A família do jogador Willian, atual Grêmio e ex-Corinthians e Chelsea, processou a ex-empregada doméstica para cobrar uma dívida de cerca de R$ 4 mil. Leidinalva pediu R$ 10 mil à patroa para dar entrada na casa própria e sair do aluguel. As duas combinaram desconto mensal de R$ 500 no salário. Acontece que Vanessa dispensou os funcionários da residência em janeiro de 2019, arcando com os custos de férias, 13º e demais verbas trabalhistas à diarista.
Ainda em meio ao processo de desligamento, Vanessa abateu cerca de R$ 4 mil da dívida com Leidinalva, restando, segundo ela, outros R$ 4 mil. A diarista recebeu a primeira cobrança quando ainda estava desempregada, três meses depois, mas afirma que não conseguiu pagar e tentou contato para negociar. Após a repercussão na imprensa, a esposa do jogador disse que retirou o processo e que na verdade não sabia. Claro.
A origem periférica de Willian, e sendo ele uma pessoa preta, deveria lhe dar alguma consciência ou ao menos aos seus próximos. O fato de a dívida só ter sido quitada após a exposição na mídia parece dar o tom de alguém que só se preocupa com imagem. Triste saber, embora a gente nunca possa esperar muito de jogadores de futebol.

A trajetória de Willian é o sonho de consumo do imaginário brasileiro: o menino pobre que venceu no futebol e deu uma vida de luxo e estabilidade à sua família. Atualmente, no Grêmio, seu salário é de mais de Um milhão de reais. Então , imaginem o nível de mesquinhez de cobrar a empregada assim. Sem contar no salário risível que pagava. Infelizmente a ascensão social nem sempre vem acompanhada da manutenção da empatia de classe.
O sociólogo Sérgio Buarque de Holanda falava da “cordialidade” como a capacidade de agir mais pelo coração do que pela razão, mas também como uma forma de mascarar conflitos. No caso, essa cordialidade existiu enquanto a relação patrão-empregada era conveniente (o empréstimo foi feito). Quando a relação cessou, a cordialidade deu lugar à impessoalidade brutal da Justiça.
Talvez, Willian e sua esposa tenham mantido a dívida ativa para se diferenciar de sua origem, sentirem-se acima da plebe que deixaram de ser. Cobrar uma dívida de R$ 4 mil de uma diarista, com juros e bloqueio de conta, enquanto se vive uma realidade de salário milionário e férias na Europa é cuspir no próprio passado. E tudo bem não querer lembrar dos próprios dias de pobreza, mas uma dose de empatia seria bem-vinda. O jogador poderia comprar uma casa para Leidinalva se desejasse, mas acho que preferem a postura “Eu não sou mais como você. Não tenho mais nada a ver com a sua luta.”
Mas outra coisa curiosa é a justiça decidir contra a mais pobre sabendo das condições dos envolvidos no processo. Para Leidinalva, a justiça veio na forma de um bloqueio de conta que a impediu de trabalhar formalmente, por medo de ter salário bloqueado.
A maior ironia de todo o caso é que a dívida, que tramitava na Justiça há anos sem solução, foi magicamente “perdoada” ou “quitada” em questão de horas após virar manchete. Felizmente, de vez em quando, nossa imprensa ainda lembra para quê existe. Se não houvesse imprensa ou redes sociais para expor o caso, Leidinalva continuaria com a conta bloqueada e a dívida correndo juros.
O argumento do advogado de Vanessa de que ela “desconhecia a ação” e que um tio agiu por conta própria. Aparentemente, nem assessoria de imprensa a família paga. O cheiro de tentativa de gestão de crises fica forte.
No mundo jurídico, um procurador age em nome de quem o constituiu. Ainda que não tenha sido informada do dia a dia do processo, Vanessa (ou Willian) certamente poderia ter, em algum momento dos últimos 3 anos, perguntado sobre o andamento daquela “dívida de R$ 4 mil” que havia deixado para trás.
Vanessa entrou com pedido de “extensão do processo” (desistência) após a repercussão. Ou seja, a reparação do dano não veio da consciência, mas do medo do linchamento virtual. Isso enfraquece qualquer tentativa de passar uma imagem de “arrependimento”. Não houve um pedido de desculpas público e espontâneo à Leidinalva, mas uma ação reativa para apagar o incêndio nas redes.
Willian, que um dia pode ter visto a mãe ou a avó passarem por dificuldades semelhantes às de Leidinalva, permitiu (por ação ou omissão) que sua esposa e sua família tratassem uma ex-funcionária de forma humilhante.
Seguimos tendo a riqueza preta nas mãos de jogadores que se recusam a desenvolver consciência racial e de classe.O mais moral a fazer seria William quitar as dívidas da ex-empregada e ajudá-la no que for necessário. Mas quem liga para o que é moral?
