Imagine Jesus Cristo de volta à Terra e ficando sob os cuidados do Superman, ou pelo menos um super-herói parecido com ele, só que menos ‘virtuoso’. Essa é mais ou menos a premissa de O Retorno do Messias.
Nessa história, Deus é um cara bem escroto e poucas ideias. É como se fosse a versão dele no Antigo Testamento só que bem boca suja e que ficou bem desiludido com a humanidade, praticamente tendo desistido dela.
Sua decepção já começa no Éden, no início da HQ. Apesar de ter colocado Adão e Eva em um Paraíso, literalmente, eles preferiram o pecado. E depois, o Todo Poderoso parece perder de vez a fé na humanidade vendo a forma como seu filho é tratado em sua estadia na Terra.

Já Jesus, é um jovem adulto bem gente boa e que age como uma real divindade, sendo ‘bonzinho’ toda vida. Ele gostaria muito de voltar à Terra, mas seu pai simplesmente não deixa.
Então Deus decide liberar Jesus para voltar, desde que ele fique aos cuidados do maior super-herói da Terra naqueles dias: Solar. Ele é basicamente uma paródia do Superman, tendo os mesmos poderes e também sendo um alienígena com história de origem similar.
Porém, ele não parece ser assim tão interessado em salvar e proteger a humanidade, faz muito mais como um trabalho. E mais do que isso, ele tem seus próprios problemas ‘humanos’. Ele quer ter filhos (na verdade, sua esposa que quer muito), mas não sendo humano, fica um tanto difícil.
Quando o divino encontra o mundo… e um super-herói
Enquanto Solar representa a ideia moderna de justiça — rápida, violenta e cheia de certezas — Jesus chega com uma proposta completamente oposta: empatia, paciência e questionamento. Não é sobre salvar o mundo na base do soco, mas sobre tentar entender por que ele está tão quebrado.
Jesus, por exemplo, é retratado de forma extremamente humana. Ele não chega julgando ou impondo regras; ele observa, tenta entender e, muitas vezes, se frustra. Existe uma inocência nele que contrasta com o cinismo do mundo atual — e isso gera tanto humor quanto desconforto.
O contraste entre os dois personagens move a narrativa e rende alguns dos momentos mais interessantes da HQ. Não é uma história de ação tradicional, bem longe disso — é quase um estudo de personagens e crítica social disfarçado de comédia.
E o mais interessante: ela faz isso sem cair no ataque gratuito. A HQ não está interessada em chocar só por chocar — ela quer provocar pensamento. Há quem diga que ela promete mais do que entrega nesse aspecto, pegando um pouco leve demais na crítica e ficando um tanto rasa. De fato, caberia muito mais. Há muita brecha para isso, mas talvez a ideia seja justamente apenas levantar a bola, cutucar e não ‘bater’ de fato. É um tema polêmico em uma história leve, divertida.
Sim, a HQ é engraçada — e bastante. Mas o humor aqui não é só punchline. Ele funciona como ferramenta narrativa.
Tem situações que parecem saídas de uma sketch de comédia? Também.
Só que por trás disso sempre existe uma ideia sendo trabalhada. A convivência entre Jesus e Solar, por exemplo, é um experimento social: o que acontece quando duas visões de mundo completamente opostas são obrigadas a coexistir?

O choque entre o ideal e a realidade
Uma das camadas mais interessantes de O Retorno do Messias não está só na ideia “Jesus dividindo apartamento com um super-herói” — mas no que isso diz, de forma bem direta (e às vezes até desconfortável), sobre o mundo em que a gente vive hoje.
Porque, no fundo, a HQ levanta uma pergunta relativamente simples e meio incômoda: se Jesus voltasse hoje, conforme o cristianismo acredita que pode acontecer (e eventualmente vai), ele reconheceria a humanidade que diz seguir seus ensinamentos?
Nesta história, quando Jesus retorna, ele não encontra o mundo que deixou — encontra uma versão distorcida dele.
A mensagem que antes era sobre empatia, acolhimento e perdão agora parece ter sido reinterpretada de mil formas diferentes. E nem sempre para melhor. A HQ mostra isso sem precisar de grandes discursos: está nas pequenas interações, nas atitudes das pessoas, na forma como a fé virou, muitas vezes, identidade — e não prática.
Jesus, nesse contexto, funciona quase como um observador deslocado. Ele não entende por que suas palavras foram transformadas em algo tão rígido, tão seletivo e, em muitos casos, tão distante da ideia original.
O herói que resolve tudo no soco
Do outro lado dessa equação entra o Solar, que é basicamente a personificação do herói moderno.
Criado por Mark Russell, o personagem representa uma ideia muito atual de justiça: rápida, direta e, quase sempre, violenta. Ele não questiona — ele age. E age com a certeza de que está certo.
Quem é leitor mais experiente de quadrinhos de super-heróis já viu essa releitura do Superman antes: em Invencível, The Boys, Authority e Astro City, por exemplo.
E aqui a HQ manda uma indireta bem clara: será que os heróis que a gente idolatra hoje realmente representam o que a gente deveria admirar?
Solar não é um vilão. Ele acredita genuinamente que está fazendo o bem. Mas a forma como ele faz isso — sem reflexão, sem empatia, sem nuance — entra em conflito direto com tudo o que Jesus representa.
É quase como se a HQ colocasse duas filosofias frente a frente: uma baseada em força e controle; outra baseada em compreensão e compaixãoeE deixasse o leitor decidir qual faz mais sentido. Spoiler: não existe resposta fácil.
A crítica também se expande para a forma como a sociedade constrói e consome figuras heroicas — sejam elas personagens de quadrinhos, celebridades ou até figuras políticas. E, por que não, religiosas?
A HQ sugere que a gente criou um tipo de herói que: precisa ser forte o tempo todo nunca pode demonstrar dúvida e resolve problemas de forma rápida (mesmo que brutalmente)
E isso diz muito mais sobre a gente do que sobre esses “heróis”. Porque, no fim, talvez a gente prefira esse tipo de figura justamente porque ela simplifica um mundo que é complicado demais.
Um dos grandes acertos de Mark Russell em O Retorno do Messias está na forma como ele usa o humor sem transformar a história em deboche. É um humor que ri com as situações — e, principalmente, com as contradições humanas. Aquele tipo de riso que vem meio travado, sabe? Você ri… mas logo depois pensa: “pera, isso aqui é meio triste também”.
Ao mesmo tempo, Russell evita cair no tom de sermão. Mesmo lidando com temas gigantes — fé, moralidade, violência — o autor não transforma a história num discurso. Em vez disso, ele constrói situações, deixa os personagens reagirem e confia que o leitor vai tirar suas próprias conclusões
Isso torna tudo mais leve, mesmo quando o assunto é pesado. Porque ninguém gosta de sentir que está sendo “educado” por uma HQ, mas todo mundo gosta de perceber algo por conta própria.
O trabalho de Richard Pace complementa bem essa proposta. O traço não tenta ser grandioso ou hiper-realista, tampouco infantilizado ou estilizado demais — ele é funcional, direto e ajuda a manter o equilíbrio entre o absurdo e o humano. Quando a HQ precisa ser leve, ela é. Quando precisa pesar, o visual acompanha.
E isso é importante, porque uma história como essa poderia facilmente se perder no tom. Aqui, tudo parece bem calibrado.
Vale a leitura?
Vale — principalmente se você curte histórias que fogem do padrão.
Não espere uma narrativa tradicional de super-herói. Aqui, o foco não está nas batalhas épicas, mas nas conversas, nos conflitos ideológicos e nos pequenos momentos que fazem você parar e pensar.
Também não vá querendo encontrar um ‘Monty Python’, uma comédia escrachada e ácida, pesando a mão na crítica social e religiosa. É um humor bem mais leve, crítica menos aguda. Até mesmo um cristão com um pouco de bom senso e mente aberta pode se divertir e refletir sem se ofender. E também o fã de ‘gibi de hominho’, que pode ser tão cabeça fechada quanto alguns religiosos.
É uma leitura rápida, mas que fica na cabeça depois que termina.
E talvez esse seja o maior acerto da HQ: ela pode até começar como uma ideia meio maluca, mas termina de forma coerente e interessante.
De Mark Russel, Richard Pace e outros artistas
176 páginas
Comix Zone | 2021
Tradução: Érico Assis
