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Raull Santiago, do Instituto Papo Reto: “A favela não pode ser só objeto da política climática, ela precisa ser reconhecida como sujeito”

Entrevista com Raull Santiago, do Instituto Papo Reto: “A favela não pode ser só objeto da política climática, ela precisa ser reconhecida como sujeito”

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O Instituto Papo Reto nasceu em 2013, no contexto das chuvas que devastaram o Complexo do Alemão, e desde então se consolidou como uma das principais organizações de comunicação popular e defesa de direitos humanos das favelas cariocas. Ao longo desses mais de dez anos, a entidade passou de coletivo a instituto, ampliou suas frentes de atuação e refinou metodologias próprias, como a “comunicação de guerrilha” e a “publicidade afirmativa”. Em entrevista ao Pretessências, Raull Santiago, uma das lideranças da organização, reflete sobre os desafios éticos, políticos e emocionais de atuar em um território marcado por violência estatal, racismo ambiental e ausência de políticas públicas.

Sobre a evolução da metodologia de “comunicação de guerrilha”, Raull explica que ela nasceu da urgência de denunciar sem desumanizar. No caso do menino Eduardo, em 2015, o recurso de filmar em três camadas — aproximação, distanciamento e base de edição — foi crucial para preservar a cena do crime e garantir prova jurídica contra fraudes policiais. Já na Chacina de 2025, o cenário era de guerra total, com 2,5 mil policiais e mais de 120 mortos. “A recalibragem foi drástica: tivemos que usar transmissões ao vivo sem cortes para radicalizar o contraponto à narrativa oficial de ‘sucesso’ do Estado”, conta. O desafio ético de borrar imagens e preservar a privacidade das famílias, refinado ao longo dos anos, foi tensionado pela necessidade brutal de contar corpos na mata para que não sumissem. “O impacto foi o retorno ao início: a imagem crua como única forma de barrar o apagamento histórico de um massacre dessa magnitude.” Ele lembra que, antes da atuação do coletivo, a própria polícia já havia removido cerca de 50 corpos, e moradores, outros 70. Familiares das vítimas pediram as lives por segurança e exposição do massacre. “Fizemos com cautela e cuidados aprendidos ao longo de anos, mas assumindo, nesse conjunto rápido de reflexões, a exposição como necessária para aquele contexto.”

Entrevista com Raull Santiago, do Instituto Papo Reto: “A favela não pode ser só objeto da política climática, ela precisa ser reconhecida como sujeito”
Ato organizado após a morte do menino Eduardo | Divulgação

Em 2024, o coletivo se transformou em Instituto. Para Raull, a mudança foi um passo estratégico para mostrar que a favela tem planejamento e gestão, não é só improviso. “O ‘saber de cria’ é o que nos protege da letargia”, afirma. Para não se perderem, a estratégia é manter os pés no território. “A estrutura de Instituto serve para dar capacidade material de continuidade, mas a criatividade vem do fato de que todos somos cria.” Ele ressalta que a autonomia nasce de não depender apenas dos filtros da mídia tradicional e de ter uma rede de confiança que cobra e sustenta o trabalho no dia a dia. “Institucionalizar sem perder a essência não é automático, é uma escolha política cotidiana. E a gente segue escolhendo ser movimento, mesmo sendo instituto.”

As chuvas de 2013, que deram origem ao Papo Reto, foram, segundo Raull, um alerta que nunca deixou de ser atual. “Famílias perdendo tudo, sendo removidas, promessas feitas e não cumpridas — não foi um evento isolado, foi a expressão de uma política histórica de negligência com a favela.” Hoje, com o eixo de Direitos Socioambientais, a organização busca traduzir o “esgoto a céu aberto” e o “deslizamento” para a linguagem da ONU. “Enfrentar o clima é enfrentar a desigualdade.” A participação na COP 30, segundo ele, não é para internacionalizar a pauta de forma abstrata, mas para afirmar que o que sempre foi tratado como tragédia local é, na verdade, crise climática — com a diferença de que, na favela, ela chega antes, mais forte e com menos proteção. O desafio, então, é não deixar que essa pauta vire só discurso técnico. “A gente trabalha com duas frentes ao mesmo tempo: uma de incidência estrutural, que pressiona por políticas públicas, orçamento, planejamento urbano e adaptação climática de verdade; e outra de resposta imediata, porque quem está em área de risco não pode esperar o tempo da burocracia.” Ele conclui: “A favela não pode ser só objeto da política climática, ela precisa ser reconhecida como sujeito.”

Sobre a atuação em espaços institucionais, como a audiência com o ministro Alexandre de Moraes após a chacina de 2025, Raull admite que é exaustivo ter que levar o horror de uma chacina como “insumo técnico” para o Supremo Tribunal Federal. Para evitar o esgotamento da potência política, a aposta é na Publicidade Afirmativa. “O Papo Reto não é só denúncia; é formação e evidência das potencialidades. Se a gente só mostrar o sangue, o Estado vence pelo cansaço. A nossa força vem de mostrar que, apesar da política de morte, a gente afirma a potência da vida e constrói soluções.” Ele reconhece o limite entre a necessidade de expor e o risco de esgotar, mas afirma que não levar também seria aceitar o apagamento. “A gente não mostra só como as pessoas morrem, mas como elas vivem, resistem e constroem soluções.”

Entrevista com Raull Santiago, do Instituto Papo Reto: “A favela não pode ser só objeto da política climática, ela precisa ser reconhecida como sujeito”
Lançamento da pesquisa

O projeto #OTalDoAoViVo surgiu como resposta à censura imposta pelas UPPs aos bailes funks, realizando shows em lajes. Sobre a necessidade de negociar com facções e com o Estado para realizar eventos culturais no território, Raull afirma que o Papo Reto atua a partir da legitimidade. “A contradição de realizar eventos em áreas conflagradas é resolvida com a ética do cuidado: a gente não pede autorização para existir, a gente articula para que a vida do morador seja preservada.” Ele lembra que, durante a pandemia, operações policiais interrompiam até a distribuição de cestas básicas. “Nossa autonomia vem de saber que o território nos reconhece como sujeitos que propõem caminhos, e não como invasores.”

Um dos grandes desafios do Instituto, segundo Raull, tem sido fazer com que os dados produzidos pela própria comunidade — o “saber de cria” — sejam validados como critério técnico-científico por instâncias do Estado, sem que sejam cooptados ou esvaziados. “O maior desafio foi romper com a lógica de que a favela é só objeto de estudo.” Ele explica que a organização não entrega apenas números, mas a biografia das lideranças, para que não virem estatística. “É preciso construir série, padrão, recorrência. É isso que permite sair do campo da percepção, que muitas vezes é deslegitimada, e entrar no campo da evidência, sem perder a raiz.” Ele alerta para o risco de cooptação, quando o dado é apropriado sem reconhecimento ou usado fora de contexto. Para enfrentá-lo, o Instituto mantém o controle narrativo sobre o que produz, garante a presença da favela nos espaços de decisão e não abre mão da dimensão política da informação. “No fim, o desafio não é só técnico, é de poder. É disputar o que conta como conhecimento válido no Brasil.”

Raull é honesto ao dizer que ainda não existe uma política formal totalmente estruturada. “A realidade da mídia independente de favela é que a gente opera sob muita pressão, com poucos recursos e com uma exposição contínua a situações extremamente violentas.” Apesar disso, ele conta que o cuidado virou uma pauta central. Desde as primeiras ameaças de morte e a exaustão de coberturas como a de 2025, foram adotados protocolos de segurança e cuidado coletivo. Sempre que possível, há alternância de funções — quem vai para a rua um tempo depois fica mais nas missões de base. Em momentos críticos, o apoio de redes internacionais permite que lideranças saiam temporariamente do território para respirar e se proteger. “O cuidado mental hoje é visto como estratégia de sobrevivência e força política, e não como simples luxo.” Ele reconhece, porém, que ainda há um desafio estrutural: criar políticas de cuidado consistentes sem financiamento específico para isso. “O cuidado ainda é pouco reconhecido como parte essencial do trabalho em direitos humanos, e isso precisa mudar.”

Gabinete de crise durante a pandemia de Covid

Embora o confronto armado seja o que mais ganha manchete, Raull destaca que o Instituto é sustentado por mulheres como Lana Souza, Renata Trajano, Ana, tia Cida e tantas outras. O eixo de Educação e Futuro foca diretamente na autonomia das mulheres, com oficinas de geração de renda e educação financeira para quem está em vulnerabilidade. No eixo de Segurança Pública, o atendimento jurídico gratuito também acolhe as demandas de quem sustenta a base da pirâmide na favela. “O ‘saber de cria’ aplicado aqui é entender que a proteção da mulher periférica começa na rede de solidariedade, muito antes de qualquer política pública chegar.”

Por fim, Raull fala sobre a renovação de lideranças e a transmissão das metodologias para a nova geração. Ele reconhece que o contexto mudou — de 2013 para 2026, surgiram os algoritmos de vigilância e a desinformação em larga escala. “A renovação acontece mais uma vez através das formações.” O Lab Antirracismo e projetos como o 1MiO conectam a memória das lutas antigas com as ferramentas que os jovens já dominam nas redes sociais. “A gente não quer que eles ‘reinventem a roda’, mas que usem nossas metodologias como base para inventar o futuro da maneira que eles sonham e planejam.”

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Última atualização em: 3 de abril de 2026 às 12:22

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