Eu tenho 37 anos. A primeira Copa do Mundo de que me lembro ter visto alguma movimentação foi a de 1994. Vizinhos indo na casa de vizinhos que tinham a TV melhor e celebrando Baggio errar o pênalti. A favela gritou muito. Eu não entendia bem.
Em 1998, eu já era um pequeno fanático por futebol. Fã do Marcelinho Carioca e conhecendo Ronaldo Fenômeno, ainda chamado de Ronaldinho. Aqueles jogos foram bem doidos pra mim. Eu acompanhei sozinho a decisão por pênaltis na semifinal contra a Holanda e sempre guardei aquela partida como exemplo de como vender caro uma derrota. E Como todo mundo na época, eu acreditei que a França comprou a Copa.
No ano do Penta, consegui assistir todos os jogos e foi a Copa mais marcante. Parecíamos invencíveis. Terceira final seguida em Copas e uma safra de jogadores fantástica camuflando o buraco para onde nosso futebol se encaminhava. Foi uma fase gostosa, apaixonada e ingênua. Quando eu conseguia gostar do esporte só pelo esporte, ignorando contexto político e reputação das federações. Eu vi o penta com uma alegria juvenil que ainda me emociona.
O tempo passou e os craques foram ficando raros por aqui. Os fora de série de outros países abriram espaço e nosso futebol seguiu o caminho das máfias nas peneiras, acabando com bons jogadores ainda no nascedouro. Nossos técnicos ficaram ultrapassados e nossos jovens jogadores foram indo para fora cada vez mais cedo a ponto de mal se identificarem como brasileiros.
Vi a ascensão de Neymar, um gênio que parecia ser o futuro de nosso futebol. Eu via os jogos do Santos por causa dele. Eu vibrei quando no mesmo campo havia ele e Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho. Era a passagem de bastão. Ele poderia ter sido o maior! Não foi.
Na eliminação de hoje, Neymar faz o gol de pênalti, e faltando poucos segundos para o jogo acabar, ele não pega a bola e corre para o meio para tudo recomeçar. Prefere provocar o goleiro do adversário que está vencendo o jogo. Deprimente e melancólico. Mas a culpa da derrota não é dele. A gente começou a perder muito tempo antes. Da gourmetização da torcida ao comportamento de subcelebridade dos jogadores.
A gente perdeu muito tempo atrás.
