Foram 29 anos para realmente entender basicamente que eu realmente não sou todo mundo. 29 anos tentando me encaixar em formas que nunca serão minhas. A luz é muito forte, a textura me incomoda, com todo mundo não rola, várias abas abertas na cabeça e não dando conta de nenhuma.
Foram anos de culpa, dor, falta de autoestima. Eu já chorei tantas vezes me sentindo burra ou incapaz de entregar o que todo mundo entrega. O básico nunca funcionava. Eu sabia que tinha algo, mas as pessoas me achavam “normal demais” para ser diferente, e eu me sentia diferente demais pra ser normal. Me colocaram em tantos pedestais, rótulos e caixas, e eu simplesmente não sabia o que era pra fazer. As coordenadas não me diziam nada e os prazos nunca eram compatíveis com o meu tempo. Tudo era muito alto e fazia doer o ouvido. Eu vivia me queimando no sol ou comendo uma simples comida. As roupas ficam incríveis até uma etiqueta me dar tanto nervoso a ponto de querer ficar pelada. Nunca aceitar uma ordem por medo de fazer tudo errado e então não fazer nada, ficando ali paralisada pra tudo. Medos absurdos, e coragens insanas. Uma necessidade absurda de ter calculadora porque os dedos nunca eram suficientes nas contas. As regras básicas de matemática nunca me disseram nada.
Um olhar perdido no meio de tanta gente me olhando, tentando me ler, e me lendo completamente errado. Eu fiz teatro, curso de oratória, criei personagens como uma casca pra fingir bem que eu consigo socializar, quando no fim do dia, vem uma enxaqueca surreal, sensibilidade a luz, sons e um choro que eu nem sabia de onde vinha. As pessoas diziam que eu era fresca e antipática, e o pior, é que eu acreditei e concordava.
Ninguém me acha nas festas, em lugares cheios. Minha cama só é gostosa se tiver o meu cheiro, os meus travesseiros e tudo exatamente como eu deixei. Uma necessidade de prever e controlar tudo, mesmo quando não controlo nem o que tô sentindo. O medo do date me surpreender a ponto de eu não ter uma frase pronta que eu preparei pra falar. Sempre muito ou nada. Como se já não bastasse tudo, agora todo mundo diz que “todo mundo é TDAH”. Tudo tão banalizado. Gente se diagnosticando e diagnósticos reais não valendo de nada. Foi uma estrada de muito tropeço, autodestruição, sabotagem, medo, mas eu cheguei aqui. Aos 29 anos me entender como uma mulher preta, TDAH e com traços autistas doeu, mas vem me libertando. E é como eu sempre digo… Mesmo que o mundo inteiro te diga que tá tudo bem, se você sente que precisa investigar, siga sua intuição e necessidade. A gente sempre sabe quando tem algo que não vai bem. Não normalizem uma rotina péssima e prejudicial porque as pessoas dizem que você só precisa ter mais foco, organização e força de vontade. Entender e respeitar suas limitações também é se cuidar, se acolher e se preservar. Não precisa fazer sentido para ninguém, mas precisa dar certo pra você. Apenas.
O seu diagnóstico não te define, mas é um capítulo da sua vida que não pode ser ignorado e precisa de atenção. Eu queria muito que alguém tivesse me dito isso antes, e estou aqui dizendo caso alguém precise me ouvir ou ler, dentro das suas possibilidades, você é gigante, extraordinário e capaz de fazer o que você quiser. Nunca esqueça disso. Mesmo no dia que tudo tiver uma bagunça e você só existir, você ainda é uma pessoa capaz de se proporcionar tudo o que você quiser.
