A Holanda acaba de confirmar o primeiro caso de eutanásia em uma criança com menos de 12 anos, um marco que escancara o abismo entre países que priorizam a dignidade humana e nações paralisadas pelo obscurantismo religioso. Enquanto os holandeses discutem com seriedade o direito a uma morte digna mesmo para os mais vulneráveis, o Brasil segue refém de um crentelhismo cultural que transforma debates éticos em guerras sancionadas pela Bíblia.
O procedimento, permitido na Holanda desde 2024, foi concedido a uma família que solicitou o fim do sofrimento insuportável de sua criança no final de 2025. O caso veio a público no dia pela ministra da Saúde Sophie Hermans, que apresentou ao parlamento o relatório anual do comitê de fiscalização. Mesmo sendo, em princípio, um ato punível pelo Código Penal holandês, cada caso passa por avaliação criteriosa, e o primeiro já foi notificado.
Aqui no Brasil, o debate sobre eutanásia, aborto e direitos reprodutivos é sequestrado por uma bancada que mistura política e púlpito, impondo uma agenda teocrática que impede qualquer avanço humanista. Enquanto o mundo discute como aliviar o sofrimento, nossos representantes gastam tempo com pautas que retrocedem direitos, sempre sob a batuta de pastores e bispos que confundem Estado com igreja. O crentelhismo cultural,essa mistura tóxica de fé ostentatória e poder político, impede que questões fundamentais sobre autonomia, sofrimento e dignidade sequer sejam pautadas com a seriedade que merecem.
A Holanda, que já permitia eutanásia para maiores de 12 anos desde 2002 e para bebês até 1 ano sob protocolos específicos, ampliou a lei para a faixa de 1 a 12 anos em 2024, após intenso debate ético e médico. Aqui, preferimos o silêncio e a omissão, enquanto famílias assistem entes queridos definharem sem qualquer amparo legal para escolher o fim do sofrimento. O atraso brasileiro tem nome: é o fundamentalismo religioso travestido de defesa da vida, que na prática só prolonga a dor e nega a autonomia. Enquanto isso, a Holanda segue adiante, mostrando que humanismo e ciência podem andar juntos quando não há uma bancada da fé ditando as regras.
