélicos aumentaram de 21% para 27% no mesmo período –, o Cristianismo (soma de católicos e evangélicos) segue sendo massivo no país, de acordo com dados do Censo do IBGE de 2022.
A pesquisa indica que o número de adeptos das religiões de matriz africana no país saltou de 0,3% da população nacional em 2010 para 1,05% no ano do estudo. Apesar desse aumento, candomblecistas e umbandistas seguem sendo minoria esmagadora em números absolutos, ao mesmo tempo em que somam mais de 70% dos denunciantes de intolerância religiosa, de acordo com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
O MDCH analisou dados do Disque 100 e consolidou a informação de que, entre 2021 e 2025, houve um aumento de 366% do número de casos de intolerância religiosa contra adeptos de religiões de matriz afroindígena. Só em 2025 foram 2.723 denúncias, 10% a mais do que no ano anterior. A violência se aprofunda ano a ano.
Estado Laico em xeque
A obra chega em um momento de forte presença de pautas religiosas no Congresso Nacional e no Executivo, assim como nas instâncias estaduais e municipais, em que governantes e legisladores usam a fé para sustentar políticas públicas que excluem minorias, defendem uma moralidade cristã e avançam agendas econômicas de interesses particulares.
O livro é lançado em um contexto de polarização política em que a religião é usada como trincheira. O texto oferece um contraponto necessário ao discurso hegemônico, trazendo a perspectiva de duas lideranças religiosas de matriz africana que, apesar de historicamente silenciadas, são referências intelectuais, aliando produção de conhecimento acadêmico-científico aos saberes tradicionais afro-indígenas.
Além disso, reforça a urgência do debate sobre o Estado Laico, considerado um mito pelos autores, diante de propostas legislativas que tentam vincular políticas públicas a dogmas religiosos. “O perigo de uma religião única” serve como um alerta sobre os riscos do autoritarismo disfarçado de fé e a importância da separação entre Igreja e Estado para a manutenção de uma sociedade justa e diversa.

“O Estado brasileiro, embora constitucionalmente laico, opera, na prática, sob uma hegemonia cristã institucionalizada, que age como um filtro seletivo do que pode ser dito, praticado e acreditado no espaço público”, trazem os autores no capítulo introdutório.
E sentenciam: “A associação elementar e persistente entre Estado e religião demonstra que o controle espiritual sempre esteve ligado ao controle político, econômico e social das populações, sobretudo as racializadas”, ou seja, aquelas marcadas por um olhar hierarquizante que atribui valor social, político e simbólico a características físicas e culturais, transformando diferenças em desigualdades.
FICHA TÉCNICA
Título: O perigo de uma religião única
Autores: Sidnei Nogueira, Hédio Silva Júnior
Editora: Planeta
Temáticas: Política, Atualidades
Publicação: 15 de junho de 2026
Páginas: 224
