A Polícia Militar de São Paulo descumpre há mais de dois meses uma determinação judicial para entregar ao Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) imagens de câmera corporal consideradas essenciais à perícia sobre a morte da ajudante-geral Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos. A ordem foi expedida em 26 de maio. Até esta sexta-feira (7/8), 73 dias depois, a gravação ainda não havia sido encaminhada à Polícia Civil no formato exigido para a análise pericial.
O caso ocorreu em 3 de abril, em Cidade Tiradentes, na zona leste da capital paulista. A soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, é investigada por ter baleado Thawanna após uma discussão de trânsito.
Diante do descumprimento, o DHPP reiterou o pedido e, nesta semana, a Justiça concedeu mais 15 dias para que a PM entregue o material e colabore com a investigação.
Imagens “imprestáveis” e volume “descomunal”
Yasmin não utilizava câmera corporal durante a ocorrência. A abordagem, porém, foi parcialmente registrada pelo equipamento usado pelo parceiro dela, o soldado Weden Silva Soares. O DHPP pediu inicialmente o vídeo para submetê-lo à perícia.
A PM enviou arquivos de todos os policiais que compareceram ao local, reunindo horas de gravações em um volume que não podia ser baixado nem analisado pelo perito. Em manifestação, o promotor de Justiça Lucas de Mello Schaefer afirmou que o material enviado pela PM tinha tamanho “descomunal” e inviabilizava o download e a análise.

A coluna apurou que as primeiras imagens encaminhadas à Polícia Civil também continham uma marca d’água com CPF, data e horário de visualização, o que as tornava “imprestáveis para análise pericial”. Dias depois, o mesmo registro foi exibido, com nitidez e sem obstruções, por um canal de televisão de alcance nacional.
A PM e a Secretaria da Segurança Pública (SSP) foram questionadas sobre o motivo de as imagens ainda não terem sido encaminhadas ao DHPP. O espaço segue aberto para manifestações.
Padrão de obstrução e impunidade
O caso de Cidade Tiradentes se insere em um padrão mais amplo de violência policial e obstrução de investigações no Brasil. Dados do Ministério da Justiça mostram que, em 2025, forças policiais mataram 5.920 pessoas . Brasileiros negros têm 3,5 vezes mais chances de serem mortos por policiais do que brancos .
A Human Rights Watch aponta que a letalidade policial continua em níveis elevados principalmente pela falta de apuração adequada dos casos de morte decorrente de intervenção policial . A entidade destaca que as investigações são frequentemente conduzidas pelas próprias polícias, comprometendo a independência e a imparcialidade .
O descumprimento de ordens judiciais para entrega de provas, como no caso de Thawanna, é apontado por organizações de direitos humanos como um dos mecanismos que perpetuam a impunidade .
O uso de câmeras corporais por policiais militares ainda é limitado no Brasil. Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em 2025 apenas catorze estados e o Distrito Federal relataram implementação parcial do equipamento . A entidade também manifestou preocupação com a flexibilidade que permite aos policiais desligarem as câmeras a seu critério .
