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A torcida brasileira na Copa é um antiespetáculo, uma mistura de apatia, elitização e perda da alma festiva

A torcida brasileira na Copa é um antiespetáculo, uma mistura de apatia, elitização e perda da alma festiva

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A imagem do torcedor brasileiro em Copas do Mundo sempre esteve associada, no imaginário internacional, à alegria, ao samba, ao improviso e à paixão genuína pelo futebol. Durante décadas, a seleção canarinho era acompanhada por uma massa heterogênea, vibrante e genuinamente popular. No entanto, edições recentes do torneio têm revelado um retrato bem distinto: um público majoritariamente branco, de classes média e alta, comportado, turístico e, muitas vezes, constrangedoramente apático.

Historicamente, a torcida brasileira era sinônimo de fervor e criatividade. Das arquibancadas improvisadas do Maracanã nos anos 1950 aos mosaicos e balões nas Copas dos anos 1990 e 2000, o torcedor brasileiro era reconhecido como um “espetáculo à parte”. Porém, o crescimento do custo das viagens internacionais, a conversão dos estádios em espaços de entretenimento premium e a progressiva elitização do futebol transformaram a composição do público que acompanha a seleção fora do país.

Hoje, a torcida presente nos estádios de Copas como Rússia (2018), Catar (2022) e agora Alemanha (2026) é formada majoritariamente por brasileiros com poder aquisitivo suficiente para arcar com pacotes turísticos de milhares de dólares. São profissionais liberais, empresários, influenciadores digitais e famílias de classe média alta, ou seja, um recorte social bem distinto daquele que ocupa as arquibancadas dos campeonatos nacionais e entoa cânticos ensurdecedores nos estádios do Brasil.

Deve-se citar que mesmo na Copa do Brasil,em 2014, nossa torcida já estava bem longe do espírito que se pede em torneios importantes.

O que se vê nas transmissões internacionais é uma torcida que se resume, na maior parte do tempo, a repetir o já cansativo “le le ô”, um cântico genérico, sem criatividade e destituído de qualquer identidade regional. Ao contrário das torcidas de países como Argentina, Inglaterra, México ou Marrocos, que levam gritos de guerra carregados de significados locais , a torcida brasileira parece terceirizado sua emoção para um repertório raso e repetitivo. Até a sempre decepcionante seleção inglesa teve sua torcida cantando o hino do britpop “Wonderwall”, do Oasis, em um dos grandes momentos musicais da Copa até aqui.

Essa monotonia sonora contrasta com a riqueza das torcidas organizadas brasileiras como a Gaviões da Fiel, a a Torcida Jovem do Flamengo, as torcidas de Santa Cruz, Fortaleza, etc.,que transformam estádios em verdadeiros espetáculos de canto, ritmo e paixão. Mas esses grupos, por questões financeiras e logísticas, raramente marcam presença em Copas do Mundo.

O contraste com outras seleções

Enquanto torcedores de países como Marrocos, Senegal ou Colômbia vibram com intensidade quase tribal, cantando, dançando e empurrando seus times mesmo em derrotas, o brasileiro médio nas arquibancadas internacionais parece mais preocupado em fazer um registro para o Instagram ou consumir a cerveja oficial do patrocinador do que em criar pressão sobre o adversário. Há um estranhamento: seleções com menos tradição e menor investimento conseguem mobilizar torcidas mais apaixonadas e barulhentas.

Isso não quer dizer que o torcedor brasileiro não ame seu país ou seu futebol. Mas o amor, quando vivido de forma asséptica e distante da cultura popular, perde sua força transformadora e torna-se mero consumo de espetáculo.

Há de se lembrar também a cooptação da nossa camisa amarela por grupos de extrema-direita, o que faz com que muito do torcedor apaixonado prefira não se misturar com quem acham que pode pertencer ao fascismo brasileiro.

O fenômeno da torcida apática na Copa é sintoma de um processo mais amplo de elitização do futebol e de transformação do torcedor em consumidor. Quando o acesso ao estádio é filtrado pela renda, perde-se a diversidade, a espontaneidade e a força coletiva que sempre caracterizaram o futebol brasileiro.

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Última atualização em: 24 de junho de 2026 às 22:26

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