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‘Helen de Wyndhorn’: a fantasia para falar de luto, herança e pertencimento

'Helen de Wyndhorn': a fantasia para falar de luto, herança e pertencimento

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Helen de Wyndhorn é uma graphic novel que chega vestida de fantasia gótica, acende as luzes da mansão, abre os armários da memória e deixa você ali, meio hipnotizado, meio desconcertado. Escrita por Tom King, um dos mais proeminentes nomes dos quadrinhos nos últimos 15 anos, e desenhada pela talentosíssima artista brasileira em plena ascensão, Bilquis Evely, a série foi publicada pela Dark Horse e, em 2025, apareceu entre os títulos mais lembrados do Eisner, com Evely levando o prêmio de Melhor Desenhista/Arte-finalista por esse trabalho.

A premissa parece simples, mas é daquelas que escondem uma engrenagem bem mais cruel. Depois da morte do pai, o escritor pulp C.K. Cole, a jovem Helen é levada para Wyndhorn Manor, a propriedade do avô, e passa a conviver com uma casa que parece guardar segredos em cada corredor. A própria HQ é pensada como uma história sobre quem fica depois da tragédia, com a figura de Helen sendo puxada para um mundo em que fantasia e realidade começam a se misturar confundindo tanto os personagens quanto o leitor.

E aqui está a primeira sacada boa da obra: Helen de Wyndhorn não usa a fantasia como fuga, mas como linguagem emocional. A história é inspirada, em parte, pela morte de Robert E. Howard, e Tom King já comentou em entrevista que suas influências passam por romances góticos como O Morro dos Ventos Uivantes e pelo imaginário de Conan e do próprio Howard. O resultado é uma HQ que conversa com espada e feitiçaria, mas também com obsessão, dor e a pergunta incômoda que aparece o tempo todo: o que é real e o que a gente cria para suportar o real?

Esse é o Tom King que a gente conhece. O autor gosta de histórias em que o centro não está no evento grandioso, mas na rachadura humana por baixo dele. Em Helen de Wyndhorn, ele repete uma de suas marcas mais reconhecíveis, o jogo entre ficção e realidade, só que aqui isso fica ainda mais sofisticado. A narrativa trabalha com camadas de relato, memória e herança criativa, e a crítica especializada apontou justamente esse movimento como uma tensão entre “fantasia é real” e “nem tudo é exatamente como parece”.

Também aparece outra obsessão muito típica do King: personagens presos ao papel que herdaram, mas sem vontade nenhuma de vestir esse figurino. Helen não quer virar peça de museu de um legado masculino, nem ser empurrada para um destino escrito por outras pessoas. A HQ transforma isso em metáfora sobre segunda geração, trauma e identidade, como se dissesse que herdar algo não significa entender, aceitar ou repetir esse algo. A história lida com o luto do pai, com a ausência e com o peso do nome da família, mas vai além disso ao sugerir que as narrativas que recebemos também podem nos aprisionar.

E aí entram as metáforas, que são a alma secreta da obra. A Mansão Wyndhorn funciona como a forma física da memória, uma casa enorme demais, cheia de cantos escuros demais, com uma arquitetura utilizada para materializar aquilo que ninguém quer encarar. Ela é um mapa emocional da protagonista, um lugar onde o passado não está encerrado, mas trancado em gavetas, portas e corredores.

É nessa engrenagem que a HQ ganha seu sentido mais forte: ela fala sobre histórias como herança. O pai de Helen é escritor, mas também um fantasma criativo que continua agindo depois da morte. O que ele escreveu não fica preso no papel; contamina a vida, molda percepções, gera versões do mundo. Então a mensagem mais profunda não é só “fantasia existe”, e sim “as narrativas que recebemos continuam vivendo dentro da gente”.

Se Tom King escreve com feridas, Bilquis Evely desenha com assombro. A trajetória dela vem de longe: começou nos quadrinhos com Luluzinha Teen e Sua Turma, avançou para o mercado americano e passou por trabalhos na DC antes de chegar ao encontro decisivo com King em Supergirl: Mulher do Amanhã e, então, em Helen de Wyndhorn. Ela mesma segue um processo mais tradicional, desenhando com papel, lápis, pincel e nanquim, o que ajuda a dar à arte uma textura única, absolutamente rica em detalhes e linda, bem distinta do estilo mais ‘padronizado’ que domina boa parte da indústria.

Em Helen de Wyndhorn, essa evolução encontra seu auge. A arte foi descrita como próxima da ilustração clássica de livros, com hachuras, linhas que dão peso e textura e uma estrutura de página que alterna entre uma narrativa mais contida e outra mais complexa, cheia de sobreposições e desenhos fantásticos. O uso de cores de Matheus Lopes, com uma paleta mais limitada, deixa o traço respirar e faz ‘o fantástico’ se sobressair ainda mais.

É uma arte que não está ali para acompanhar a história. Ele faz parte dela, empurra a leitura e, em muitos momentos, conta o que o texto só sugere. Esse encontro gera um quadrinho que parece antigo e novo ao mesmo tempo, como se tivesse sido encontrado numa biblioteca mal-assombrada e restaurado por alguém com muito gosto, talento e muita audácia.

Tudo isso ajuda a explicar por que o Eisner de 2025 não soa como surpresa, mas como coroação. A premiação oficial da Comic-Con registrou Bilquis Evely como vencedora de Melhor Desenhista/Arte-finalista por Helen of Wyndhorn, e ela se tornou a primeira mulher brasileira a vencer o prêmio.

É muito provável que você termine esta HQ querendo consumir mais destes dois. E a dica é: faça isso! Vale muito a pena se aprofundar nas obras de Tom King e Bilquis Evely, especialmente se você estiver com a mente aberta para a pluralidade que ambos têm, os diferentes gêneros por onde conseguem navegar. O roteirista já é mais experiente e você vai encontrar muita coisa dele por aí, o cara parece uma máquina. Já a desenhista ainda está construindo seu nome mas já tem um bom repertório.

Helen de Wyndhorn é uma obra que entrega mais do que promete. Ela parece falar de aventura, mas está falando de luto. Parece falar de fantasia, mas está falando de legado. Parece falar de monstros, mas está falando do que sobra quando uma família, uma história e uma identidade racham por dentro.

E se isso tudo já seria suficiente para valer a leitura, a edição brasileira lançada pela Cia. das Letras através do selo Suma está lindíssima, fazendo jus à qualidade da obra. Muito fiel à versão original da Dark Horse, aqui o acabamento em capa dura com detalhes metalizados, se justifica totalmente para conversar com o tom fantástico da história.

Para quem gosta de quadrinhos com densidade, beleza e uma camada emocional que não faz pose, é leitura mais do que recomendada. Ela te exige uma certa entrega, mas recompensa com algo um tanto raro nos quadrinhos mainstream, mas que sobram nos alternativos: sensação. Não só entendimento, não só admiração estética — sensação mesmo, daquelas que grudam.

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Última atualização em: 2 de maio de 2026 às 20:34

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