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“Michael” é um espetáculo técnico omisso, vazio, cínico e levemente divertido; um sintoma do cansaço das cinebiografias

“Michael” é um espetáculo técnico omisso, vazio, cínico e levemente divertido; um sintoma do cansaço das cinebiografias

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Antoine Fuqua, cineasta que construiu sua carreira em territórios de tensão moral e violência psicológica latente , de “Dia de Treinamento” a “O Protetor” , assume um desafio que, à primeira vista, parece fora de seu eixo natural. Dirigir a cinebiografia de Michael Jackson não é apenas um exercício de recriação histórica ou de coreografia em larga escala; é também, inevitavelmente, um ato de mediação entre o mito e o homem, entre o gênio inquestionável e as sombras que nunca deixaram de rondar seu nome. O resultado dessa aposta, materializado no longa “Michael”, é visualmente deslumbrante, mas narrativamente muito, muito frustrante, ainda que não desse para esperar muito de um filme aprovado pelos responsáveis do espólio bilionário do protagonista.

Lembro quando começaram os rumores e a posterior confirmação da morte de Michael Jackson, no dia 25 de junho de 2009, aos 50 anos. Acredito que todo fã deve se lembrar de onde estava naquele momento. Eu estava morando sozinho, na periferia de Guarulhos, dividindo minha atenção com a TV e com um jornal esportivo. Foi um choque. Michael sempre teve uma aura de imortal. E aparentemente, os produtores de sua cinebiografia quiseram manter essa aura, focando em retocar o verniz sem estudar o retratado, fazendo de “Michael”, um exercício de quase duas horas tentando impressionar pela técnica, mas se recusando deliberadamente encarar a complexidade necessária.

O roteiro assinado por John Logan, três vezes indicado ao Oscar por trabalhos como “Gladiador” e “O Aviador”, opta por uma estrutura que já se provou lucrativa no passado recente, especificamente com o pavoroso “Bohemian Rhapsody”, produção do mesmo Graham King, que aqui atua como produtor executivo. A fórmula, já conhecida, é simples e eficaz para as bilheterias: selecionar os momentos mais emblemáticos da carreira do artista, recriá-los, muitas vezes com cortes inexplicáveis e fazer uma montagem muitas vezes confusa, mas que apela para a nostalgia do público com a obra de artistas icônicos. Inclua um enredo leve de superação familiar e finja que as partes verdadeiramente dolorosas da história nunca existiram. O problema é que, ao aplicar esse molde a Michael Jackson, o filme não apenas omite, ele deforma.

“Michael” é um espetáculo técnico omisso, vazio, cínico e levemente divertido; um sintoma do cansaço das cinebiografias
Os Jackson Five em cena

A trama cobre os anos de 1956 a 1988, um recorte que já soa arbitrário e conveniente. Terminar a narrativa em uma apresentação de “Bad” no Reino Unido, com um cartão que anuncia “Sua história continua”, é quase uma piada de mau gosto para quem sabe o que aconteceu nas duas décadas seguintes: as acusações de abuso infantil, o julgamento midiático, o declínio físico, a morte prematura. Ao parar no auge, o filme se recusa a ser uma biografia e se assume como uma hagiografia, uma celebração que exige aplausos, não perguntas.

Se há algo em “Michael” que justifica a experiência de assisti-lo numa tela IMAX, esse algo se chama Jaafar Jackson. Sobrinho do homenageado, Jaafar não apenas interpreta o tio, ele o habita de uma maneira que beira o sobrenatural. Os movimentos, o timing, a respiração, a forma como ocupa o palco e dialoga com a câmera, tudo funciona em um nível de precisão que eletrifica a sala. O problema é que, quando a música acaba, Jaafar fica à deriva em um personagem que o roteiro se recusa a preencher.

A versão mais jovem de Jackson, vivida por Juliano Krue Valdi, também brilha, deixando um gosto de curiosidade para saber como foi sua evolução como artista através dos discos do Jackson 5. Infelizmente, isso nunca é saciado.

O Michael Jackson de “Michael” é uma criatura de afetos mínimos e conflitos rasteiros. Ele é tímido, educado, obcecado por perfeição artística e cercado por pessoas que repetem o tempo todo o quanto ele é especial. Mas onde está sua vida interior? De onde vêm suas ideias? Como ele processa a solidão de ser o homem mais famoso do planeta enquanto dorme ao lado de um chimpanzé de estimação chamado Bubbles? O filme sugere essas perguntas, mas nunca busca responder. O resultado é um protagonista que é tudo, menos humano: uma coleção de tiques e gentilezas vagas, um ícone aspiracional sem psiquê marcante.

Colman Domingo, um dos atores mais talentosos de sua geração, entrega a melhor atuação do filme como Joe Jackson, o patriarca temido e violento que empurrou os filhos à fama às custas de sua infância. Domingo interpreta Joe com uma dureza que nunca é gratuita: há medo em seus olhos, há desespero disfarçado de disciplina, há uma lógica distorcida que ele próprio parece acreditar ser amor. É uma performance rica em nuances, o que torna ainda mais irritante o fato de o roteiro reduzi-lo a um vilão unidimensional, o bode expiatório de todos os traumas de Michael. E claro, a crueldade descrita por seus filhos em diversos documentários nunca é de fato retratada. Há sugestão de um homem duro, mas nunca nada é explícito, e mesmo que as surras e a opressão em cima dos filhos seja sugerida, no fim, as ações de Joe não justificam o trauma posterior infringido a Michael.

Colman Domingo é Joe Jackson

A ironia, aqui, é cruel e talvez involuntária. O filme condena Joe Jackson por explorar o talento do filho, por tratá-lo como uma mercadoria, por negar sua individualidade em prol do lucro. E, no entanto, é exatamente isso que “Michael” faz com o próprio cantor. Ao ignorar sua complexidade, ao evitar qualquer contradição, ao transformar sua dor em um detalhe pitoresco (a leitura de “Peter Pan”, a amizade com Bubbles, a visita a crianças doentes), os cineastas repetem o mesmo gesto que atribuem ao pai abusivo: reduzem Michael Jackson a um produto. A diferença é que Joe, pelo menos, tinha a desculpa da ignorância. Fuqua, Logan e King não têm.

A omissão mais flagrante do longa, e aquela que compromete qualquer pretensão de seriedade artística, é o silêncio absoluto em torno das acusações de abuso infantil. Não se trata aqui de exigir um julgamento moral do filme (cinebiografias não são tribunais). Mas ignorar completamente um dos capítulos mais debatidos e documentados da vida de Michael Jackson não é prudência narrativa; é distorção histórica. Há cláusulas contratuais, reveladas pela imprensa, que proíbem o filme de mencionar ou representar os acusadores, uma amarra legal que explica, mas não justifica, o vazio no centro da obra.

O que torna essa ausência ainda mais incômoda é a maneira como o filme, paradoxalmente, acena para ela sem nunca encará-la. Há cenas de Michael visitando crianças em hospitais, cercado por fãs jovens, sempre em poses de gentileza angelical. Para quem conhece o contexto, essas imagens funcionam como um elefante na sala, algo que todos veem, mas que o filme insiste em não nomear. Essa escolha não protege o legado de Jackson; ao contrário, o fragiliza, porque transforma a omissão em cúmplice de uma narrativa unilateral.

Outra coisa mal resolvida é o filme tornar o segurança do protagonista, Bill (Keilyn Durrel Jones), uma figura central na trama, como se fosse um espectador do drama que se desenrola, mas sem nunca ser decisivo para as mudanças da ação.

Jaafar Jackson as Michael Jackson and KeiLyn Durrel Jones as Bill Bray in Michael. Photo Credit: Glen Wilson/Lionsgate

É impossível negar a qualidade técnica de “Michael”. A cinematografia de Dion Beebe captura os números musicais com uma clareza que oscila entre o documental e o onírico. O design de produção de Barbara Ling recria estúdios, palcos e bastidores com uma fidelidade que beira o fetichismo. O figurino de Marci Rodgers reproduz cada jaqueta, cada luva, cada chapéu fedora com uma precisão que faria qualquer colecionador de memorabilia chorar. Em termos puramente artesanais, o filme é um primor.

Mas a técnica, sozinha, não sustenta uma biografia. E é nos momentos de respiro, quando a música para, quando o espetáculo cede lugar ao drama que o filme se revela mais frágil. As cenas entre os números são previsíveis e repetitivas: Michael se sente sozinho, alguém lhe diz que ele é um gênio, ele volta ao estúdio. O conflito com o pai, que poderia ser o eixo dramático do filme, é tratado em poucas cenas e resolvido com uma rapidez que beira o desprezo pelo próprio potencial narrativo.

Algo que me incomodou profundamente foi a falta de detalhes da relação de Michael com seus irmãos, também companheiros de banda. Os irmãos Jackson se tornam meros figurantes. A gente não sabe qual a participação de cada um nas músicas,como eles enxergavam o pai, a genialidade do irmão, possíveis ciúmes.

Em um determinado momento, ficamos sabendo que Jermaine Jackson, muitas vezes considerado o terceiro mais talentoso, saiu do grupo e ficou a gravadora Motown. Isso é simplesmente jogado e bola para frente. Não há contexto ou explicação.

Katherine Jackson, a matriarca interpretada por uma desperdiçada Nia Long, existe apenas para fazer expressões de preocupação; John Branca, o advogado e executor do espólio, interpretado por Miles Teller com uma peruca que parece saída de uma comédia pastelão, ganha destaque suspeito, afinal, é um dos produtores executivos do filme. Inclusive, é absolutamente risível que Branca tenha mais falas e destaque no filme que o executivo da Motown, Berry Gordy, e o lendário produtor Quincy Jones, parceiro de Michael em seus álbuns mais icônicos.

Uma das passagens mais instigantes é ver como Michael concebe o videoclipe que mudou a história da música, “Thriller”, mas em a cena corta quando estamos apreciando o melhor. Outra falta sentida é entender como o sucessor do álbum mais vendido da história nasce. “Bad” tinha um desafio gigante e se o longa até pincela a transição de “Off The Wall” para “Thriller”, ignora totalmente o encerramento daquela trilogia que tornaria o cantor uma lenda.

A decisão de encerrar “Michael” com um cartão no melhor estilo pós-créditos da Marvel, anunciando que o personagem “voltará”, é tão absurda quanto reveladora. Reveladora porque expõe, sem pudor, a lógica industrial por trás de todo o projeto: “Michael” não é um filme sobre um artista; é o primeiro capítulo de uma franquia. Dependendo do desempenho da bilheteria e tudo indica que ele será robusto , teremos uma continuação cobrindo os anos finais da vida de Jackson. A pergunta que fica, no entanto, é: para quê? Se o primeiro filme já se recusou a encarar o que tornava Jackson um ser humano contraditório e fascinante, o que uma sequência poderia acrescentar, senão mais recriações de clipes e mais omissões convenientes?

Conclusão: um tributo que confunde celebração com fuga

No fim das contas, a obra é um filme para quem já ama Michael Jackson e deseja apenas reviver os momentos de glória em uma tela grande. Para esses espectadores, a experiência será provavelmente catártica: a música continua imortal, as coreografias continuam deslumbrantes, e Jaafar Jackson é um fenômeno que merece ser visto. Mas para qualquer pessoa interessada em compreender o artista – suas contradições, suas dores, seu processo criativo, seu isolamento, sua queda – o filme é uma frustração de proporções épicas.

O grande pecado de “Michael” não é ser uma hagiografia. É ser uma hagiografia que finge ser um retrato honesto. Ao limar todas as arestas, ao transformar a solidão em anedota e o conflito em caricatura, o filme não celebra Michael Jackson o reduz. Ele o transforma no que sempre disse que não queria ser: um produto. E, nesse sentido, talvez o maior mérito de “Michael” seja involuntário: ao tentar blindar o mito, ele nos mostra, pelas brechas, o preço que se paga quando a arte vence a vida.

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Última atualização em: 21 de abril de 2026 às 20:15

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