São Paulo amanheceu mais quente no último fim de semana, e não foi por causa do tempo. O Nubank Parque (que nome pavoroso) recebeu duas noites lotadas de “O Maior Encontro do Samba”, turnê realizada pela 30e que reúne Zeca Pagodinho, Alcione e Jorge Aragão em um espetáculo que durou mais de duas horas e fez questão de passear por todas as décadas que o gênero dominou as rádios e os quintais cariocas.
O repertório era dos mais generosos, com mais de 30 músicas que alternavam entre a dor e a festa, entre a malandragem e a devoção. “A Loba”, “Malandro”, “Deixa a Vida Me Levar” e “Não Deixe o Samba Morrer” ecoaram com a força de quem sabe que aquelas canções já não pertencem mais aos intérpretes, mas ao público. E o público, esse sim, veio preparado para cantar cada verso como se fosse a última vez.
A relação entre os três é antiga e bem documentada. Foi no Cacique de Ramos que Zeca Pagodinho começou a cruzar o caminho de Jorge Aragão, que integrava o Fundo de Quintal. Alcione, por sua vez, foi a responsável por gravar as oito primeiras parcerias entre Aragão e Zeca registradas no Ecad, entre elas “Não Sou Mais Disso”, que entrou no setlist como uma reverência necessária. O show também prestou tributo a Cartola, Ivone Lara e Zé Ketti, numa tentativa clara de conectar o samba de raiz ao samba de arena.

Mas nem tudo foi celebração plena. O microfone de Jorge Aragão falhou mais de uma vez ao longo da apresentação, e o problema se repetiu em momentos cruciais, prejudicando a audição daquela voz que é uma das mais marcantes do gênero. A ironia é que foram justamente as músicas dele as responsáveis pelos maiores corais da noite. O público, percebendo o vácuo deixado pelo som, assumiu a bronca e cantou por ele.
Alcione, ao contrário, parecia estar em casa. O vozeirão inconfundível saía com uma naturalidade desconcertante, como se cantar fosse um ato tão simples quanto respirar. Em nenhum momento a força da interpretação dela arrefeceu, e isso segurou boa parte da energia do show.
O ponto mais delicado ficou por conta de Zeca Pagodinho. O cantor, que sempre construiu sua imagem em cima da despretensão e do samba de mesa, parecia desta vez ultrapassar a linha entre o despojamento e o desinteresse. Esquecia letras com uma frequência incômoda e, em vários trechos, seu semblante denunciava um tédio que não combinava com a ocasião. O auge desse incômodo veio durante “Deixa a Vida Me Levar”, quando ele pareceu saturado até da própria música. Ali, a sensação era de que a canção já não fazia sentido para ele, e o público percebeu. Teria sido mais honesto deixá-la de fora.

O final do show, no entanto, foi resgatado por uma combinação certeira. Os backing vocals entraram com peso, Martinho da Vila e Arlindinho subiram ao palco e trouxeram de volta a densidade que começava a se perder. A banda, afiadíssima sob o comando de Pretinho da Serrinha, deu o suporte necessário para que a noite não terminasse em ponto baixo.
No fim das contas, os problemas técnicos e a atuação morna de Zeca não foram suficientes para apagar o que aquele encontro representava. Ver três figuras tão centrais do samba brasileiro dividindo o mesmo palco, numa noite fria em São Paulo, foi um privilégio que poucos shows conseguem oferecer. A celebração prevaleceu, mesmo com tropeços. E isso, no samba, sempre foi mais importante do que a perfeição.



