Maicon de Souza Silva tinha dois anos de idade. Brincava na frente de casa, na Favela de Acari, quando um tiro disparado por um policial militar atingiu sua cabeça . Em vez de justiça, o que sua família recebeu foi um registro imundo chamado “auto de resistência”, um termo sujo que a polícia usava para, com a desfaçatez que lhe é característica, jogar a culpa na própria vítima morta, como se um bebê de dois anos fosse uma ameaça, como se a criança que brincava fosse a autora dos disparos .
O alvo da Operação Miragem em 1996 foi o 9º Batalhão da PM . Foram esses vermes fardados que abriram fogo contra uma criança. Maicon foi assassinado e Renato da Silva Paixão, de seis anos, perdeu uma perna . Nenhum desses assassinos foi levado à Justiça. Pelo contrário: enquanto a família enterrava o filho, os envolvidos receberam bônus da corporação .
Durante três décadas, o pai José Luiz Faria da Silva fez protestos, vigílias e mobilizações . Exigiu o óbvio: que o nome do filho fosse limpo. A investigação foi arquivada em 2019 por falta de vontade de um sistema que sempre protege seus algozes .

Só agora, depois de recomendação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Ministério Público desarquivou o caso, e o Estado brasileiro pediu desculpas . Mas quem vai punir os assassinos de Maicon? Quem vai dizer os nomes desses soldados que receberam bônus por matar uma criança? A ministra Janine Mello afirmou que “nenhuma família deveria esperar décadas por justiça” . Concordo. Nenhuma família deveria esperar. Mas, acima de tudo, nenhum policial deveria matar uma criança impunemente e ser premiado por isso.
Enquanto a investigação segue com prazo de um ano, os assassinos de Maicon seguem anônimos e livres,protegidos pela farda e pelo código de silêncio que transforma a Polícia Militar numa máquina de matar periféricos. Que esses soldados, onde quer que estejam, tenham o nome e a farda marcados para sempre pela covardia que cometeram.
