Lula escolheu o Dia da Consciência Negra para indicar um homem branco para a vaga aberta por Luís Roberto Barroso no STF. O escolhido foi o advogado-geral da União, Jorge Messias. A indicação é um ato de desrespeito político e uma traição à população negra, especificamente às mulheres negras, que foram fundamentais para sua eleição. Este ato reforça um padrão histórico de exclusão (racismo estrutural) e demonstra que a Presidência não está disposta a escutar essa parcela da sociedade. Exceto quando precisa de número para as eleições.
O poder judiciário, inteiramente branco em todas as escalas, frequentemente, para não dizer sempre, toma decisões completamente anacrônicas quando se trata da população negra. Quando foi que alguém cumpriu pena por racismo neste país,mesmo sendo considerado crime grave? A dívida política de Lula com as mulheres negras é inegável e deveria ser saldada com gestos de poder concretos, como uma indicação ao STF.
A nomeação de uma mulher negra ao STF seria um ato de reconhecimento da “excelência, legitimidade e legado” desse grupo. E não me venham com esse papo de meritocracia em um país que teve a escravidão como modelo econômico e depois relegou seus pretos aos morros enquanto subsidiava a vinda de brancos europeus para participar de um projeto de eugenia.
A escolha de um homem para a vaga é, por si só, um escárnio, e uma porta fechada. E para os reacionários de sempre, falando baboseiras sobre pauta identitária, deveria olhar para o judiciário brasileiro e entender que é um espaço identitário, todo embranquecido e masculino.
A nomeação de uma mulher negra para o STF seria um ato de reparação histórica e uma gota de antídoto direto contra o “racismo estrutural”.
O texto constrói sua argumentação em camadas de indignação justapostas:
Realizar uma indicação que exclui um grupo no próprio dia dedicado à reflexão sobre a luta desse grupo é uma ação que, no mínimo, demonstra uma falha grave e uma desconexão com a pauta simbólica. Mas esperamos muito dos brancos, né? O que fazer se a maior parte da população negra também está alienada de qualquer possibilidade de luta coletiva?
O STF é, de fato, uma instituição historicamente branca e masculina. Apontar isso não é mera opinião, é a constatação de um dado estrutural. A decisão de Lula não é um evento isolado, mas a continuação de uma norma colonial e excludente.
Feliz quem está tranquilo com a política de conciliação de Lula, priorizando papos felizes com a extrema-direita em detrimento de sua base mais fiel e militante. É o que chamam de pragmatismo? Que piada!
A posição específica da mulher negra na pirâmide social e política brasileira deveria ser um dos focos de um país construído sobre a violência contra os corpos dessas mulheres e dos filhos delas
No entanto, estamos a mercê do cálculo político pragmático, sempre normalizando um congresso neofascista e em um sistema jurídico tradicionalista. Seguimos perdendo.
