A recente repercussão do conceito de “parditude”, popularizado pela sempre imune à profundidade Beatriz Bueno, reabre um debate fundamental sobre a experiência racial no Brasil. Embora a autora se apresente como porta-voz de um grupo supostamente esquecido — os pardos —, sua abordagem revela-se não apenas conceitualmente rasa, mas também perigosa por seu potencial de enfraquecer a luta antirracista construída ao longo de décadas por intelectuais negras como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e Cida Bento.
Para compreender a fragilidade da “parditude”, é preciso reconhecer, primeiramente, a lucidez estratégica do movimento negro. Como a filósofa Sueli Carneiro explica, há uma escolha política consciente por trás da categoria “negro”: “O movimento negro instituiu que negro é igual à somatória de preto mais pardo. A minha geração fez essa engenharia política, e nós dissemos: tudo que estiver dito aí que é pardo e preto, para nós é negro” .
Essa “engenharia política”, como Carneiro a denomina, não é um capricho identitário, mas uma necessidade prática: a criação de um contingente demográfico forte o suficiente para pressionar por políticas públicas, ações afirmativas e reparação histórica . Ao propor a “parditude” como uma identidade separada, o que se faz é desmontar essa unidade política conquistada com esforço — e, com ela, enfraquecer a capacidade de reivindicação coletiva.
A “parditude” e sua natureza regressiva
A ideia de uma experiência parda distinta, que mereceria políticas próprias e que se sentiria excluída tanto por brancos quanto por negros, apresenta problemas estruturais. Em primeiro lugar, ela ignora que a classificação racial no Brasil sempre foi fluida e situacional, servindo muitas vezes como “saída de emergência” para indivíduos em busca de ascensão social . A “parditude”, nesse sentido, parece menos uma identidade genuína e mais um mecanismo de distanciamento da negritude — um movimento que, historicamente, beneficia a manutenção da hierarquia racial.
Há, nesse discurso, um eco incômodo de narrativas eugenistas que sempre buscaram celebrar a miscigenação como o “mito da democracia racial”, enquanto deslegitimavam a luta específica da população negra. Ao se colocar como vítima de um suposto “limbo racial” e criticar a classificação que une pardos e pretos, a “parditude” acaba por reproduzir o argumento de que a discriminação no Brasil é “leve” ou “diluída” — uma visão que a intelectualidade negra há muito demonstrou ser falsa.

O contraste entre a superficialidade da “parditude” e a profundidade do pensamento negro é gritante. Lélia Gonzalez nos legou o conceito de “amefricanidade”, pensando a diáspora negra nas Américas a partir de uma perspectiva que une Brasil, Caribe e Estados Unidos, sem fragmentar a experiência negra em subcategorias estéreis. Sua obra demonstra que a experiência racial no Brasil, embora singular, está ligada a uma estrutura global de dominação — não a um sentimento individual de “não pertencimento”.
Sueli Carneiro, por sua vez, construiu o conceito de “enegrecimento” como processo de tomada de consciência política, demonstrando que a identidade negra não é um atributo biológico, mas uma construção coletiva de resistência . A “parditude” de Beatriz Bueno, ao contrário, parece querer desfazer essa construção em nome de uma suposta autenticidade individual — o que, na prática, é um gesto de alinhamento com a lógica neoliberal de fragmentação identitária.
Cida Bento, com sua teoria do “pacto narcísico da branquitude”, nos oferece a chave para entender o que realmente está em jogo . Ela demonstra que há um acordo tácito entre pessoas brancas para preservar espaços de poder e privilégio, e que esse pacto se mantém, entre outras formas, através da negação do racismo e da desmobilização política da população negra. A “parditude”, ao sugerir que o problema está no movimento negro que “exclui” os pardos, e não na estrutura racializada que beneficia os brancos, atua precisamente como ferramenta desse pacto: desvia o foco, fragmenta a resistência e naturaliza a hierarquia.
Longe de ser uma inovação conceitual, a “parditude” representa um retrocesso político e intelectual. Ela desconsidera décadas de construção teórica do pensamento negro brasileiro, ignora a força estratégica da união entre pretos e pardos, e oferece um diagnóstico raso para um problema estrutural. Ao colocar os pardos como vítimas do movimento negro e não como parte dele, o discurso de Beatriz Bueno não apenas enfraquece a luta antirracista, mas também ecoa, ainda que de forma inconsciente, velhas narrativas de embranquecimento e negação da negritude.
O debate racial no Brasil exige mais do que ressentimentos individuais ou reivindicações identitárias fragmentadas. Exige a coragem de olhar para a estrutura — como fizeram Gonzalez, Carneiro e Bento — e de reconhecer que, no país onde o racismo é fundante, a luta é coletiva ou não será.
