O caso do reality show criado pelos influenciadores Viih Tube e Eliezer, que submeteu empregados domésticos a dinâmicas degradantes, não é um episódio isolado. É a ponta mais visível de uma prática estrutural da branquitude no Brasil: tratar corpos negros e periféricos como peças de um jogo de entretenimento, onde a humilhação e o constrangimento são transformados em conteúdo para as redes sociais.
A dinâmica em que um trabalhador precisou colocar a mão dentro de um vaso sanitário para recuperar moedas não foi um acidente, mas a expressão explícita de um imaginário racista e classista que sempre esteve aí: o negro e o pobre como divertimento. Não foi diferente quando uma cozinheira foi acusada de ter “cara de malvada” por não sorrir no ambiente de trabalho, ou quando o patrão, supostamente em tom de brincadeira, ameaçava bater com um chinelo na funcionária. O que está em jogo não é apenas a violação da CLT, mas a reprodução de um padrão escravocrata travestido de conteúdo digital.
Os trabalhadores domésticos, na maioria mulheres negras, carregam o peso histórico de serem invisibilizadas e, ao mesmo tempo, hiperexpostas à vontade dos patrões. A cozinheira que precisa engolir ofensas porque “é brincadeira”, o empregado que precisa provar que não roubou objetos da casa, a diarista que é acusada de não ser confiável — tudo isso é a mesma lógica que transforma o trabalhador em personagem do circo de horrores da classe média alta.
O Ministério Público do Trabalho precisou instaurar inquérito porque a humilhação foi filmada, mas a humilhação cotidiana segue sendo normalizada: o “elogio” que compara a empregada a uma “funcionária exemplar”, a cobrança por sorrisos, a suspeição permanente sobre sua honestidade. A branquitude no Brasil nunca deixou de tratar o trabalhador negro como serviçal, seja dentro de casa ou como produto audiovisual para divertir os patrões e seus seguidores.
O Tribunal Superior do Trabalho acertou ao afirmar que “humilhação não é entretenimento”. Mas precisamoslembrar que não se trata apenas de coibir dinâmicas degradantes em realities, mas de questionar o direito que pessoas brancas e ricas se arrogaram de dispor dos corpos e da dignidade dos trabalhadores como bem entendem. A porta da cozinha que separa patrões de empregados precisa ser derrubada, e com ela, a ideia de que o trabalhador está ali para servir não apenas ao serviço, mas ao espetáculo da vida alheia.
Enquanto a branquitude insistir em ver o trabalhador como enfeite, piada ou conteúdo, estaremos reproduzindo a mesma lógica que, por séculos, transformou corpos negros em mercadoria. O episódio do reality show é um sintoma, mas a doença é muito mais profunda. O trabalho e a dignidade de quem serve à mesa não pode ser usada como entretenimento para quem está sentado à cabeceira.
