Uma médica de 61 anos foi morta na noite de domingo (15) após ter o carro metralhado por policiais militares durante uma perseguição em Cascadura, na Zona Norte do Rio. O caso escancara, mais uma vez, a letalidade e o descontrole de uma polícia que atira primeiro e pergunta depois — sobretudo quando o alvo tem cor e endereço periférico.
Andrea Marins Dias, de 61 anos, havia acabado de sair da casa dos pais quando foi baleada dentro de seu Corolla. Os PMs do 9º BPM (Rocha Miranda) diziam procurar um veículo suspeito de roubos. Viram o carro da médica e começaram a perseguição. Tiros foram disparados. O carro dela parou na Rua Palatinado. Dentro, Andrea já estava morta.

O que poderia ser apenas mais uma estatística trágica da segurança pública fluminense ganhou contornos ainda mais brutais com as imagens registradas por moradores. No vídeo, policiais cercam o veículo armados com fuzis. Um deles bate com a arma no vidro e grita:
“Desce irmão, vai morrer! Vai morrer, irmão, desce!”
Não havia ninguém para descer. Apenas o corpo de uma mulher de 61 anos, que nunca apontou uma arma, nunca ameaçou ninguém — mas estava no lugar errado, na hora errada, no país errado.
A Polícia Militar, em nota, afirmou que os agentes “revidaram” após serem alvo de disparos. A versão será investigada pela Delegacia de Homicídios. Mas, para quem vive nas periferias do Rio, a cena é antiga e conhecida: a polícia atira, mata, e depois pergunta quem era. Ou não pergunta.
O caso de Andrea não é exceção. É a regra de um modelo de segurança pública que trata a população como inimigo, que transforma ruas movimentadas em campo de guerra, que treina seus agentes para atirar antes de identificar. Um modelo que, dia após dia, enterra inocentes e chama de “erro” o que é, na verdade, a face mais cruel de um Estado que nunca deixou de matar pretos, pobres e periféricos.
A médica Andrea Marins Dias foi morta “por engano”, diz a polícia. Mas, num país onde a polícia mais mata do que protege, engano é nome bonito para aquilo que, todos os dias, vitima quem deveria ser defendido.
Ela deixou a mãe de 91 anos, o pai de 88 anos e uma filha de 30 anos.
