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Escola afro-brasileira Maria Felipa encerra as atividades em Salvador após 9 anos, e por que isso é ruim para todos nós

Unidade na capital baiana fecha as portas, enquanto filial no Rio de Janeiro registra crescimento e caminha para autossuficiência; fundadoras investiram mais de R$ 1 milhão em recursos próprios
Escola afro-brasileira Maria Felipa encerra as atividades em Salvador após 9 anos, e por que isso é ruim para todos nós

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A escola Maria Felipa, instituição de ensino fundada com o propósito de implementar uma pedagogia antirracista e valorizar a história e a cultura afro-brasileira, anunciou o encerramento das atividades de sua unidade em Salvador. A decisão foi comunicada pelas fundadoras e sócias Bárbara Carine e Maju Passos, após nove anos de atuação na cidade – sete deles como escola em funcionamento regular.

Em nota pública, as gestoras agradeceram a todos que fizeram parte do projeto: “Queremos agradecer a todas as pessoas que contribuíram com a construção desse projeto que transforma tantas vidas na nossa cidade de Salvador. Agradecemos às nossas crianças (razão do nosso existir), agradecemos às/aos profissionais de educação que atuaram todos esses anos nesse sonho, agradecemos às famílias que confiaram a sua maior preciosidade em nossas mãos”.

Investimento próprio e desafios de sustentabilidade

Apesar dos esforços para garantir a viabilidade financeira da unidade – incluindo um investimento superior a R$ 1 milhão de recursos próprios –, as sócias não conseguiram sustentar a operação na capital baiana. A decisão reflete os desafios enfrentados por projetos educacionais de cunho social e identitário, mesmo em uma cidade com profunda herança afro-brasileira como Salvador.

A escola se destacava por um currículo que colocava no centro a cultura, a história e os saberes negros, em uma proposta pedagógica explícita de combate ao racismo e de formação de identidade positiva entre crianças e jovens.

Maju Passos, Bárbara Carine e Leandra Leal | Foto: Leo Pinheiro
Unidade do Rio de Janeiro segue em expansão

Em contraste com o cenário baiano, a unidade do Rio de Janeiro – também fundada pelas mesmas sócias – apresenta trajetória oposta: quadruplicou o número de matrículas em apenas um ano e caminha para a autossuficiência financeira. O sucesso na capital fluminense é apontado pelas fundadoras como prova da viabilidade do projeto pedagógico, ainda que seus modelos de negócio e contexto local apresentem diferenças significativas.

O caso da Maria Felipa ilustra um paradoxo frequente em iniciativas educacionais com forte recorte étnico-racial: mesmo em regiões com grande população negra e demanda potencial por educação antirracista, fatores como poder aquisitivo das famílias, concorrência com escolas tradicionais e dificuldades de financiamento podem inviabilizar a operação.

A experiência da Maria Felipa em Salvador deixa um legado pedagógico e um questionamento sobre os mecanismos de apoio a escolas comunitárias e identitárias no Brasil – especialmente num momento em que a educação para as relações étnico-raciais ganha visibilidade, mas ainda enfrenta obstáculos estruturais para se consolidar como modelo sustentável.

O caso ressalta a complexidade de se manter um negócio social na educação básica, onde altos custos operacionais, exigências regulatórias e a necessidade de mensalidades acessíveis muitas vezes criam um equilíbrio financeiro delicado, mesmo para projetos com relevância social inquestionável. E podemos expandir para além: negócios liderados por pessoas negras não tem recebido investimentos necessários para se manterem viáveis. Ainda mais se a pessoa por trás do projeto mantém um perfil de militância ativa e de confronto contra as estruturas. É como um recado de “nós vamos te apoiar se você for mais maleável, mais palatável”.

A nossa liberdade passa pelo poder econômico, mas os únicos negros milionários do Brasil não estão comprometidos com enfrentamento, mas com a manutenção de seus status e nos perguntamos se poderemos julgá-los.

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Última atualização em: 9 de janeiro de 2026 às 20:45

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