De Amnésia a Tenet, Christopher Nolan construiu sua carreira desconstruindo o tempo, a memória e a percepção com técnica que beira o impecável e o hipnótico. Em A Odisseia, pela primeira vez, o material exige uma entrega que vai além de seus artifícios inegavelmente incríveis. Era preciso um pouco mais de coração, algo que vai muito além de uma sequência montada com quebra-cabeça tecnológico infalível.. A Odisseia de Homero é um poema sobre o retorno, sobre o que se perde e o que se reencontra. Sobre o homem que passa dez anos tentando voltar para casa e, quando chega, precisa provar que ainda é ele mesmo diante de um lar completamente dismorfo , ou ele mesmo estava distorcido pela longa jornada?
Nolan, porém, trata Ulisses como tratou Oppenheimer: um gênio solitário atormentado por suas escolhas, mas cuja dor é mais conceitual do que visceral. O filme é um tour de force técnico a fotografia de Hoyte van Hoytema é deslumbrante, a montagem corta entre tempos e espaços com a precisão de um relógio suíço, a trilha sonora de Ludwig Göransson empurra a narrativa com a força de uma maré. Mas falta o que faz a Odisseia sobreviver por quase três mil anos: a humanidade crua, o erro, o choro, o abraço. Em nenhum momento da projeção eu senti por qualquer um dos personagens e isso é muito grave em se tratando de um épico que requer um compromisso emocional com cada membro que forma a história.
O diretor Christopher Nolan, vencedor dos Oscars de Melhor Diretor e Melhor Filme por “Oppenheimer”, conta a jornada de Odisseu logo após a Guerra de Troia, acompanhando a jornada de Odisseu em seu retorno a Ítaca, enfrentando criaturas míticas e a ira dos deuses, enquanto sua esposa Penélope o aguarda.
Para dar vida a essa narrativa extraordinária, o elenco reúne alguns dos maiores nomes de Hollywood, incluindo Tom Holland (Telêmaco), Zendaya (Atena), Mia Goth (Melanto), Robert Pattinson (Antínoo), John Leguizamo (Eumeu), Jimmy Gonzales (Cefeu) e Himesh Patel (Euríloco). O filme conta ainda com as participações das vencedoras do Oscar Charlize Theron (Calipso) e Lupita Nyong’o (Helena).

O protagonista, interpretado por um Matt Damon que certamente dará o que falar na temporada de prêmios é fisicamente imponente, estrategicamente brilhante, mas emocionalmente opaco. Quer dizer, há sim uma força na presença da Matt Damon, que sempre foi um ótimo ator, mas o roteiro parece sempre evitar o clímax que faz com que a gente se engaje totalmente com o herói. Nolan filma sua astúcia (a métis homérica) com admiração de engenheiro. De forma não linear, acompanhamos Odisseu projetar o Cavalo de Troia, enganar o Ciclope, resistir ao canto das sereias. O que não vemos, ou mal vemos, é o protagonista chorando por Ítaca. O que não sentimos é a fome de anos não de comida, mas de reconhecimento, de toque, de saber se Penélope ainda o espera.
Há a passagem na ilha em que um semidesmemoriado Odisseu tenta recobrar as lembranças de seus amados, mas nenhuma apreensão sobre isso se cria de forma sólida embora muito bem filmado e atuado.
Damon entrega o que lhe é pedido, que é um herói de mandíbula firme, olhar calculista e postura de comandante. E Nolan acerta também nas hesitações e nos erros do herói. Mas há um fosso entre a representação da dor e a experiência da dor. Quando Ulisses finalmente reencontra Penélope, o momento que deveria ser o clímax emocional de três horas de espera é tratado com a mesma frieza com que Nolan filma uma cena de batalha naval. Falta o tremor. Falta a hesitação. Falta o medo de que vinte anos tenham transformado o amor em estranhamento. Cabe dizer que a emoção, ao menos ensaiada fica por conta da ótima atuação da Penélope de Anne Hathaway, tão astuta quanto o marido, que engana os pretendentes com a mesma sagacidade com que o esposo engana o Ciclope.
A escolha da direção de Nolan é mais interessada em como Odisseu escapa do que em por que ele insiste. A viagem vira uma sequência de obstáculos bem coreografados, não uma peregrinação da alma. Não consigo deixar de pensar no que Dennis Villeneuve (A Chegada) faria com essa obra.

Em minha opinião, um dos momentos mais humanos do filme não vem do protagonista, mas de Sinon, o soldado grego que se oferece como sacrifício para enganar os troianos. Interpretado com vísceras por Elliot Page, sua cena é devastadora. Há um olhar, um tremor, uma frase dita com a garganta seca: “Morrerei sem saber se valeu a pena.” Foi um dos grandes confrontos morais do protagonista no filme. Ou talvez eu só goste de pensar no que os mortos tenham a dizer.
Senti que neste momento o filme respirou um pouco do desespero que deveria ter acometido o herói e seus soldados. Sinon ali não tinha mais nada a provar. Foi só um instrumento que, por um instante, ganha alma. O rancor de Sinon e a consciência de que está sendo usado, de que sua morte será notícia de rodapé na história que outros contarão ecoa com uma verdade política e existencial que o restante do filme evita.
Tom Holland como Têlemaco segue mostrando que pode fazer qualquer tipo de personagem. A delicadeza e a espera estão nos olhos aflitos de seu personagem como se deve estar num filho que anseia o retorno do pai.
Sobre as ótimas atuações, vale mais que uma nota a Circe, interpretada por Samantha Morton, que rouba o filme em poucos minutos. Morton faz mais com o olhar do que muitos atores fazem com monólogos. A raiva dela, o rancor é uma das cenas ápices do longa.
Circe não é uma vilã no sentido tradicional; é uma mulher que foi usada, descartada e que agora transforma homens em porcos porque aprendeu que a confiança é um luxo que ela não pode mais pagar. O desespero quando ela encontra o primeiro soldado de Ulisses, o ódio que transborda do olhar, é o que o resto do filme não tem coragem de mostrar. Samantha Morton constrói uma personagem que é, ao mesmo tempo, vítima e carrasca, sedutora e repulsiva, divina e demasiadamente humana.

Zendaya, Lupita e a figuração de luxo
O desperdício de talento feminino em A Odisseia é quase uma assinatura de Nolan e não das boas. Zendaya, com seu figurino que parece saído de Duna (uma piada contada por uma colega jornalista) j: “ela trouxe o guarda-roupa de Arrakis para economizar na produção”), faz o papel de Atena, como uma espécie de conselheira que não serve muito para a narrativa. Zendaya merecia mais.
Lupita Nyong’o, então, a responsa´vel por encarner Helena, “o rosto que moveu mil navios” é totalmente desperdiçada. Uma figuração luxuosa que poderia mais, muito mais com uma personagem tão icônica. Num elenco repleto de estrelas, Nolan repete o erro de Oppenheimer: convida grandes atrizes para fazerem participações especiais em vez de personagens.
Se há um alívio no mar de frieza, esse alívio se chama Robert Pattinson. Antínoo começa com ambiguidade moral e cinismo e abraça o patetismo e a covardia amparado no domínio das expressões e charme de Pattinson. Pode ser que Pattinson concorra ao Oscar de coadjuvante.
Apesar das críticas acima, “A Odisseia” está muito distante de ser um filme ruim, Sequer mediano. É um bom filme e seria desonesto não reconhecer apenas por rigidez minha e das expectativas que criei (erradamente , diga-se).
Hoyte van Hoytema, o diretor de fotografia habitual de Nolan, entrega imagens que merecem ser vistas em IMAX. O mar se torna um personagem em sua mão e é ótimo acompanhar um blockbuster em que tudo têm textura, peso, fúria e vida. As ilhas, a de Circe, a dos Lotófagos, a de Calipso, são fotografadas com uma paleta que varia do verde venenoso ao azul onírico, passando pelo solar vívido, criando um mundo que parece saído de um sonho antigo, mas que é tangível em cada gota de água.
A cena do Ciclope é impressiona e brinca de forma competente com o terror. Talvez um gênero que deveria estar mais presente aqui. O medo de Odisseu de ser devorado e deixar seus companheiros serem devorado é substituído por uma coreografia de fuga bem ensaiada, que de fato é divertida, mas não causa medo.
A montagem mantém o ritmo com cortes secos, sobreposições temporais, transições que ligam o passado de Troia ao presente da viagem. Funciona como estratégia narrativa, mas em algum momento cansa. A Odisseia é um poema que se move em ondas, não em saltos. A montagem frenética de Nolan, que funciona tão bem em filmes sobre a mente, aqui parece querer apressar uma jornada que deveria ser vivida em tempo lento.
No final, quando Odisseu se banha em sangue, Ulisses finalmente se senta ao lado de Penélope, o espectador assistiu a uma aula magistral de estratégia militar , quando o foco deveria ser uma história de amor e retorno.
O filme vai sair com indicações ao Oscar – e com razão. Matt Damon e Robert Pattinson devem concorrer. Samantha Morton talvez receba uma indicação de coadjuvante, e mereceria. A fotografia, o som, a direção de arte – tudo é impecável. A indústria vai aplaudir.
Mas quem ama a Odisseia, quem leu o poema e sentiu o peso de cada remada, a espera de cada noite, o medo de cada ilha sairá do cinema com a sensação de que Nolan leu o épico como um manual de sobrevivência e não como um tratado sobre a alma humana.
A Odisseia é um marco técnico e uma frustração emocional. Imperdível para fãs de Nolan e de espetáculo visual; decepcionante para quem espera encontrar, no cinema, o coração do poema mais humano da literatura ocidental.
Nolan fez um filme sobre o mar. Mas esqueceu de filmar a saudade.
Título original: The Odyssey
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan (baseado no poema épico de Homero)
Elenco: Matt Damon, Robert Pattinson, Samantha Morton, Zendaya, Lupita Nyong’o, Anne Hathaway, Tom Holland, Charlize Theron
Fotografia: Hoyte van Hoytema
Trilha sonora: Ludwig Göransson
Montagem: Jennifer Lame
Duração: 2h58min
Gênero: Aventura / Épico / Fantasia
Distribuição: Universal Pictures
