O terceiro disco de Rincon Sapiência, “Um Corpo Preto”, disponível desde 30 de junho nas plataformas digitais, nasce de uma reflexão direta sobre sua própria obra e trajetória. Ao revisitar composições recentes, o artista percebeu que a profundidade que buscava não estava necessariamente nos temas em si, como festa, dinheiro, relacionamentos ou prazer, mas no ponto de vista de quem narra essas histórias: o corpo de um homem preto retinto.
Esse entendimento orienta não só o título do álbum, mas toda a construção estética e conceitual do projeto. As músicas ganham novas camadas ao serem atravessadas por questões de identidade racial, presença e pertencimento, criando uma obra que desloca o olhar comum sobre essas vivências.

Musicalmente, o disco é guiado pelo resgate de sonoridades que sempre fizeram parte da formação de Rincon, mas que, ao longo do tempo, ficaram em segundo plano. O artista retoma essas influências e as reorganiza em uma proposta contemporânea que mistura diferentes vertentes da música eletrônica com elementos de samba, reggae, dancehall, afrobeats, funk e rap. Ao fazer isso, também propõe uma reflexão sobre a origem negra de muitos desses gêneros, especialmente da música eletrônica, e a forma como corpos pretos são frequentemente dissociados desses espaços no Brasil.
O álbum conta com participações de Dino Santiago, Lino Kriz, Funk Buia, Mylena Drague, Péricles, Marissol Mwaba, Torya, F7rança e Bren9ve, reunindo diferentes gerações e estilos em torno de uma mesma narrativa.
“Ao enfatizar que são as histórias e vivências de um corpo preto, tudo ganha sabores, cores e discussões diferentes”, explica o artista sobre o trabalho. Rincon, que também é produtor e pesquisador musical, explora a tecnologia e a ancestralidade nas novas faixas. É uma viagem auditiva ao longo de 17 faixas que se desdobra a partir das linguagens e sonoridades que o rapper já construiu no primeiro disco, Galanga Livre (2017), e no segundo, Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps (2019). “Trago sempre a influência do continente africano, a música mais antiga de lá, além de coisas de brasilidade. A partir do segundo disco, fui adicionando mais a tecnologia, com sintetizadores e autotune, e, agora, quero mesclar as duas coisas”, define o rapper. “É um álbum em que se evidencia a pesquisa sobre a obra de artistas que vieram antes da gente e abriram nossos caminhos, sobre o que está aqui e sobre o que ainda virá”, complementa.
O destaque audiovisual está no filme da faixa “Homem Gol”, com participações de Péricles e Marissol Mwaba. Dirigido por Juliana Jesus e produzido pela Monomito Filmes, o projeto foi realizado com moradores da Zona Leste, região onde foi gravado, incluindo elenco, times de várzea e equipe técnica. A narrativa acompanha os enfrentamentos e conquistas de um jovem preto em busca de seus sonhos, reforçando a conexão social presente em todo o disco.
Lançado de forma independente pelo selo MGoma, o álbum reafirma a proposta artística de Rincon Sapiência de expandir os limites do rap brasileiro, mantendo seus signos essenciais, como a caneta afiada, o flow e as discussões sociais, enquanto explora novas possibilidades sonoras.
