O novo longa-metragem do diretor Beto Oliveira, “De Tudo que Eu Poderia te Deixar”, constrói uma crítica social a partir do ponto de vista da periferia urbana. O filme acompanha a experiência de um jovem cineasta negro que tenta realizar um filme em meio a limitações econômicas, tensões sociais e disputas simbólicas sobre quem pode, de fato, produzir cinema no Brasil.
O argumento da obra foi um dos projetos selecionados para desenvolvimento no Laboratório de Narrativas Negras e Indígenas para o Audiovisual (LANANI) em 2021, iniciativa criada para fortalecer histórias e vozes historicamente marginalizadas no setor cultural.
Na trama, Jeferson (Cícero Lucas) é um jovem morador de uma comunidade que, desde a adolescência, produz filmes de forma independente, sempre exibidos em um cineclube local. Sua trajetória é marcada pela frustração de ver seu trabalho constantemente deslegitimado pelo establishment audiovisual, enquanto a urgência de um trabalho formal para ajudar na renda familiar paira como uma realidade inadiável.
O enredo ganha um twist inesperado quando um acidente de carro leva até a comunidade Any Star (Laura Rauseo), uma influenciadora digital de grande popularidade. A presença da celebridade desencadeia uma sucessão de conflitos: suspeitas de sequestro, investigação policial, exposição midiática e, por fim, a tentativa dos moradores de transformar aquele encontro improvável em um novo filme coletivo.
“Tudo pode dar errado, mas se eles não conquistarem o sucesso, pelo menos terão vivido o último momento épico antes de suas ‘vidas adultas’”, sugere a sinopse. O acontecimento dá início a uma narrativa em que passado e presente do cinema se cruzam, conduzindo os personagens a descobertas sobre si mesmos e sobre a força da criação coletiva – em uma mistura que evoca o espírito comunitário de “Saneamento Básico” com o making-of caótico de “Noite Americana”.

A obra adota a clássica estrutura de filme dentro do filme, mesclando o processo da criação cinematográfica com a narrativa ficcional. Ao mobilizar temas como memória, pertencimento e desigualdade social, o longa contrapõe a lógica orgânica do cinema comunitário à da grande indústria cultural e da busca por visibilidade digital.
Em torno do processo criativo de Jeferson, orbitam personagens como sua irmã Adélia (Becky Moreira), Cacá (Higor Valim), Glauber (Kauê Fernandes), Silvia (Giulia Nassa) e Éder (Iarley Rocha), jovens que assumem papéis centrais na produção.
A proposta narrativa dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre racismo estrutural no cinema brasileiro, especialmente no que diz respeito ao acesso a recursos, à legitimidade autoral e à circulação de obras produzidas por realizadores pretos. O filme reforça essa dimensão ao apresentar o cinema como um espaço de disputa simbólica, onde memória, identidade e reconhecimento social se entrelaçam.
Elenco em ascensão
“De Tudo que Eu Poderia te Deixar” marca o segundo trabalho no cinema do ator Cícero Lucas, que ganhou destaque como protagonista de “Marte Um”. No longa, ele divide a tela com Laura Rauseo (de “Turma da Mônica: Laços”) e a cantora Becky Moreira, em sua estreia como atriz. O elenco ainda conta com nomes consagrados, como Gilda Nomacce (“Enterre seus Mortos”), Darlan Cunha (“Cidade de Deus”), Ary França (“Durval Discos”) e Nizo Neto (“O Prefeito”).
Ao escolher a comédia como linguagem principal, o filme retoma um gênero historicamente popular no país e o ressignifica, inserindo nele vozes e memórias que raramente alcançam o protagonismo nas telas.
Produzido pela Frame7 Cinema, com estreia prevista para o segundo semestre de 2026, o longa reforça uma tendência positiva do audiovisual nacional: investir em histórias que, mesmo ancoradas na herança de um cinema clássico, se abrem para novas perspectivas e públicos.
Ao combinar ficção, metalinguagem e crítica social, “De Tudo que Eu Poderia te Deixar” se insere em uma geração de filmes brasileiros que investigam o próprio fazer cinematográfico a partir de lugares historicamente excluídos.
