Em uma cena de intimidação institucional, quatro policiais militares fortemente armados invadiram a Escola Municipal de Ensino Infantil Antônio Bento, no bairro do Caxingui, zona oeste da capital paulista, nesta quarta-feira (12). A ação arbitrária foi motivada pela queixa de um pai que se incomodou com uma atividade pedagógica sobre orixás desenvolvida com sua filha de 4 anos.
Um dos agentes portava uma metralhadora em ambiente escolar, causando pânico entre crianças e educadores. O caso expõe a seletividade policial e a criminalização do ensino antirracista, que segue as diretrizes curriculares da rede municipal.
O episódio começou na terça-feira (11), quando o mesmo homem, insatisfeito com o conteúdo educativo sobre cultura afro-brasileira, destruiu um mural com desenhos das crianças exposto na escola. Em vez de ser responsabilizado por dano ao patrimônio público, retornou no dia seguinte acompanhado de reforço policial.
A direção havia convidado o pai para participar do Conselho de Escola na tarde de quarta-feira, mas ele preferiu substituir o diálogo pela intimidação armada, acionando a PM com alegações distorcidas sobre “ensino religioso” – quando na realidade se tratava de conteúdo cultural previsto em lei.
Testemunhas relataram que os policiais, que não integram a ronda escolar, adotaram postura hostil e autoritária, chegando a afirmar falsamente que a escola estaria “impondo” práticas religiosas às crianças. A diretora da unidade passou mal durante a invasão e precisou ser atendida.
“Foi preciso que um grupo de pais fosse conversar com eles para irem embora”, contou uma mãe que presenciou o fato, destacando o clima de terror implantado por agentes do Estado em espaço dedicado à educação infantil.
Enquanto escolas de elite incluem há décadas o estudo de mitologias grega e romana sem qualquer objeção, o simples conhecimento sobre orixás desencadeia operação policial em comunidade periférica. A dupla padrão revela como o racismo estrutural opera: a cultura europeia é “formação”; a africana, “doutrinação”.
As secretarias municipais e estaduais limitaram-se a notas burocráticas, ignorando o trauma causado às crianças e a gravidade de transformar escolas em alvo de operações policiais por cumprir a lei que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira.
O caso na EMEI Antônio Bento não é isolado: é parte da escalada autoritária que criminaliza o pensamento crítico e usa as instituições para perpetuar o epistemicídio contra as culturas não-europeias.
