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“Anatomia do Caos” revira a ferida aberta do governo Bolsonaro na pandemia, mas poderia dissecá-la com mais detalhes

A diretora Dandara Ferreira organiza o arquivo da CPI da Covid com competência didática, mas seu documentário troca a investigação profunda pela repetição factual
"Anatomia do Caos" revira a ferida aberta do governo Bolsonaro na pandemia, mas poderia dissecá-la com mais detalhes

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A pandemia foi um período em que meu ódio pela extrema-direita e por certas figuras só se consolidou. Saber que ninguém foi penalizado por aquele período, exceto os mortos, até hoje me deixa enojado. Com esse sentimento, fui ver com muito interesse o novo documentário de Dandara Ferreira (leia nossa entrevista com a diretora). Há um paradoxo no título de Anatomia do Caos. Dissecar, etimologicamente, é revelar camadas que o olhar comum não alcança, descobrir, sob a pele do óbvio, uma estrutura inédita. Mas o que ocorre quando o bisturi de Dandara Ferreira percorre exatamente os mesmos cortes que o noticiário, as redes sociais e a memória coletiva já fizeram, ano após ano, desde 2020? Essa tensão entre prometer revelação e entregar apenas reconhecimento atravessa o longa-metragem e resume seu maior impasse: o material é abundante, a montagem é competente, mas o filme parece, antes de tudo, uma versão estendida e cinematográfica daquilo que qualquer telejornal de fim de ano já fez ao revisitar a pandemia.

O filme se debruça sobre a gestão federal da Covid-19 no Brasil, recortando do vasto arquivo televisivo, sobretudo da TV Senado, os episódios mais emblemáticos do período: as falas públicas do abominável e nojento Jair Bolsonaro minimizando o vírus, a promoção de tratamentos sem comprovação científica, o sucateamento proposital das negociações por vacinas e, como eixo organizador da narrativa, os depoimentos prestados à CPI da Covid. A partir desses depoimentos, repletos de contradições, esquecimentos seletivos e situações eletronicamente acidentadas, como chamadas que travam ou se desconectam, a diretora costura uma linha do tempo cronológica, dos primeiros casos às centenas de milhares de mortes, na tentativa de reconstituir, em bloco, a tragédia sanitária do país.

"Anatomia do Caos" revira a ferida aberta do governo Bolsonaro na pandemia, mas poderia dissecá-la com mais detalhes

Ao optar pelo formato panorâmico e didático, o documentário parece dirigido a um espectador hipotético que desconheça completamente os fatos , alguém que, de algum modo, escapou ileso aos últimos seis anos de notícias, debates e disputas em torno do tema. Para qualquer pessoa minimamente atenta ao noticiário daquele período, o filme opera como repetição. É justamente aí que reside o ponto mais delicado da obra: sua pouca exploração para além do que já está disponível a quem acompanhou o país com atenção razoável. Essa limitação a aproxima de uma reportagem especial de TV aberta, com seus blocos cronológicos, contagem progressiva de óbitos na tela e trilha sonora de tensão crescente, quase emulando o gênero true crime, mais do que de uma experiência genuinamente cinematográfica.

Como um jornalista que acompanhou a CPI da Covid em todas as suas longas horas, muitas das cenas nas telas não me eram novas, e pouco acrescentaram ao que eu tinha de ideia sobre aquele período e sobre a conduta dos políticos que a conduziram.

Tal escolha não é isolada no panorama recente do documentário brasileiro. Produções como Quando Falta o Ar já haviam se debruçado sobre o mesmo período histórico, articulando o caos sanitário ao caos político do governo em exercício. A insistência temática não é, por si, um defeito, afinal, o trauma coletivo continua a demandar elaboração simbólica, e nenhum tema deveria ser considerado esgotado apenas por ter sido tratado antes. O que se discute é se o filme em questão consegue oferecer algum ângulo, alguma textura particular, que justifique sua existência ao lado dessa obra anterior, ou se apenas reafirma, com outros recortes de arquivo, uma indignação já amplamente compartilhada.

Caberia ao audiovisual funcionar como repositório de memória factual, organizando cronologicamente o que se sabe? Ou caberia a ele buscar ângulos, vozes e formas menos óbvias, capazes de provocar um entendimento novo sobre aquilo que, de outro modo, já circula amplamente pela cultura? O filme não resolve essa tensão e nem tem a obrigação de resolvê-la , mas a coloca em evidência com nitidez. Seu valor mais duradouro, ironicamente, não é o de uma anatomia definitiva do caos vivido, mas o de um convite a pensar, ainda que pelas margens, sobre os limites e as possibilidades do documentário político contemporâneo.

Dandara Ferreira (Foto de Flora Negri)

Há, no entanto, escolhas formais que merecem reconhecimento. A encenação acompanha os senadores pelos corredores estreitos do Congresso Nacional, e essas imagens se tornam uma síntese visual da narrativa: a investigação avança por caminhos labirínticos, como se a arquitetura do poder refletisse os desvios que qualquer comissão parlamentar de inquérito precisa percorrer até estabelecer uma versão sólida dos acontecimentos. Não existe linha reta quando a verdade depende de interesses políticos.

Em contrapartida, a abordagem de Dandara, que confina o documentário quase todo no espaço da CPI, reuniões, funcionamento interno, coletivas de imprensa , também confina a narrativa por inteiro, perdendo a oportunidade de explorar frestas que poderiam ampliar o quadro. Há rápidas incursões pela Polícia Federal, mas elas desaparecem tão rapidamente quanto surgem.

A diretora demonstra, contudo, um olhar atento para as ironias que escapam dos acontecimentos. Bolsonaro tosse logo depois de repetir um de seus bordões; Humberto Costa e Renan Calheiros aparecem conversando sem máscara enquanto tomam café – uma contradição diante do que defendem ao longo do filme. Um médico defensor da cloroquina é introduzido pela montagem de maneira ironicamente trágica, deixando que a legenda na tela produza o comentário. Carlos Wizard sorri em momentos absolutamente incompatíveis com a gravidade do país; Luciano Hang surge como um bobo da corte, que de bobo não tem nada, e figura central quando o filme aborda a Prevent Senior e a distribuição dos chamados kits Covid. Luís Miranda oferece uma das frases mais reveladoras de todo o documentário ao afirmar que, encerrada a CPI, todos ali continuariam amigos. É uma síntese da política brasileira, onde adversários públicos frequentemente preservam relações privadas enquanto o país permanece dividido.

Existe ainda outro aspecto que Dandara trabalha sem precisar sublinhá-lo. A questão de gênero atravessa alguns dos depoimentos de maneira evidente. Simone Tebet chama atenção para o tratamento que recebe em determinados momentos da CPI, enquanto Nise Yamaguchi – com a qual não concordo nem em uma vírgula também é submetida a uma hostilidade cuja intensidade parece desaguar no machismo estrutural. O jogo político é também um jogo de poder, e quem o representa, em geral, são os homens brancos. O filme registra esse fato, mas não o aprofunda mais uma oportunidade deixada à margem.

Sempre que o risco de a CPI transformar-se somente em um duelo entre políticos e poderes aumenta, a montagem lembra o público das consequências concretas do que está sendo investigado. Os planos aéreos dos caixões. Os familiares chorando seus mortos. Cidadãos comuns contam histórias semelhantes às de milhares de brasileiros que perderam pais, mães, irmãos, filhos ou amigos. O filme recupera o peso humano do que poderiam ser números que, repetidos diariamente durante meses, acabaram adquirindo uma assustadora aparência de normalidade.

A fotografia de Roberto Stuckert merece destaque. Em vez de buscar uma estética chamativa para um ambiente imediatamente pouco cinematográfico, ela encontra força justamente na observação dos espaços institucionais e do peso simbólico que esses lugares carregam. Da mesma maneira, a montagem de Lara Beck e Renato Sircilli trabalha com o fato de que muitos de nós já conhecemos o desfecho daquela investigação, preocupando-se mais com as conexões políticas e as relações de causa e consequência que vão sendo deduzidas ao longo do percurso.

O silêncio final e a pergunta que não cala

A CPI acaba. O relatório é entregue com a sugestão de indiciamento dos envolvidos. As provas são reunidas. O documentário é concluído. Permanece a pergunta: o que mudou? Dandara não formula essa questão diretamente porque a realidade responde por ela. A falta de responsabilização administrativa, civil e criminal foi substituída, em alguns casos, pela via eleitoral e isso nem alcançou todos.

Anatomia do Caos é um filme necessário para quem precisa ser apresentado ao que aconteceu, mas insuficiente para quem já viveu essa história em tempo real. Sua virtude está na organização didática do arquivo; seu defeito, na recusa em escavar o que o arquivo não diz. O bisturi é seguro, mas não é afiado

Em cartaz nos principais festivais e cinemas

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Última atualização em: 15 de julho de 2026 às 15:14

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