Uma atividade supostamente educativa sobre o Dia da Consciência Negra realizada pelo Colégio Adventista de Alagoinhas se transformou em um exemplo chocante de como não abordar o tema nas escolas. A instituição promoveu uma encenação que reproduziu literalmente a violência escravista, amarrando um aluno negro em um tronco enquanto um colega branco, trajando chapéu de fazendeiro e empunhando um chicote, completava a cena que mais pareceu uma reprodução do horror histórico.
A absurda reconstituição, longe de promover a “valorização do povo negro” como alegou posteriormente o colégio em nota, transformou o espaço educacional em um palco de revitimização. Enquanto estudantes negros eram colocados no papel de escravizados, estudantes brancos representavam tanto o papel de opressores quanto o de “libertadores”, como na cena em que uma aluna branca interpretava a princesa Isabel.
A atividade expôs uma completa falência de sentido pedagógico. Em vez de refletir sobre as resistências negras, celebrar as contribuições africanas ou discutir o racismo estrutural contemporâneo, a escola optou por reproduzir o trauma histórico de forma literal e insensível.

Para a educadora Bárbara Carine, vencedora do Prêmio Jabuti 2024, a cena representa o ápice do equívoco: “Decidiram reproduzir o protagonismo branco na escola, não faz sentido”. A especialista referia-se ao fato de que, mesmo em uma atividade sobre Consciência Negra, a narrativa continuou centrada na figura branca – seja como opressora ou como redentora.
A justificativa do colégio sobre “interpretação equivocada” soa como tentativa de minimizar o dano causado por uma atividade que, em sua concepção original, já era profundamente problemática. O episódio revela a urgente necessidade de formação antirracista para educadores, capaz de evitar que datas significativas como o 20 de Novembro se transformem em oportunidades para reproduzir violências simbólicas sob o disfarce de “atividade pedagógica”.
Em nota, o Colégio Adventista da Alagoinhas afirmou que, através da proposta pedagógica, promove o fortalecimento da consciência histórica e a valorização do povo negro.
Leia a nota completa abaixo:
“O Colégio Adventista de Alagoinhas repudia qualquer forma de racismo e mantém, como valor inegociável, o compromisso com a dignidade humana, o respeito às diferenças, a igualdade e a justiça. Esses princípios estão alinhados à filosofia da Educação Adventista, fundamentada em um ensino integral, pautado em valores cristãos e humanitários.
Toda prática pedagógica é avaliada com seriedade, especialmente quando envolve questões sensíveis como relações étnico-raciais. O objetivo é refletir fielmente os valores institucionais que orientam o Colégio.
Em relação às interpretações sobre fatos históricos apresentados por alunos durante atividade pedagógica realizada no Dia da Consciência Negra, a instituição lamenta profundamente qualquer entendimento que tenha sido diferente dos valores que defende.
Vale destacar que os vídeos que circularam nas redes sociais consistem em trechos isolados da atividade pedagógica. Estão, portanto, desconectados de seu contexto completo, o que compromete a compreensão integral do conteúdo trabalhado. A circulação de recortes descontextualizados pode gerar interpretações equivocadas e contribui para a disseminação de informações imprecisas.
O Colégio Adventista de Alagoinhas, por meio de sua proposta pedagógica e dos documentos norteadores, promove o fortalecimento da consciência histórica; a valorização do povo negro; a rejeição clara de toda forma de discriminação, e uma formação cidadã ética, responsável e antirracista.”
