Ser mulher negra no Brasil é, por si só, carregar o peso histórico de um país estruturado no racismo. Ser mulher negra atípica, ou mãe de uma criança atípica, é viver em uma camada ainda mais profunda de opressões, invisibilidades e resistências. Quando penso em nossas trajetórias, percebo como o racismo, o capacitismo e o patriarcado se entrelaçam para nos negar humanidade, dignidade e o direito básico ao bem-viver.
A mulher negra atípica enfrenta um corpo e uma mente que, segundo a lógica colonial e capitalista, não cabem no padrão de produtividade, beleza e normalidade imposto. O capacitismo nos quer escondidas, enquanto o racismo nos quer submissas. Somos desafiadas a existir em um mundo que nos silencia e insiste em nos colocar como “menos que humanas”. O acesso à saúde, ao trabalho e à educação é marcado por barreiras estruturais. Quando olham para nós, veem a deficiência ou a cor, mas raramente nos reconhecem como sujeitos plenos, com desejos, saberes e potências.
E quando falamos das mães negras atípicas, o cenário é ainda mais cruel. A maternidade, que para muitas já é solitária, torna-se um campo de batalha. Somos nós que, historicamente, sustentamos o cuidado coletivo nas comunidades. Mas quando o Estado se ausenta – e ele sempre se ausenta nas periferias –, somos deixadas à própria sorte para criar filhos com deficiência ou condições específicas. Carregamos o peso da sobrecarga emocional, física e financeira, enquanto ainda lidamos com o estigma social. Ninguém se pergunta quem cuida de nós.
A sociedade romantiza a força dessas mulheres, mas não nos oferece políticas públicas adequadas. Faltam creches inclusivas, profissionais preparados, redes de apoio reais. Somos tratadas como heroínas por resistir, mas a verdade é que não queremos ser heroínas. Queremos direitos. Queremos a garantia de acessibilidade, de cuidados dignos, de uma rede de proteção social que respeite nossas especificidades.
Quando falo em bem-viver, falo de um conceito que rompe com a lógica individualista. Falo de uma vida que nos permita existir com dignidade, sem precisar lutar diariamente contra violências estruturais. Para as mulheres negras atípicas e mães atípicas, o bem-viver é urgente. Ele só será possível quando formos ouvidas, quando nossas vozes forem colocadas no centro do debate sobre racismo, deficiência e desigualdade.
Não podemos mais aceitar a invisibilidade. Precisamos construir espaços onde nossas narrativas sejam contadas por nós mesmas, onde possamos ressignificar a maternidade e a existência atípica sem o peso da culpa e da opressão. Enquanto mulher negra, escrevo não apenas para denunciar, mas para reafirmar que resistir também é criar caminhos de afeto, apoio e coletividade.
Porque, no fim, o que queremos não é apenas sobreviver. Queremos ser reconhecidas em nossa subjetividade, em nossa humanidade e na plenitude do bem-viver!
