A trajetória da família que abandona sua cidade de origem em busca de uma vida melhor é comum a muitos brasileiros. Em uma história de 40 anos, o Grupo Andaime fez da cultura popular a sua matéria-prima, e agora reúne as memórias de família de seu fundador no espetáculo Massapê – Histórias de vida e arte de Antonio Chapéu, propondo uma dramaturgia afetiva, poética, ainda e sempre enraizada na cultura popular. A peça, com texto de Solange Dias e direção de Rogério Tarifa, estreia em 28 de maio no Sesc Belenzinho, em São Paulo, onde segue em temporada até 14 de junho.
O espetáculo foi construído a partir da pesquisa histórico-cultural da saga da família Silva desde a sua saída do interior de Minas Gerais, onde era submetida a trabalhos análogos à escravidão, até a sua chegada em Piracicaba/SP, há mais de 60 anos, para trabalhar nos canaviais da cidade, vislumbrando um futuro melhor. A narrativa se constrói a partir de memórias reais e simbólicas de Chapéu, formando em cena um território híbrido entre o quintal de sua infância, a sala de memória e o palco de resistência. O tempo é simultâneo: presente e passado coexistem, convocando vozes, cantos, sombras e gestos que moldam o barro da existência, entrelaçando episódios de sua trajetória com referências à oralidade, à ancestralidade negra e às tradições do interior paulista, como a Folia de Reis, a música caipira e os saberes do ofício artesanal.

“Minha família foi sempre ligada à cultura popular, à catira, à congada e às festas de Reis. Então eu sempre dava um jeito de colocar alguma coisa ali no meio. Uma música, ou uma reza, ou uma dança. E agora num espetáculo que vai tratar só disso, dessa história, pra mim é um acontecimento. É como se eu juntasse tudo que eu fiz até agora num espetáculo só. Quase como a realização de um sonho”, afirma Antonio Chapéu.
Ainda que centrado na figura de Antonio Chapéu, o texto de Solange Dias se abre para outras presenças simbólicas, criando camadas sensíveis de representação. Os objetos em cena assumem função dramatúrgica e afetiva. A linguagem mistura o coloquial ao lírico, a conversa ao canto, o real ao imaginado. A dramaturgia acolhe intertextualidades e incorpora musicalidades, poesias e falas populares que ecoam a trajetória do protagonista, além de canções compostas por Juh Vieira, criadas especialmente para o espetáculo. Ao final, o espetáculo se desenlaça como um rito de continuidade: uma oferenda à memória e à arte como caminhos de transformação.
O reencontro do diretor com o grupo também coroa uma história antiga. “Dirigi a peça que marcou os 25 anos do grupo Andaime, e volto agora a dirigir o espetáculo que celebra os 40 anos desse grupo tão importante. É um espetáculo popular, poético, um resgate da memória brasileira, resgate de culturas que se insiste em tentar apagar, mas elas estão como sempre resistindo, resistindo e formando seres e construindo linguagem”, acrescenta Tarifa.
