“O Mandaloriano e Grogu” chega aos cinemas sete anos após o divisivo “Star Wars – A Ascensão Skywalker” revela uma obra que transita entre o sucesso comercial e a segurança criativa, agradando sem surpreender. O grande acerto do longa, dirigido por Jon Favreau, está em sua capacidade de cumprir a missão básica a que se propõe, ou seja, entregar uma aventura espacial repleta de ação, humor e o carisma já consagrado da dupla de protagonistas que estrelou 3 temporadas da série. No entanto, há uma nítida falta de coragem em sair do mais do mesmo e fazer jus aos investimentos bilionários comuns da franquia.
O Mandaloriano surge logo de início extremamente imponente e inspira perigo até mais que na série. Seu lado assassino está no ápice e isso rende sequências de ação inquestionavelmente divertidas. Enquanto isso, Grogu ganha ainda mais destaque, participando de forma mais ativa das lutas e usando seus poderes da Força com uma frequência que justifica seu nome no título, além de continuar roubando cenas com seus grunhidos e travessuras. A mistura de efeitos práticos com CGI rende uma criaturinha carismática e fofa que com certeza vai vender ainda mais bonecos. A relação entre os dois permanece o verdadeiro coração da narrativa, com Din Djarin se preocupando com o pequeno durante as viagens, com a voz de Pedro Pascal inspirando afeto por baixo da temida máscara mandaloriana.
Para quem é fã das antigas, retorno da nave Razor Crest também ajuda a reforçar uma sensação de conforto clássico. E conforto é justamente o que este filme trazao público. Favreu conduz “O Mandaloriano e Grogu” de forma a não trazer riscos. A ousadia é quase nula, o que é um ponto forte eponto fraco ao mesmo tempo.
A impressão é de que Jon Favreau, os roteiristas Dave Filoni e Noah Kloor, e toda a produção optaram por um caminho extremamente seguro e não quiseram vestir a aura de responsáves por mudar os rumos da franquia. Não há interesse em explorar a fundo a Nova República e tampouco investigar as reverberações da queda do Império. A estrutura narrativa é nitidamente inspirada no formato serializado em que foi inpsirada, parecendo menos um filme coeso e mais uma colcha de retalhos que poderia facilmente ser dividida em cinco ou seis episódios de uma quarta temporada de The Mandalorian: a missão inicial na neve, a busca por Rotta, as lutas no coliseu, as tramas políticas dos Hutts, e assim por diante.

Para um público acostumado com maratonas de streaming, essa estrutura até funciona como um respiro, uma trama simples que se resolve em 132 minutos sem a necessidade de oito ou dez horas de desenvolvimento. Porém, para o primeiro filme de Star Wars nos cinemas em quase sete anos, após o gosto amargo deixado pela conclusão da saga de Rey, Poe, Finn e Kylo Ren, essa falta de ambição soa como um desperdício de potencial. Tudo o que se vê na tela lembra algo que o público já gostou antes, seja na própria série, em outros filmes da saga ou em obras clássicas que inspiraram Star Wars, como Gremlins e O Cristal Encantado. Falta aquela sensação de novidade, de perigo real, de surpresa genuína que marcou os grandes momentos da franquia. A dinâmica entre mestre e aprendiz, que é o cerne de Star Wars, aparece de forma superficial, com poucas lições de verdade sendo trocadas entre Mando e Grogu.
A grande aposta do filme para tentar quebrar essa mesmice é o personagem Rotta, o filho de Jabba, o Hutt. Apresentado originalmente na animação The Clone Wars, Rotta aqui já está crescido e vive como um guerreiro gladiador em um planeta distante. A ideia de um Hutt musculoso, ágil e lutador é um pouco estranha, mas o personagem ganha um carisma interessante com a dublagem feita por Jeremy Allen White. O roteiro, porém, insiste em explicar o posicionamento do personagem pelo menos três vezes, duas delas em um intervalo de menos de quinze minutos, como se tentasse justificar uma escolha criativa que foi feita sem segurança. Os dilemas parentais envolvendo o personagem não convencem tanto, mas rendem boas cenas de ação.
As pequenas criaturas Anzellans roubam a cena de forma inesperada, entregando o melhor humor do longa, lembrando muito o efeito Minions no primeiro filme do “Meu Malvado Favorito”. Em vários momentos, conseguindo ser mais engraçadas até mesmo que o próprio Grogu. A trilha sonora de Ludwig Göransson, que criou um dos temas mais icônicos de toda a franquia para The Mandalorian, também merece destaque, especialmente pelo uso de sintetizadores que dão um frescor à já famosa marcha do herói e conferem a sequências como a perseguição nas ruas de Shakari um tom mais de ficção científica pura do que de fantasia espacial. Nomes como Martin Scorsese e Sigourney Weaver aparecem em papéis que, embora prestigiados, funcionam mais como brinquedos caros nas mãos de Favreau do que como adições significativas à trama.
“O Mandaloriano e Grogu” é um filme que entretém e diverte fazendo exatamente as mesmas brincadeiras que já conhecemos e amamos. O resultado é divertido, carismático, emocionante em alguns poucos momentos e extremamente fácil de assistir, cumprindo seu papel de blockbuster. Para quem sente falta da dupla e quer uma aventura leve e descompromissada, o filme certamente agradará. No entanto, para quem esperava que o retorno de Star Wars aos cinemas trouxesse um novo capítulo memorável, no nível de O Império Contra-Ataca ou mesmo das melhores temporadas das séries do Disney+, a experiência pode deixar um sabor de pouco. Dificilmente. Depois de tantos altos e baixos, acertar a mão na estabilidade é até bem-vindo.
