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Mulheres negras recebem apenas 59% da renda dos homens e têm até 3 vezes mais chance de viver sem saneamento no Brasil, aponta estudo

Pesquisa inédita desenvolvida pelo NUPEMN, núcleo de pesquisa do Fundo Agbara, revela desigualdades persistentes em renda, trabalho e moradia e no Brasil
Mulheres negras recebem apenas 59% da renda dos homens e têm até 3 vezes mais chance de viver sem saneamento no Brasil, aponta estudo

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Mulheres negras seguem ocupando a base da pirâmide econômica e social brasileira. É o que revela o novo Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), ferramenta inédita divulgada pelo Fundo Agbara, com apoio da Fundação Volkswagen e co-realização da ActionAid, e desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra (NUPEMN) da organização.

O índice cruza indicadores de educação, renda, trabalho, moradia e infraestrutura sob uma perspectiva interseccional de raça e gênero e analisa dados nacionais entre 2016 e 2023, identificando desigualdades persistentes em renda, mercado de trabalho, saneamento e acesso à infraestrutura doméstica no país.

Os dados revelam que mulheres negras receberam, em média, apenas 59% do rendimento dos homens em 2022. Quando comparadas aos homens brancos, vivem com praticamente metade da renda domiciliar per capita: R$ 1.191,66 contra R$ 2.381,43, segundo levantamento construído a partir de microdados da PNAD Contínua do IBGE e dados do Ipea.

A pesquisa também mostra que, mesmo com a melhora geral nos indicadores econômicos e educacionais nos últimos anos, os avanços seguem distribuídos de forma desigual. Mulheres negras continuam concentrando os piores índices de formalização, renda, ocupação e acesso à infraestrutura urbana.

Mulheres negras recebem apenas 59% da renda dos homens e têm até 3 vezes mais chance de viver sem saneamento no Brasil, aponta estudo
Painelistas: Brunna Barros, Maria Clara Araujo, Gugo Siqueira, Marcio Black,
Wanessa Debortoli e Tamiles Alves

“O Brasil avançou em diversos indicadores sociais, mas não alterou estruturalmente as desigualdades raciais e de gênero”, aponta o estudo.

No mercado de trabalho, as mulheres negras seguem mais expostas à informalidade e ao desemprego. Em 2023, a taxa de desocupação desse grupo era de 10,8%, mais que o dobro da registrada entre homens brancos, de 4,8%. Apenas 33,3% das mulheres negras possuíam carteira assinada no setor privado no ano passado, índice inferior ao observado entre mulheres brancas (37,4%) e homens brancos (40,4%).

A pesquisa evidencia ainda a permanência da divisão racializada do trabalho. Em 2023, 12,4% das mulheres negras atuavam no trabalho doméstico sem carteira assinada, percentual muito superior ao observado entre os homens brancos (0,4%). O estudo destaca que 48% das mulheres negras seguem concentradas no trabalho doméstico, evidenciando que o aumento da participação feminina negra no mercado não foi acompanhado por valorização profissional ou melhores condições de trabalho.

Outro eixo central do levantamento é o trabalho de cuidado não remunerado. Segundo o estudo, 65% desse trabalho no Brasil é realizado por mulheres. Caso fosse contabilizado economicamente, acrescentaria cerca de 13% ao PIB nacional. Mulheres negras dedicam, em média, 22,3 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidado, acima das mulheres brancas (21 horas) e muito acima dos homens (11 horas).

No campo da moradia e do saneamento, os dados revelam desigualdades profundas. Mulheres negras têm até três vezes mais probabilidade de viver em domicílios sem banheiro do que mulheres brancas. Entre 71% e 75% vivem em casas com apenas um banheiro, enquanto entre mulheres brancas o percentual varia entre 55% e 59%.

O estudo mostra ainda que 31,6% das mulheres negras vivem em domicílios com formas precárias de esgotamento sanitário, proporção muito superior à observada entre mulheres brancas (20,7%). Mulheres negras também apresentam mais que o dobro de exposição ao descarte de esgoto em valas abertas em relação à população branca.

As desigualdades aparecem também dentro de casa. Em 2023, 37% das mulheres negras ainda não tinham máquina de lavar roupa em seus domicílios, contra 15% das mulheres brancas. O acesso a geladeiras maiores, internet e coleta adequada de lixo também permanece inferior entre a população negra.

Segundo o levantamento, as desigualdades habitacionais e urbanas refletem um padrão histórico de exclusão territorial e racial no Brasil, associado ao racismo ambiental, conceito que explica como populações negras, periféricas e vulnerabilizadas são desproporcionalmente expostas à precariedade urbana, ausência de saneamento básico, insegurança alimentar, falta de infraestrutura e impactos das crises climáticas.

O estudo aponta que essas desigualdades não são acidentais, mas resultado de processos históricos de marginalização racial que determinam quem tem acesso à moradia digna, serviços públicos, proteção ambiental e qualidade de vida. Para o Fundo Agbara, o debate sobre racismo ambiental está diretamente relacionado ao conceito de Bem Viver, que compreende o direito à vida digna, ao território, ao cuidado e à justiça climática como dimensões fundamentais da justiça econômica e social.

A pesquisa defende que indicadores tradicionais, como PIB, IDH e Índice de Gini, não são suficientes para capturar as desigualdades estruturais que atravessam raça, gênero e território no Brasil.

“Mesmo com avanços recentes em acesso a direitos e políticas focalizadas, quando analisamos as desigualdades a partir de uma perspectiva multidimensional, que considera não apenas escolaridade e mercado de trabalho, mas também moradia, infraestrutura e qualidade de vida, as mulheres negras continuam muito abaixo do que podemos esperar enquanto sociedade”, afirma Priscila Soares, coordenadora de pesquisa do Fundo Agbara, durante o I Fórum Econômico de Mulheres Negras da América Latina, evento que marcou o lançamento do índice.

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Última atualização em: 8 de junho de 2026 às 8:50

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