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“Backrooms – Um Não Lugar”: o desconforto e o horror do labirinto sem fim de nossos traumas ganha retrato sufocante

“Backrooms - Um Não Lugar”: o desconforto e o horror do labirinto sem fim de nossos traumas ganha retrato sufocante

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A reputação de “Backrooms’ precede o projeto, e com razão. A série original de Kane Parsons no YouTube construiu um culto em torno de sua estética granulada, seus corredores infinitos e sua mitologia fragmentada. Agora, com o longa-metragem produzido pela A24, a pergunta que se tinha é se o jovem cineasta de 20 anos conseguiria fazer jus à promessa daquele material inicial. E a resposta veio com maestria.

Parsons tem talento de sobra, com instintos muito além dos de um artista promissor da sua idade. Ele já acumulava quatro anos de experiência desenvolvendo essa história antes do longa, o que o transformou em um jovem mestre. E essa narrativa se tornou uma obra-prima quase imediata. “Backrooms – Um Não Lugar” é um verdadeiro buraco de coelho cinematográfico aterrorizante, que leva o público por um caminho tortuoso e repleto de pavor, tão cerebral em seu horror quanto esteticamente agradável em seu design.

Mas para que a gente mergulhe no tom ameaçador dos corredores malignos e infinitos do longa, somos apresentados a Clark (Chiwetel Ejiofor), um homem atormentado e amargurado, consumido pelo ressentimento contra a ex-esposa e contra o fracasso na carreira de arquiteto. Se a princípio ele é mostrado apenas como um trabalhador médio estadunidense com uma loja de móveis semifalida, e que tenta se consertar indo à psicoterapia, aos poucos percebemos um ódio contido nesse personagem quebrado. Seu ódio contamina o filme tanto quanto as paredes amareladas e almofadas. A empatia estabelecida por ele é quebrada e o que, em geral, não funciona em filmes de terror, aqui é um tempero na história. É como acompanhar um personagem irredimível sobre o que significa existir dentro do labirinto, mas não sabemos se devemos ou não torcer por ele, a despeito ou por causa da ótima atuação de Chiwetel Ejiofor.

Os fãs reconhecerão ali o que chamam de zona nula,ou “um não lugar”. A cena é imediatamente definida pela tensão crescente carregada nos olhos e incredulidade do personagem de Ejiofor.  Os corredores dos Backrooms inspiram  perigo, um imenso sinal de alerta de que não devemos querer explorá-lo. Parsons capta essa sensação perturbadora desde o início, em vez de deixar o público maravilhar-se com o cenário muito bem construído como introdução ao conceito. O tom sinistro mantém-se ao longo do filme, com a presença intensificada dos próprios Backrooms, tal como qualquer predador. A sensação de que as paredes respiram enquanto vigiam e rastreiam as suas presas é constante e sufocante.

“Backrooms - Um Não Lugar”: o desconforto e o horror do labirinto sem fim de nossos traumas ganha retrato sufocante

A outra protagonista, Mary (Renate Reinsve), psicoterapeuta de Clark, convive com traumas de infância de modo mais “funcional”. Ela tenta ajudar os pacientes enquanto lembra diariamente de seu próprio espírito quebrado ainda na infância com as razões mostradas em flashbacks não lineares. Seu desconforto na própria existência é palpável, mas ao contrário de seu paciente, ela consegue ser mais maleável às relações interpessoais, o que faz um contraponto perfeito com a rigidez de Clark. O roteiro, assinado por Will Soodik, conhecido por seu trabalho em “Westworld”, aborda a caracterização dos personagens sem muitas firulas. Eles são, todos, pessoas que se veem presas no lugar onde chegaram em suas vidas. Clark reage de forma raivosa e violenta a essa sensação de estar em um beco sem saída, enquanto Mary representa o oposto letárgico dele.

Os que acompanharam a websérie e se deixaram absorver por sua lógica interna, reconhecerão o Complexo, como é conhecido na série do YouTube, como um lugar que abraça o terror interno de todos, sem discriminação. A noção de que qualquer pessoa está sujeita ao pior que os Backrooms têm a oferecer, é uma perspectiva aterradora por si só. Parsons recusa a empatia automática que o cinema narrativo tradicional cultiva. Você não torce por Clark. Você o observa como se observa um rato em um labirinto, e essa distância emocional é mais próxima do horror liminar do que qualquer jornada do herói jamais seria. Ajuda também na construção de clima os elementos de terror analógico (o uso de tecnologia antiga) para registrar os eventos do longa. Elas reforçam inteligentemente a ambientação do filme nos anos 90 com uma textura granulada de filmagem em vídeo que constrói uma camada de realismo antes de se tornar um veículo para elevar os elementos de terror ao máximo

O design de produção deste filme é sensacional. O Complexo em si é deslumbrante e parece ainda mais perturbador como um cenário em tamanho real. As portas que não abrem, os corredores que mudam de perspectivas, os móveis e objetos enterrados no chão contribuem muito para ancorar a base de terror do filme em uma ameaça que parece tão distante e tão próxima da nossa realidade.. Combinado com ângulos de câmera inteligentes e uma familiaridade inata na criação de imagens envolventes, Parsons molda uma linguagem visual para o mundo dos Backrooms que parece, ao mesmo tempo, acolhedora e aterrorizante. O aspecto levemente defeituoso da renderização 3D da websérie se tornou uma assinatura estilística, e ao trazê-la para o longa, Parsons não está economizando recursos. Ele está ancorando o filme em sua própria história, recusando o polimento cinematográfico convencional em favor de uma textura que lembra um artefato encontrado em um HD corrompido.

O filme ainda salpica algumas de suas cenas com uma narração em off, tirada de fitas de autoajuda gravadas por Mary. Essas fitas servem bem para elucidar e, ao mesmo tempo, tirar sarro da situação em que os dois se encontram. A voz encorajadora que repete frases sobre resiliência e responsabilidade pessoal soa absurda quando projetada contra o silêncio infinito dos Backrooms. Não há autoajuda que funcione ali. É uma piada. As fitas oferecem um diagnóstico clínico para a paralisia existencial dos personagens. Por outro, ridicularizam a própria ideia de que problemas estruturais podem ser resolvidos com mudança de postura individual. Mesmo o discurso terapêutico de Mary, com sua promessa de autonomia, colapsa diante do absurdo.

“Backrooms - Um Não Lugar”: o desconforto e o horror do labirinto sem fim de nossos traumas ganha retrato sufocante
Afinal, o que é horror liminar?

O termo vem da palavra “liminar”, que designa o ponto de transição entre dois estados. Espaços liminares são, por definição, lugares de passagem: corredores de shopping abandonados, lobbies de hotéis fora de hora, estacionamentos cobertos e silenciosos. Ambientes criados pelo homem, esvaziados de sua função original e, portanto, de sentido. Ao perderem o propósito, esses espaços passam a provocar uma sensação visceral de que algo ali está errado, sem que seja possível apontar exatamente o quê.

A força particular desse subgênero é que ele não assusta por revelar algo desconhecido, mas por distorcer o familiar. Não é à toa que o fenômeno ressoa com tanta força em sua geração: as fotos digitais da infância, granuladas e mal iluminadas, têm exatamente a mesma textura das imagens que deram origem aos Backrooms. Esses ambientes acionam memórias afetivas que não pertencem a nenhum lugar específico, uma nostalgia sem endereço, um reconhecimento sem origem. O cérebro tenta construir sentido a partir de um espaço que recusa sentido, e essa tensão produz angústia.

O filme deixa no ar questões instigantes. A experiência altera permanentemente a psique de uma pessoa ou o lugar é alterado pela mente distorcida de quem entra ali dentro. Qual é sua relação com a memória? Como fica sua proximidade com a solidão? Há material mais do que suficiente para discussões pós-sessão.

A forma como o filme aborda as respostas e as omissões pode acabar sendo o ponto mais controverso da sua recepção. O público casual tende a aceitar respostas prontas e considerar esse tipo de terror psicológico mais arrastado, mas acho que “Um Não Lugar” oferece também sustos e entretenimento para quem chegou de repente neste universo. O espectador precisa e deve ser desafiado.

Estamos vivendo um momento em que a cultura do lore, especialmente no cinema de franquia, condicionou o espectador a esperar que toda pergunta tenha uma resposta em um guia ou um vídeo explicativo no YouTube. Parsons faz o movimento oposto. Ele reintroduz o mistério como valor, mas não aquele mistério sem caminho introduzido por produtores do cinemão como J.J Abrams. Parsons está disposto a perder uma parte da audiência para manter a integridade do projeto dando elementos para que o espectador também seja um investigador dos corredores sufocantes dos Backrooms.

Há muito potencial aqui, se você estiver disposto a se deixar levar pela história, o que significa se entregar ao desconhecido até que a narrativa diga o contrário.

O filme de Parsons é uma jornada angustiante ao âmago sombrio da memória fragmentada, da solidão e da turbulência interior. Ele pega o que há de psicologicamente horripilante na liminaridade da vida e o transforma em algo verdadeiramente aterrorizante. Isso é algo que o conceito sempre fez bem, e seu futuro parece promissor com Parsons no comando deste labirinto de pesadelo.

O que temos é um filme que exige paciência com o desconforto. Se o público estiver disposto a entrar nesse buraco sem mapa vai ter algo a ser discutido e analisado com a seriedade que o horror sempre mereceu.

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Última atualização em: 29 de maio de 2026 às 10:29

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