O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, de 34 anos, foi impedido de entrar nos Estados Unidos para atuar na Copa do Mundo de 2026, apesar de portar documentos considerados válidos, incluindo um visto e um passaporte diplomático .
Em entrevista ao The New York Times, Artan relatou que foi submetido a 11 horas de entrevista na imigração ao chegar ao Aeroporto Internacional de Miami, na última sexta-feira (5), antes de ser levado a uma cela de detenção e, posteriormente, deportado para Istambul, na Turquia .
“Estou muito, muito decepcionado. Sou apenas um árbitro tentando viver meu sonho, o maior sonho da minha vida, que é vir à Copa do Mundo”, declarou. “Eu tinha os documentos certos, tudo certo. Eu tinha o visto correto” .
A Administração dos Estados Unidos justificou a decisão com alegações de segurança nacional. Um funcionário do governo Trump, sob condição de anonimato, afirmou à imprensa que investigações da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) encontraram “informações derogatórias, incluindo associação com suspeitos de organizações terroristas” . Nenhum detalhe adicional foi fornecido sobre a suposta ligação.
A Somália está entre os 12 países com entrada totalmente proibida nos EUA sob as políticas do governo Trump . O grupo extremista Al-Shabaab atua no território somali e é classificado como organização terrorista pelos EUA .

A FIFA confirmou que Artan foi removido da lista de árbitros do torneio. “A FIFA pode confirmar que o árbitro Omar Abdulkadir Artan não poderá treinar e atuar na Copa do Mundo de 2026 após ter sua entrada negada nos Estados Unidos”, afirmou a entidade em nota. “A FIFA não está envolvida nos processos de imigração do país anfitrião, incluindo decisões de visto” .
Andrew Giuliani, que lidera a Força-Tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo, defendeu a decisão: “Embora eu não possa entrar em detalhes sobre as informações derogatórias, posso afirmar que foi a decisão correta” .
O governo somali, por sua vez, disse ter tentado negociar com os EUA e a FIFA para reverter a situação, sem sucesso .
Herói na Somália
Ao desembarcar em Mogadíscio na quarta-feira (10), Artan foi recebido por milhares de compatriotas em uma verdadeira apoteose, com faixas, chapéus estampados com seu rosto e transmissões ao vivo de influenciadores locais .
O árbitro, eleito o melhor da África em 2025, foi consolado por dirigentes da Fifa que teriam manifestado “tristeza” pelo ocorrido .
“Tudo está predestinado. Prometo a vocês que estarei apitando na próxima Copa do Mundo”, declarou Artan, emocionado, ao chegar à sua terra natal. “A juventude não deve se desmoralizar em relação ao seu país. Apesar do que aconteceu comigo, continuarei de pé pela minha nação” .
O episódio reacendeu críticas à escolha dos Estados Unidos como país-sede do torneio, especialmente por concentrar a base de treinamento de todos os árbitros em solo americano, o que inviabilizou que Artan atuasse em partidas no México ou Canadá .
Especialistas e colunistas internacionais apontam uma “cultura de hipocrisia” na forma como a comunidade do futebol trata diferentes anfitriões. Enquanto o Catar foi duramente criticado por questões de direitos humanos antes da Copa de 2022, as mesmas vozes teriam se calado diante das restrições impostas pelos EUA .
“Imagine, por um momento, se o Catar tivesse negado a entrada de um árbitro por causa de sua nacionalidade, religião ou orientação sexual na véspera da Copa do Mundo. A condenação teria sido imediata e implacável”, escreveu o colunista Mihir Vasavda, do The Indian Express .
O ex-capitão da seleção australiana Craig Foster também criticou o “efeito intimidador” sobre atletas que poderiam se manifestar contra violações de direitos humanos nos EUA, temendo represálias que comprometessem sua participação no torneio .
