O estrategista político Eduardo Bisotto, nome ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) e ao Partido Missão, tornou-se nas últimas horas o mais novo integrante do movimento a ser acusado publicamente de racismo. A acusação veio após a circulação de um trecho de uma transmissão ao vivo realizada no último fim de semana, durante um amistoso entre Brasil e Egito, no qual Bisotto se refere ao atacante Vinicius Junior como “mono” — termo em espanhol que significa “macaco” e que se tornou, nos últimos anos, o principal símbolo verbal dos ataques racistas sofridos pelo jogador na Espanha.
O movimento, que se apresenta como liberal e antipetista, já foi protagonista de múltiplos episódios de discurso supremacista, racismo velado e ataques a populações historicamente vulneráveis. Os membros do grupo frequentemente agem com anuência tácita ou explícita da liderança.
Durante a live, enquanto criticava a atuação de Vinicius Junior em campo, Bisotto afirmou:
“Virgínio é incapaz de acompanhar a capacidade. A incapacidade cognitiva dessa gente me irrita.”
Na sequência, sem qualquer interrupção ou correção, ele prosseguiu:
“Vamos, ô mono, vamo mono.”
Foi nesse instante que uma voz feminina ao fundo, identificada por internautas como sendo a esposa de Bisotto, reagiu de imediato: “Eduardo!” — em tom claro de advertência.
Até o fechamento desta reportagem, a transmissão original completa não estava mais disponível nas plataformas onde teria sido veiculada. O conteúdo que circula restringe-se a cortes compartilhados por usuários nas redes sociais.
🚨URGENTE – Eduardo Bisotto, do MBL, utiliza o termo "mono" (macaco) para se referir ao jogador Vinícius Júnior pic.twitter.com/Io6plb9Uqi
— SPACE LIBERDADE (@NewsLiberdade) June 10, 2026
O caso de Bisotto insere-se em uma trajetória documentada de discursos e atitudes que ativistas e estudiosos do racismo classificam como supremacistas ou, no mínimo, tolerantes com a hierarquização racial.
Entre os episódios mais emblemáticos do movimento estão:
- Declarações de Kim Kataguiri sobre cotas raciais e políticas afirmativas, nas quais o parlamentar já sugeriu que “racismo reverso” existe e que políticas de reparação seriam “discriminação legalizada”.
- Falas de Arthur do Val (Mamãe Falei) , que, antes de seu escândalo na Ucrânia, já havia proferido ataques a populações periféricas e a lideranças negras, com tom frequentemente classificado como racista velado.
- Campanhas sistemáticas contra a deputada Talíria Petrone (PSOL) e outros políticos negros de esquerda, nas quais o movimento utiliza estereótipos raciais e regionais para desqualificar adversários.
- Apoio institucional a pautas de endurecimento penal e militarização que, segundo especialistas, atingem desproporcionalmente a população negra e periférica.
Durante um episódio do podcast Flow, o deputado federal Kim Kataguiri (MBL) argumentou, sob a justificativa de liberdade de expressão, contra a criminalização de um partido nazista. Membros e moderadores do próprio MBL desligaram-se do movimento após vazamentos de áudios e mensagens. Eles acusaram o grupo de tolerar e abrigar figuras com ligações extremistas na moderação interna.
Mais do que os atos individuais de seus integrantes, o que diferencia o MBL de outros movimentos políticos é a reação (ou a ausência dela) da liderança. Em quase todos os episódios controversos envolvendo racismo, xenofobia ou discurso de ódio, a cúpula do movimento opta por uma de três estratégias: Silêncio absoluto — na expectativa de que o caso seja esquecido. Justificativa por “contexto” — alegando que as falas foram tiradas do lugar ou mal interpretadas. Ataque aos críticos — classificando denúncias de racismo como “militância lacradora” ou “perseguição política”.
Nenhum integrante do MBL, até onde é público, foi afastado ou punido institucionalmente por declarações racistas. Nenhum pedido formal de desculpas foi feito à população negra. Nenhum programa interno de letramento racial ou combate ao racismo foi implementado pelo movimento.
O significado de “mono” e o racismo contra Vini Jr.
A fala de Bisotto não é um deslize linguístico. Nos últimos anos, o atacante do Real Madrid se tornou o principal alvo de manifestações racistas no futebol europeu. Em episódios amplamente documentados, torcedores adversários chamaram Vini Jr. de “mono” e imitaram macacos nas arquibancadas de estádios como Mestalla (Valência) e Metropolitano (Atlético de Madrid).
O termo, portanto, carrega um peso jurídico, histórico e simbólico. Não é uma gíria inofensiva. É um código racista reconhecido por tribunais espanhóis, que já condenaram torcedores por seu uso.
Até o momento da publicação desta reportagem, Eduardo Bisotto não pediu desculpa e disse que não pedirá. Notórios capachos como Guto Zcarias saíram em sua defesa..Nenhuma nota de repúdio ao racismo. Nenhum afastamento preventivo. Nenhum pedido de desculpas a Vinicius Junior ou à comunidade negra brasileira.
