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Racismo e silenciamento: O caso Manon Bannerman e o tratamento de artistas negras em grupos pop femininos globais

Racismo e silenciamento: O caso Manon Bannerman e o tratamento de artistas negras em grupos pop femininos globais

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O KATSEYE, grupo feminino formado pela parceria entre a gigante sul-coreana HYBE e a americana Geffen Records, vive sua maior crise desde a estreia em 2024. O que deveria ser um momento de celebração, com o anúncio de um segundo EP para junho e uma turnê mundial que passará pelo Lollapalooza Brasil, transformou-se em um turbilhão de acusações de racismo após o afastamento da única integrante negra do conjunto, Manon Bannerman.

A controvérsia segue a tônica costumeira de invisibilização e o escrutínio desproporcional sofridos por artistas negras em grupos multirraciais, um fenômeno que ecoa as trajetórias de nomes como Normani (Fifth Harmony), Leigh-Anne Pinnock (Little Mix) e Melody Thornton (Pussycat Dolls).

Em 20 de fevereiro, a HxG (sociedade entre HYBE e Geffen) publicou um comunicado informando que Manon “faria uma pausa temporária nas atividades para focar em sua saúde e bem-estar”, assegurando que a decisão havia sido tomada após “conversas abertas e ponderadas”. O KATSEYE, afirmava a nota, continuaria sua agenda como um quinteto.

Horas depois, a própria artista desmontou a narrativa oficial. Manon escreveu: “Quero que vocês saibam por mim: estou saudável, estou bem e estou cuidando de mim mesma. Obrigada por se preocuparem! Às vezes, as coisas acontecem de maneiras que não controlamos totalmente, mas confio no panorama geral.”

A frase “coisas que não controlamos” sugere uma decisão imposta, não voluntária. O silêncio da gravadora diante da declaração da artista apenas aprofundou as suspeitas.

Katseye

A dimensão racial do caso veio à tona quando Manon curtiu uma publicação da comentarista de cultura pop Simply Simone no Instagram. O post afirmava que a cantora era vítima de “ódio abominável” devido à sua raça, situação que se repetiria com outras artistas negras em grupos femininos multirraciais.

O gesto foi interpretado como uma confirmação silenciosa das suspeitas dos fãs. Manon, de ascendência ganense por parte de pai e suíço-italiana por parte de mãe, é a única integrante negra de um grupo que se vende como “global” — composto por Sophia Laforteza (Filipinas), Yoonchae Jeung (Coreia do Sul), Megan Skiendiel (sino-singapurense-americana), Daniela Avanzini (cubano-venezuelana-americana) e Lara Raj (indiana-americana).

A mensagem passada é que em um grupo de seis nacionalidades, a única garota negra estava sendo isolada.

A solidariedade não demorou a chegar, e veio de Leigh-Anne Pinnock, respondendo a uma publicação sobre seguir Bannerman no Instagram, Pinnock escreveu: “Precisamos nos proteger”. Normani também passou a seguir a cantora, num gesto carregado de significado. Melody Thornton, das Pussycat Dolls, publicou um retrato de Manon com a legenda *”Nós vemos você.”

Fora do universo dos grupos, SZA comentou “garota perfeita” em uma publicação de Manon. Chlöe Bailey compartilhou em seu servidor no Discord: “Estou triste pela Manon.” Kehlani também deixou seu apoio: “Hora de brilhar.”

O apoio massivo dessas artistas negras reconhece as marcas de um sistema que repetidamente empurra mulheres negras para as margens, mesmo quando elas estão no centro do palco.

Vamos lembrar que Normani foi sistematicamente invisibilizada pela mídia e alvo de ataques racistas de fãs das próprias colegas, tendo seu talento minimizado enquanto suas companheiras brancas e latinas recebiam destaque desproporcional. Leigh-Anne Pinnock relatou publicamente as microagressões sofridas no Little Mix, incluindo fãs que pediam para ela “ficar no fundo” e a luta constante para ter seus vocais reconhecidos. Melody Thornton era frequentemente tratada como “a dançarina” nas Pussycat Dolls, enquanto Nicole Scherzinger, de pele mais clara, assumia os vocais principais.

O racismo nesses contextos raramente é explícito. Ele se manifesta na forma de perguntas sobre “encaixe”, na narrativa da “preguiça”, no escrutínio excessivo sobre o comportamento, na ausência de linhas vocais, no apagamento em materiais promocionais. Manon enfrentou exatamente isso desde sua participação no reality que formou o KATSEYE.

Durante o reality, Manon foi repetidamente retratada como “preguiçosa”. Em entrevista recente à revista The Cut, a cantora contextualizou a acusação com uma análise precisa sobre raça e cultura: “Ser chamada de preguiçosa, especialmente como uma garota negra, não é justo. Vocês (americanos) são todos sobre a cultura da ‘grind’ e da ‘hustle’. Na Suíça, se você está doente, você tira um dia de folga. Agora sinto que preciso me esforçar sempre o dobro para provar algo, mesmo não precisando.”

A exigência de que mulheres negras provem constantemente seu valor, mesmo quando já demonstraram talento, é uma das faces mais perversas do racismo estrutural na indústria do entretenimento.

A situação de Manon ficou mais cruel com o envolvimento de Rafael Avanzini, pai de Daniela, outra integrante do KATSEYE. Perfis atribuídos a ele nas redes sociais publicaram comentários de extrema insensibilidade em relação ao afastamento de Manon: “O SHOW TEM QUE CONTINUAR! Com ou sem um membro.” “KATSEYE É MAIOR QUE UMA ÚNICA GAROTA.”

“5 também serve.”

Ainda que os perfis não tenham sido oficialmente confirmados como sendo de Avanzini, a ausência de negativas ou posicionamentos públicos alimentou a percepção de que o ambiente em torno do KATSEYE é hostil à presença de Manon.

A HYBE, uma das maiores empresas de entretenimento da Coreia do Sul, tem um histórico problemático em relação a controvérsias envolvendo racismo e tratamento de artistas. O caso mais emblemático foi o de Kim Garam, do LE SSERAFIM, que em 2022 foi afastada do grupo sob alegações de bullying escolar. O hiato “temporário” de Garam tornou-se permanente, e a artista foi removida do grupo sem maiores explicações.

O temor dos fãs é que o mesmo aconteça com Manon: que a “pausa para saúde mental” seja, na verdade, uma porta de saída disfarçada, permitindo que a gravadora evite lidar com as acusações de racismo enquanto remove a “problema” do grupo.

Até o momento, a HxG mantém silêncio absoluto sobre a contradição entre o comunicado oficial e a fala de Manon, sobre as acusações de racismo ou sobre os comentários atribuídos ao pai de Daniela. O KATSEYE segue promovendo suas atividades como um quinteto, enquanto Manon foi vista em Los Angeles, distante da agenda do grupo.

A menos de dois meses do Lollapalooza Brasil, onde o KATSEYE faria uma de suas primeiras apresentações internacionais, a situação é de completa incerteza. O grupo anunciou recentemente o segundo EP para junho e uma turnê mundial, mas não há qualquer informação sobre a participação de Manon nesses projetos.

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Última atualização em: 27 de fevereiro de 2026 às 16:25

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