Desde sua concepção, a cajupitanga sempre foi prolífica. Em 2020, seu primeiro ano de lançamentos, publicou 3 EPs e 1 single. Desde então, não permite que o intervalo das novidades se estenda por muito mais de um ano, culminando em 2025 com 2 álbuns e 1 EP de outtakes. Entre essa diversidade de publicações, a cajupitanga ainda gestava o que se tornaria sua ideia mais ambiciosa: “TORNADA”, uma obra concebida em quatro partes. A série de quatro lançamentos tem seu primeiro capítulo em “Ubá (2019 – 2024)”, um álbum de memórias.
A linearidade da concepção de uma obra é apenas uma aparência pública. Até que sua maneira se assente, são idas e vindas, ações desmedidas, receios e retornos. Foi assim com este trabalho. Concebido inicialmente como um EP em 2021, “Ubá” foi guardado até envelhecer. Empoeirou-se de ruídos e, com o tempo já marcado em sua superfície, transformou-se em uma grande canoa, recipiente de memórias da cajupitanga, projeto que a este ponto já passa de meia década.
Nesses anos guardado, “Ubá” foi deixando de representar uma nova fase do duo, para representar sua própria história. O álbum aqui apresentado é construído por composições registradas ao longo dos primeiros seis anos do projeto, que juntas costuram um tecido de memórias, ideias e estéticas que sempre permearam os trabalhos do duo marcados por gravações de campo, registros caseiros e proposta lo-fi.

“Ubá”, neste sentido, sempre esteve imaginado ao longo da história da cajupitanga, com seu nascimento logo após a finalização do primeiro álbum do projeto, “Tradição/Tradução” (2020). É um fantasma, um ausente que, mesmo em falta de materialidade, trouxe contornos, impulsionou direções. Para a cajupitanga, “Ubá” foi o espelho a ser encarado em cada novo projeto concebido. Muito de cada um deles está aqui.
Mesmo assim, “Ubá” traz algo novo e sintetiza uma atmosfera que foi apenas sugerida em outros trabalhos. Uma neblina de agosto conquistense, daquelas que permeiam as estradas, ofusca as esquinas, pinta os bois de branco. O trabalho mistura as influências de Música Ambiente e do cancioneiro interiorano baseado no violão sertanejo para estruturar contemplações perenes, melancólicas, campestres e ruidosas. Algumas faixas aqui são horizontes distantes, tecidos de memória costurados à mão. Assim, “Ubá” delineia histórias vividas de um espaço mais emocional que físico, um lugar conquistense que pode sequer existir, mas que se projeta a partir das paisagens de sons evocadas no trabalho.
No interior desse prolífico processo de composição nos últimos anos, a temática da Memória em sobreposição à do Espaço tomou protagonismo na dinâmica criativa do duo, e, involuntariamente, se estruturou na série a qual o duo nomeia “TORNADA”. Compreendeu-se que “Ubá (2019 – 2024)”, para além de um trabalho que comemora sua própria história, inaugurava toda a temática e havia sido a semente criativa da obra.
