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Assassinatos de pessoas negras pelas mãos de racistas fardados batem recorde em nove estados e escancaram sanha de morte dos fardados

Relatório “Pele Alvo” aponta que 86% das vítimas são negras e jovens; Bahia, Pará e São Paulo lideram números absolutos; especialistas denunciam lógica militarizada e ausência de políticas eficazes
POLICIA

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O ano de 2025 consolidou um dos capítulos mais sombrios da segurança pública brasileira. Pelo menos 4.330 pessoas morreram em decorrência de intervenções policiais em nove estados do país – o maior número registrado desde 2019, início da série histórica. Os dados, divulgados na última quarta-feira (1º) pelo relatório Pele Alvo: Entre Racismo e Letalidade, o Amanhã, da Rede de Observatórios da Segurança, revelam não apenas um crescimento de 6,4% em relação ao ano anterior, mas também a perpetuação de um padrão brutal: 86% das vítimas são pretas ou pardas.

O levantamento analisou informações de Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo – estados que concentram grande parte da população brasileira e também os maiores índices de violência estatal. Do total de mortos, 2.804 tinham até 29 anos (quase 65%), e 312 eram menores de 18 anos, incluindo duas crianças de até 11 anos.

O perfil da vítima: jovem, negro, periférico e masculino

Em quatro dos estados analisados, todas as vítimas eram do sexo masculino; em outros quatro, esse percentual ultrapassava 95%. Francine Ribeiro, mestra em ciências humanas e sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e uma das responsáveis pelo estudo, sintetiza o perfil predominante: “É o jovem negro periférico do sexo masculino, que tem maior incidência nas prisões.”

A pesquisadora também destaca o impacto psicossocial dessas mortes sobre as comunidades mais afetadas: “As pessoas têm medo, ansiedade e estão em constante situação de alerta.” O dado revela que a violência policial não é um evento isolado, mas uma condição estrutural que molda a vida cotidiana de milhões de brasileiros.

Repetindo um padrão histórico, a Bahia registrou o maior número absoluto entre os nove estados: 1.570 mortes em intervenções policiais ao longo de 2025. Dos 365 dias do ano, apenas em 19 não houve vítimas – o que significa que, em média, mais de quatro pessoas foram mortas por dia no estado.

Desse total, 94% eram identificados como pretos ou pardos, contra 80% na população total. Segundo o relatório, a alta letalidade está ligada à disputa de mais de 20 facções criminosas por rotas e pontos de venda de drogas, o que tem levado o estado a adotar uma lógica de confronto armado em vez de estratégias de inteligência e prevenção.

Latuff

O Rio de Janeiro atingiu 800 mortes em 2025, um aumento de 13,8% em relação a 2024. O salto foi impulsionado pela Operação Contenção, que matou 121 pessoas em uma tentativa do governo estadual de conter o avanço do Comando Vermelho. Entre as vítimas, duas crianças de até 11 anos.

Enquanto pessoas negras representam 57,8% da população fluminense, elas correspondem a 89,5% das vítimas. O monitoramento associa o crescimento do número de mortos à expansão de facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que disputam territórios em meio a uma política de militarização crescente.

A chegada do crime organizado ao Norte e ao Nordeste fez com que governos estaduais dessas regiões adotassem medidas de segurança cada vez mais repressivas – o que se refletiu em mais mortes. Ceará, Maranhão e Pará registraram os maiores números de suas séries históricas: 200, 142 e 632 mortes, respectivamente.

Em Pernambuco, foram 89 mortes, alta de mais de 30% em relação ao ano anterior, em um contexto de discurso oficial de combate à criminalidade e de maior investimento em tecnologia e segurança pública. No entanto, como aponta o relatório, o aumento do aparato policial não tem sido acompanhado por redução da letalidade – antes, o efeito tem sido o inverso.

Subnotificação e apagamento de dados

Maranhão e Ceará tiveram mais de 54% das vítimas sem raça informada. Para Francine Ribeiro, essa ausência de dados dificulta a formulação de políticas públicas de enfrentamento à letalidade policial. “O fenômeno se repete há anos e reflete a falta de vontade de mudar essa realidade”, afirma.

Já Pará e Amazonas – com 81 mil e 491 mil indígenas, respectivamente – não registraram nenhuma morte entre esse grupo. Mas a pesquisadora explica que, na prática, “o estado acaba por enquadrar os indígenas como pardos”, o que distorce os números e apaga a violência específica sofrida por essa população.

No Ceará, um decreto do governador alterou a nomenclatura de “morte por intervenção policial” para “lesão corporal/homicídio decorrente de oposição à intervenção”, trocando também os termos usados para os envolvidos: a vítima passou a ser chamada de “opositor”, e o policial, de “interventor”. O estado registrou 200 mortos em 2025, o maior número de sua série histórica.

Francine afirma que a mudança reforça o que já ocorre na prática: o favorecimento da impunidade dos agentes, que, sob essa lógica, atuam apenas para se defender. “A utilização de palavras que condenam um lado e inocentam o outro não contribuem para a busca da justiça”, diz.

O Piauí foi o único estado a registrar redução na letalidade policial: 20 mortes, uma queda de mais de 50% em sete anos. O relatório associa esse contraste a iniciativas antirracistas na Polícia Militar do estado, embora alerte para o crescimento de mortes por causas indeterminadas no período.

Medidas como as adotadas no Piauí apontam caminhos possíveis para reverter o crescimento das mortes em intervenções policiais, afirma a pesquisadora. Ela também cita o exemplo de São Paulo, onde as câmeras corporais ajudaram a reduzir o número de vítimas até 2023, quando os investimentos nessa política caíram, e os números voltaram a subir.

Conclusão: um padrão que precisa ser rompido

O relatório Pele Alvo não traz novidades absolutas – ele confirma, com dados atualizados, o que a sociedade brasileira já sabe, mas frequentemente escolhe ignorar: a polícia mata mais quando o alvo é negro, jovem e pobre. E mata em números crescentes, mesmo quando os índices de criminalidade caem.

A pesquisa evidencia que a solução não está em mais armas, mais operações ou mais truculência, mas em uma profunda reforma das instituições de segurança, com investimento em inteligência, formação antirracista, transparência de dados e responsabilização efetiva dos agentes.

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Última atualização em: 10 de julho de 2026 às 14:15

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