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O contraste entre a postura de Vini Jr. e a de Virginia Fonseca é um retrato perfeito de como o racismo opera nas relações interraciais

O contraste entre a postura de Vini Jr. e a de Virginia Fonseca é um retrato perfeito de como o racismo opera nas relações interraciais

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Vinicius Jr. denunciou mais um caso de racismo sofrido durante partida na Europa. Dessa vez, segundo relatado na súmula do árbitro da partida entre Benfica x Real Madrid, o argentino Pretianni teria chamado o brasileiro de macaco, e como já se notabilizou, o brasileiro não ficou calado e mais uma vez agiu, avisando o árbitro, que iniciou um protocolo antirracismo, deixando a torcida portuguesa mais nervosa, já que racismo não é grave para grande parte de portugueses. Devemos frisar a combatividade de Vini em não aceitar e seguir denunciando quando lhe xingam. Alguns questionam a razão de sempre ser ele o alvo, mas talvez ele seja apenas o que fala, grita, enquanto muitos jogadores negros preferem não enfrentar o prejuízo de estar numa causa abertamente política.

Vinicius Jr. se tornou um símbolo global na luta antirracista não porque quisesse, mas porque foi forçado a isso. Sei que ele não é um baluarte do jogador politicamente consciente. Quase nenhum deles é. Mas é demais cobrar que ele se posicione e seja coerente em tudo num país que se recusa a dar letramento racial aos jovens negros.

Voltando ao ponto, a cada episódio de agressão racista, Vini Jr. repete o mesmo ciclo: é insultado, denuncia, ouve que “exagera”, e vê os agressores, na maioria das vezes, impunes.

Quando perguntam “por que sempre ele?”, a pergunta correta deveria ser “por que os clubes, federações e torcidas permitem que isso sempre aconteça?”. Vini Jr. não é o alvo porque é o único negro no campo, mas porque é o único que, sistematicamente, quebra o protocolo do silêncio.A maior parte dos jogadores negros preferem não enfrentar o desgaste. Isso não os torna menos vítimas, mas revela uma estratégia de sobrevivência em um meio que os hostiliza.E inclusive acontece no nosso dia a dia nos mais variados círculos. Muitos pretos foram condicionados a se proteger com silêncio.

Ao não se calar, Vini Jr. é frequentemente acusado de “vitimismo” ou de “tirar o foco do futebol”. Essa pressão para que ele “aceite” as ofensas como algo normal é a prova de que a sociedade prefere um negro resiliente e calado a um negro rebelado e barulhento. Ele escolheu ser o segundo, e isso tem um custo emocional e profissional gigantesco. Se fosse ele menos talentoso e em um clube menor, possivelmente já teria sido destruído.

Mas me chama atenção também o silêncio de alguém que é novo na vida do jogador, mas que deveria, não que se esperasse, fazer o mínimo. Virginia Fonseca não é uma pessoa qualquer, é a atual namorada, o que, ao menos no que se espera, denota alguém que sente admiração e amor pelo companheiro. Seu silêncio não é neutro; é político.

Com 50 milhões de seguidores, Virginia tem um megafone que poucos no mundo possuem, mas que provavelmente é formado majoritariamente por pessoas que a seguem por entretenimento, consumo e identificação com um estilo de vida “aspiracional”. É um público difícil de alcançar com pautas sociais, justamente por ser alimentado por uma bolha de alienação.

Se “brancos costumam ouvir brancos”, uma mulher branca usando suas redes para dizer: “O homem que eu namoro foi chamado de macaco na Europa. Isso é inaceitável e vocês precisam entender o que é racismo estrutural”, o impacto seria imenso. Mas aí ela teria de saber o que é racismo, o que nunca demonstrou saber. Na verdade, ela nunca demonstrou saber nada de assuntos sociais, apenas de negócios. Mas seria surpreendente uma mulher com perfil dela levar essa discussão para dentro de lares que nunca pararam para refletir sobre o assunto, para pessoas que consomem apenas entretenimento raso e repelem discursos apodrecidos.

Não, não estou sendo ingênuo, apenas pensando num mundo ideal, uma Terra inversa a que estamos. Seria fantástico.

Ao publicar stories de Carnaval e vídeos de “samba abstrato” no mesmo fim de semana em que Vini Jr. enfrenta mais um episódio de racismo, ela escolhe não se incomodar. É a personificação do privilégio branco de poder desligar o racismo como quem desliga a televisão.

Há quem defina Virginia Fonseca como trambiqueira e alienada. Bom, difícil argumentar contra quando vemos o tipo de conteúdo que ela produz e o público que forma. Ao promover jogos de azar (o famigerado “jogo do tigrinho”) e uma vida de ostentação vazia, ela cultiva uma audiência que consome o mundo pela superfície, em contraponto com o que Vini escolheu enfrentar. Falar sobre racismo seria um “ruído” nessa programação. Poderia afastar patrocinadores? Poderia gerar desconforto em seguidores racistas que também consomem seu conteúdo? Provavelmente. Mas aí reside a diferença entre ser uma influenciadora e ser uma parceira de fato. O compromisso com o outro exige, por vezes, sair da zona de conforto e arriscar a própria popularidade em nome de uma causa justa.

O contraste entre a postura de Vini Jr. e a de Virginia Fonseca é um retrato perfeito de como o racismo opera nas relações interraciais.

Vini Jr. é obrigado a lutar, a gritar, a denunciar, porque sua existência pública é, por si só, um alvo. Ele não pode se dar ao luxo de ignorar.

Virginia Fonseca pode optar pelo silêncio, porque o racismo não a atinge diretamente. A dor do parceiro, neste caso, não foi suficiente para fazê-la abandonar o roteiro programado de posts patrocinados e dias de folia.

O que fica é a certeza de que, na luta contra o racismo, ter um aliado com uma plataforma gigantesca que escolhe ficar em silêncio é, talvez, tão danoso quanto ter um inimigo declarado. Porque o silêncio dela diz ao mundo: “Isso não é tão importante. A minha diversão e o meu lucro vêm em primeiro lugar.” Enquanto isso, Vini Jr. segue sozinho, carregando o peso de um país e de uma luta nas costas, sem o apoio público de quem está ao seu lado.

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Última atualização em: 19 de fevereiro de 2026 às 16:08

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