Vinte e cinco anos após a morte de Milton Santos, completados nesta quarta-feira (24), seu legado está sendo reescrito a partir de um labirinto de papéis guardados na Universidade de São Paulo (USP). Pesquisas recentes no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), onde está depositado o acervo do geógrafo com cerca de 60 mil itens, têm trazido à tona faces pouco conhecidas do pensador .
Depois da implementação das cotas raciais nas universidades, uma nova geração de estudantes passou a exigir uma reformulação nas pesquisas sobre a participação dos intelectuais negros na formação do pensamento brasileiro. A análise é do professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e pesquisador de Milton Santos, Maurício Costa .
“A conquista das cotas raciais nas universidades públicas do Brasil permitiu não só o acesso a mais pessoas negras à universidade, mas fundamentalmente um processo de reformulação do conhecimento. De olhar para o conhecimento e dizer: onde estão os autores negros aqui?”, aponta Maurício Costa .
Esse movimento tem impactado os novos estudos sobre Milton Santos, que agora vão além dos temas acadêmicos tradicionalmente a ele associados — como a reformulação da geografia e a globalização. As pesquisas passaram a investigar também sua relação com a política, o movimento negro, as periferias e o período em que esteve em países africanos .
Maurício Costa destaca que Santos foi um dos primeiros pensadores brasileiros a ler e discutir a obra de Frantz Fanon, referência para muitos movimentos negros, e a escrever sobre questões raciais logo em seus primeiros livros. “O primeiro livro dele, O Povoamento da Bahia, é um livro que aborda questões raciais”, ressalta .
Outro exemplo é Marianne em Preto e Branco, um relato de viagem a partir de artigos escritos para jornais durante suas viagens à África na década de 1950, que também aborda questões raciais .
“Ele escreveu, por exemplo, sobre o continente africano, no momento em que tinha pouquíssima gente no Brasil falando sobre esse tema. Especialmente escrevendo sobre a África, tendo visitado o continente. Esses são aspectos que não estão tratados [até agora] na vida e na obra do professor”, diz Maurício Costa .
O Milton político e militante
Para o professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Sérgio Henrique de Oliveira, as novas pesquisas desmontam o mito de que Milton Santos nunca foi militante do movimento negro . Embora sua militância não fosse a tradicional, sua intervenção se deu por meio de ideias e debates dos quais participou ativamente .
Após voltar do exílio, nos anos 1970, Santos intensificou sua atuação política. O livro O Espaço do Cidadão, por exemplo, foi organizado para intervir no debate da Constituinte de 1988, perguntando onde estaria a questão do território na elaboração política que se fazia .
Regina Lucia Santos, geógrafa e coordenadora do Movimento Negro Unificado (MNU) e ex-aluna de Milton Santos, destaca como os conceitos do intelectual chegam, na prática, às comunidades periféricas. Segundo ela, ainda que muitos moradores da periferia não conheçam o movimento negro formalmente, eles vivenciam as lutas e proposições que o movimento faz .
Conceitos como as redes invisíveis de solidariedade mútua e as formas criativas de enfrentar a escassez sempre estiveram presentes no cotidiano das periferias. “A gente não passou a discutir território nem a centralidade da periferia, como Milton coloca, mas a gente passou a discutir com a população, a levar não só a discussão, mas a levar a nossa ação para o território”, afirma Regina .
O pesquisador Tadeu Batista Alves, em estudo no IEB-USP, aponta que, apesar da grande representatividade negra de Milton Santos na universidade, ele foi silenciado em sua época. “Um exemplo desse silenciamento ocorreu quando ele foi homenageado pela USP e em seu discurso falou sobre a necessidade de ampliar o acesso da população negra à Universidade. Quando vamos ver se essa menção teve algum destaque, achamos somente notas de rodapé”, destaca .
O estudo de Tadeu teve como objetivo revisitar a negritude de Santos e sua participação na universidade para entender a realidade do negro no século XX .