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A extrema-direita fascista ataca exposição de funk como os nazistas atacavam o jazz como música degenerada

A extrema-direita fascista ataca exposição de funk como os nazistas atacavam o jazz como música degenerada

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A exposição Funk: um grito de ousadia e liberdade , em cartaz no Museu da Língua Portuguesa , na capital paulista, teve seu encerramento antecipado após pressão de setores da extrema-direita. No início de maio, o deputado estadual Tenente Coimbra (PL-SP) oficializou uma denúncia no Ministério Público de São Paulo alegando a presença de “narcocultura” na mostra.

O ato de censura travestido de denúncia jurídica, protagonizado pelo desocupado deputado é mais um dos tantos exemplos do funcionamento do reacionarismo que hoje ocupa espaços centrais da política brasileira. E não corro risco de cometer exageros quando digo que o método, discurso e horizonte político guardam analogias profundas com táticas historicamente empregadas por regimes autoritários de extrema-direita, incluindo o nazismo.

Não se trata de uma comparação leviana. O nazismo sempre teve na arte e na cultura populares, especialmente aquelas associadas a corpos negros, periféricos e dissidentes, um alvo prioritário. A degeneração da “cultura alemã” era atribuída ao jazz, ao swing, às músicas negras e judaicas. O regime promovia expoiições de “arte degenerada” (Entartete Kunst) para, em seguida, cassar, queimar e banir. O que o deputado Tenente Coimbra e outros da laia dele fazem ao oficializar uma denúncia ao Ministério Público alegando “apologia ao tráfico” e “narcocultura”, é a tradução contemporânea dessa mesma lógica. É sempre a velha espetacularização da suposta indignação moral seguida de assédio jurídicoEm seguida, com anuência de um judiciário velho e alienado, censura-se a manifestação cultural de um grupo historicamente subalternizado.

Tânia Rêgo/Agência Brasil

Você não precisa concordar com tudo que o funk diz. Mas precisa reconhecer que é um bem cultural legítimo. O gênero, nascido nas periferias do Rio e de São Paulo é símbolo de desordem, perigo moral e subversão. O funk é tratado como ameaça à pureza de uma língua, de uma nação, de uma família idealizada. A linguagem do deputado é a mesma que, em outros tempos e latitudes, classificou culturas inteiras como “impuras” ou “degeneradas”. A diferença é que, no Brasil de 2026, essa operação se disfarça de “denúncia cidadã” e “defesa da família”.

O reacionarismo da extrema-direita brasileira não é apenas conservado, é genocida em sua gramática simbólica. Ao tentar extirpar o funk dos museus, das escolas e da visibilidade institucional, esses setores tentam extirpar a própria possibilidade de as juventudes periféricas se reconhecerem como produtoras legítimas de língua, arte e política. A exposição não era “apologia ao tráfico”. Ela documentava a realidade de um país onde o tráfico existe e onde, justamente por isso, o funk frequentemente o tematiza, o denuncia, o estetiza ou o incorpora como parte da experiência vivida. Confundir representação com apologia é a tática clássica do moralismo fascista.

Agora, reparem que, o deputado sequer precisou provar suas acusações. Bastou oficializá-las. O Museu da Língua Portuguesa, em vez de resistir e explicar publicamente os limites entre representação artística e incitação ao crime, preferiu encerrar a exposição.

Esse projeto neofascista de limpeza cultural segue enquanto a gente mal consegue organizar defesas diante de tantos ataques múltiplos. Esse autoritarismo cultural tentou extirpar o rap, mas o rap resistiu. O funk vai resistir também, mas cabe uma crítica aos próprios funkeiros, que estão muito preocupados com seus carros alugados, suas mulheres pagas, e ignoram quem faz a cultura sobreviver para além dos discursos de ostentação. Mas isso é assunto para outro dia.

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Última atualização em: 28 de maio de 2026 às 11:40

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